quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Criolo em Londrina, o que esperar?

João de Carvalho


Criolo foi um dos estopins desta nova "boa onda" - visibilidade - do rap nacional. O seu segundo disco, o Nó na Orelha, produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, levou a poética do Kleber Cavalcante, filho da Dona Vilani, para além da cena do hip hop nacional. Vocês já devem conhecer um tanto desta história...

O primeiro disco do Criolo, quando ainda assinava Criolo Doido, chama-se Ainda há Tempo e pode ser conferido aqui. 

É importante escutar o "Ainda há Tempo" para se ter uma ideia mais clara do que foi o "Nó na Orelha". Podemos dizer que muitas das coisas que caracterizam a poética do Criolo em seu segundo disco já estão presentes neste primeiro trabalho. Mas o que seriam estas "coisas que caracterizam a poética"? Aí não é tão fácil de dizer assim rápido... mas penso que o primeiro ponto que grita nisso que chamei de poética do Criolo é este apelo ao amor, como fica claro tanto em Ainda há Tempo - a canção - quanto em Não Existe Amor em SP.

Poderíamos pensar que o manejo das palavras vai ficando, do primeiro álbum para o segundo, mais abstrato. É evidente que o uso de metáforas e de um discurso mais subjetivo é uma das marcas mais fortes do Nó na Orelha. Mas é preciso lembrar que este segundo álbum é um registro de canções (pra mim rap é canção, mas é importante frisar que o próprio Criolo faz esta distinção de termos) antigas, que eram conhecidas somente pelos amigos próximos que ficavam com as "orelhas cheias de nós" depois de escutar o Klébinho cantar. Vejam que os títulos dos álbuns refletem com precisão esta diferença de propósito, enquanto um se engaja com mais afinco com os problemas emergenciais da comunidade o outro se destina (entre outras coisas) à um aprimoramento da consciência e do exercício lógico/poético. Estas diferenças são tendencias gerais, e não distritos isolados um do outro.

Nos shows que Criolo registrou ao vivo - no Circo Voador e com o Emicida - rolou um resgate natural de algumas canções do primeiro disco. Ainda que a figura pública - repercutida pela imprensa - do Criolo tenha se mostrado mais pelo seu lado "mais amor", o MC inconformado sempre esteve presente.

Mas a fase Nó na Orelha acabou. Agora Criolo vem apresentar um novo show, mais próximo da estética de base do hip hop. DJ Dandan, por exemplo, assume o toca discos. A banda está mais compacta, e sem os metais coordenados pelo Thiago França, a guitarra de Guilherme Held ganha outro peso. Até mesmo a postura (e vestimentas) do Criolo parecem frisar a natureza deste novo momento, onde conquistado um novo público, é preciso reforçar a natureza combativa de sua arte. Me lembro de uma das inúmeras entrevistas que eu vi do Criolo, em que ele dizia que um MC não faz rap por falta de escolha, e sim pq é preciso fazer!

Vale a pena conferir estes dois vídeos que se seguem. O primeiro é uma chamada para o show de estreia do novo trabalho, o Duas de Cinco, e o segundo é a canção ao vivo (não consegui colocar pra assistir aqui... ???).



Bem, como este é um blog de caráter educacional, vou comentar um pouco sobre algumas características desta nova canção, a Duas de Cinco, pois trabalhei ela com alguns alunos de instrumento - não do curso "A Canção e Seus Sentidos".

Antes de mais nada é preciso escutar com calma a canção original de Rodrigo Campos, a Califórnia Azul.


Rodrigo Campos consegue criar um texto cheio de sugestões, mas com buracos imensos, onde nos convoca à uma escuta ativa. Em nenhum momento aparece uma cena clara. Mas são imagens onde podemos localizar uma intriga entre dois jovens - o crime foi consumado? (é só uma potência para o mal, uma energia deslocada... pode haver salvação... "vamos resgatar", Criolo clama em Ainda há Tempo...) - tráfico, poder, autoestima... 


"Não tava lá fazendo cêra
ele não tá de brincadeira
garoto se jogou no asfalto
carregado na canseira...

Deixou a mina na calçada
como é bonita e safada
fica me olhando desse jeito
e eu não posso fazer nada...

Já dei plantão na rua dela
namorado na favela
garoto que já tem cartaz
e a mina dando trela...

Compro uma pistola do vapor
visto um jaco Califórnia azul
faço uma mandinga pro terror
e vou...


Se eu fosse um cara diferente
chegava junto de repente
beijava a boca e tudo mais
pelo tesão que a gente sente...

Compro uma pistola do vapor
visto um jaco Califórnia azul
faço uma mandinga pro terror
e vou..."

Perdão colocar a letra inteira aqui pra vocês, mas senti que era importante percebermos esta escrita do Rodrigo Campos, bem ele, que tal como Criolo, também cresceu na periferia de São Paulo. Esta canção é uma crônica que registra o drama de um jovem sujeito ao crime, motivado por aflições humanas básicas... um desnudamento ao ponto de revelar a fragilidade do ser, o que transcende o limite da luta de classes... um discurso imagético, com referências locais e de época (jaco califórnia azul é uma jaqueta azul, que era o sonho de consumo dos jovens da década de 1980; vapor é apelido - antigo - para os jovens e crianças trabalhadores do tráfico de droga)...  

A parte musical também é muito condizente com toda esta proposta narrativa. O violão de Campos é muito simples (atenção professores de violão, esta canção é uma ótima pedida para se trabalhar com os alunos!), mas de forma alguma é simplório. Temos uma harmonia modal em Em, composta por um movimento dissonante nos baixos... este violão acaba sugerindo uma atmosfera de suspense, sensação reforçada pela construção da letra... tudo é muito simples, mas muito contundente. 

A forma da canção também traz informação, pois articula o texto de maneira assimétrica, destacando o sentido da última estrofe. Esta configuração formal, este recorte do tempo, sublinha a dimensão do tesão (força tipicamente jovem) e da insegurança frente à um grupo (conflito tipicamente jovem). Os momentos instrumentais da canção valorizam as conexões subjetivas desencadeadas pelo texto.  O trabalho de textura e sonoridade desta canção é fantástico - tb, é o Kiko Dinucci aí! 

Criolo disse que quando acabou de escrever a primeira parte de Duas de Cinco, ele já sabia que gostaria de ter como refrão a canção de Rodrigo Campos. De fato, muitas das características estilísticas que apontei no Rodrigo são aproveitadas por Criolo. Vejamos:


(sample de Califórnia Azul)

É o cão, é o cânhamo, é o desamor/ é o canhão na boca de quem tanto se humilhou/ Inveja é um desgraça, alastra ódio e rancor/ E cocaína é uma igreja Gringa de le chereau// Pra cada rap escrito uma alma que se salva/ O rosto do carvoeiro é o Brasil que mostra a cara/ Muito blá se fala, a língua é uma piranha/ Aqui é só trabalho, sorte é pras crianças// Que vê o professor em desespero na miséria/ Que no meio do caminho da educação havia uma pedra/ e havia uma pedra no meio do caminho/ ele não é preto velho mas no bolso leva um cachimbo /// É o sleazestack dos zóio branco, repara o brilho/ Chewbacca na penha, maizena com pó de vidro/ Comerciais de TV, glamour pra alcoolismo/ É o Kinect do XBox por duas buchas de cinco.

HA-HA-HA-HA-HA-HA
HA-HA-HA-HA-HA-HA
Chega a rir de nervoso
Comédia vai chorar

(sample de Califórnia Azul)

E eu fico aqui pregando a paz e a cada maço de cigarro fumado a morte faz um jaz entre nós, cá pra nós, e se um de nós morrer, pra vocês é uma beleza.// Desigualdade faz tristeza./ Na montanha dos sete abutres alguém enfeita sua mesa./ Um governo que quer acabar com o crack, mas não tem moral para vetar comercial de cerveja. // Alô, Foucault, cê quer saber o que é loucura?/É ver Hobsbawm na mão dos boy, Maquiavel nessa leitura. /Falar pra um favelado que a vida não é dura, e achar que teu doze de condomínio não carrega a mesma culpa. // / É salto alto, MD, Absolut, suco de fruta, mas nem todo mundo é feliz nessa fé absoluta/ Calma, filha, que esse doce não é sal de fruta, / Azedar é a meta, tá bom ou quer mais açúcar?"


Temos a questão do tráfico de drogas como cenário da canção. Imagens da cultura de massa de outras épocas aparecem na letra (sleazestack, e Chewbacca). Vários extratos sociais estão presentes neste texto. É uma verdadeira polifonia de referências, uma fala de alguém que trafega entre mundos com vocabulários diferentes. Alguns ouvintes sabem o que é "duas bucha de cinco", outros sabem quem foi "Hobsbawm". Isso em princípio, pois quem foi que criou este muro invisível? Este muro é real? 

Dizer mais sobre esta letra, que é uma pedrada, é estragar sua fruição. Apenas recomendo, busque as referencias que lhe faltam e tente criar as imagens e reconstruir os "argumentos" deste texto, vale a pena. Aqui tem um link que dá umas primeiras dicas, mas vá mais fundo.

Eu apresentei o texto já articulando as frases com os compassos e a cadência harmônica da canção - desculpem, pra mim ainda é canção. O sample do Rodrigo Campos cantando é manipulado em estúdio e acelerado. O andamento (velocidade) da canção fica um pouco mais rápido enquanto o tom da música vai do Em para o Fm (sobe meio tom). Bem, o trecho do sample possui o mesmo acompanhamento do Rodrigo, só meio tom acima - isso simplificando, pq tem um monte de sons adicionais que orquestram esta nova obra. Este acompanhamento é constituído de um movimento de baixos descendente (láb, sol, fá, mib, ré), desemboca em um zigue-zague cromático (dó#, ré, mib, ré), e por fim chega ao tom (fá). Mas quando a canção inicia a parte rap, entramos em uma estrutura monótona harmonicamente. Um único Fm durante 12 compassos. Nos momentos em que eu separei com /// - " sleazestack"... e "É salto alto..." - acontece uma mudança no acompanhamento. O baixo entra em uma linha próxima da composição de Rodrigo Campos, onde as duas frases do início são aproveitadas (fá#, mi, sol; fá#, mi, fá#), e as duas últimas substituídas por uma repetição da primeira (onde na canção original de Rodrigo faz sol, la, ré) e um encaminhamento para para o fim (originalmente havia "dó#, si, mi", mas agora aparece um frase longa de "sol, fá#, sol, la, ré, dó# si" - meio tom acima).

Isso tudo parece uma confusão, mas se você arriscar tocar, estas coisas que eu escrevi vão clarear a ideia do todo... caso você não toque, perceba somente que o lance da intertextualidade proposta por Criolo é plenamente orquestrada pelo Daniel Ganjaman e pelo Marcelo Cabral. 

É, foi meio até aqui que fui com meus alunos de violão e guitarra. 

Certo, sábado agora tem show do Criolo (e mais Maneva, Haikaiss e Mama Quila) e estamos todos convidados a presenciar este que é hoje um dos artistas mais sabidos da canção brasileira. 

Salve, família!
 






sábado, 2 de novembro de 2013

Russolo, rap e Hendrix: Reflexões e pautas atuais sobre os rumos da canção no Cem Ruídos.

João de Carvalho

Já comentei em um post anterior (O mal estar dos rumos) que uma das fortes tendências da invenção musical dos novos cancionistas diz respeito às experiências com a sonoridade. Naquele momento tentei relativizar – e discordar – um pouco das ideias lançadas por Rômulo Froes.
Apontei que o que Froes talvez estivesse querendo frizar como característica da “nova geração” de cancionistas não era uma experimentação com timbres, como ele descrevia em seu artigo, mas sim uma exploração mais ampla da sonoridade, o que envolvia dizer, principalmente, uma experimentação com texturas – e articulações de texturas – e uma assimilação do ruídos como matéria expressiva.
Resumindo o papo pra quem chegou agora, o artesanato musical praticado com esmero por figuras como Chico Buarque, que envolve a elaboração de sofisticadas linhas melódicas e inauditos caminhos harmônicos (ainda dentro do sistema tonal), vem cada vez mais ganhando menos adeptos dentre os cancionistas mais novos. Em compensação temos compositores altamente sensíveis para os aspectos relativos à sonoridade.
Froes aponta a popularização dos meios de gravação como o estopim para este novo cenário sonoro. Discordei dele neste ponto, e apontei a “Arte do Ruído”, de Luigi Russolo, como um primeiro marco importante para se compreender – e se avançar – a nova situação que vem se instaurando. É claro que a possibilidade de uma manipulação quase tátil do som, como é a que temos ao manejar os programas de gravação e edição de áudio, muda a maneira de se fazer música, porém colocar este advento como o principal ponto da mudança que vem ocorrendo é compreender apenas superficialmente as questões que aí estão envolvidas.
Foi Janete El Haouli – no fundo este texto é também um aquecimento para o festival que ela está organizando... mas já já chegamos aí – quem me lembrou que este ano está completando 100 anos da publicação do texto de Russolo. Este ensaio futurista, que em 1917 aparece em uma compilação de ensaios e batiza o conjunto, foi um marco na história da música. “L'Arte dei Rumore” era o livro de cabeceira de Cage. Quer mais? Este texto é apontado como precursor da música concreta.
Mas Russolo não era um teórico, ele era um artista (pintor, compositor, maestro e inventor), e não se contentando em escrever um texto profético, fez a profecia tomar seu corpo sonoro, por meio de seus “intonarumore” (suas máquinas de fazer ruído). Cabe lembrar que celebridades como Stravinsky, Ravel, Honegger, Claudel e Mondrian assitiram suas apresentações em Londres e Paris no ano de 1914. E o que eles acharam do malucão italiano? Bem, não sei, mas Ravel colocou um coro de rãs ao final de sua obra L'Enfant et les Sortiléges. Coisa de futurista.



Mas o que é este ruído que Russolo diz? Naquela altura a expressão ruído era tida como o oposto ao som convencionado como musical. Seria o “som não-musical”. Russolo reinvindicava para a música a possibilidade de criação e expressão com qualquer som. Todo som é musical. Hoje dizendo assim parece até um moinho de vento – poxa, claro que eu posso fazer com o som o que eu quiser – e isto é a prova mais cabal de que as intuições de Russolo estavam certas.
Certo, certo, mas isso é um blog sobre canção e você nunca ouviu falar desse tal Russolo, será mesmo que ele é importante pra você? Penso que se você quer ir além e compreender quais os “rumos da canção”, ele é importante sim. Tentando de outra forma, a palavra ruído, hoje, já não se refere mais ao mesmo conceito que o dos futuristas. Muita coisa aconteceu – inclusive a popularização dos home studios, como sugeriu Froes – e precisamos compreender suas consequências.
Mais perto do universo da canção podemos citar Hendrix, o músico que primeiro levou a sério essa parada de barulho. Hendrix nos prova que som é som, não nota. As notas musicas são mais um dos parâmetros modeláveis pelas mãos – e pés e bocas e dentes e arcos e tudo o que der na telha – de Jimi.
Vejam, se eu disser que o barato de Hendrix é que ele explora o timbre da guitarra, isso é um problema. Timbre é marca da fonte sonora, ou seja, aquilo que já está mapeado e assimilado em nosso repertório como sendo o som da guitarra. Isso um músico erudito também faz, diga-se de passagem, como um instrumentista erudito – via de regra – não compõe, é justamente isso (estudar o timbre de seu instrumento) que ele faz. Um arranjador mais tradicional também. Quem acompanhou o desdobramento do debate iniciado pelo Rômulo deve se lembrar que muitos contra-argumentos se deviam a este problema conceitual.
Mas se eu disser então que o barato de Hendrix é que ele se utiliza de ruídos, será que resolvo o problema? Bem, eu acho que melhora um pouco, mas ainda não chega lá... afinal, o que é ruído? Considero, assim explico para meus aluninhos da Educação Fundamental, que ruído é uma interferência na mensagem, algo que atrapalha a comunicação. Pensando assim é bem possível que escutemos Hendrix como ruidoso. Mas péra lá, este ruído não é a mensagem?


É, estas questões não são tão retas assim não, percebe? Eu resolvi isto com a palavra sonoridade, que é genérica e também pode conter imprecisões, mas dentro dela eu coloco o trabalho com texturas, timbres e ruídos. Por “trabalho com ruído” eu compreendo uma busca por harmonizar sons que usualmente não são utilizados por serem tidos como “não musicais”. Harmonia, melodia e ritmo não entram na sonoridade? É claro que sim. Mas então, o que difere o trabalho do Metá Metá do do Chico Buarque?
É que o trabalho musical do Metá Metá foca na pesquisa por sonoridades e o Chico em uma pesquisa melódico/harmonica (tonal). Uma pesquisa é mais ampla (e menos profunda em seus elementos específicos), enquanto a outra é profunda, porém controla menos os aspectos mais globais da obra. Parece até, respeitadas as proporções e especificidades, a relação entre a música aleatória e a serial.
Mas Hendrix não foi o único a aproximar a canção popular das profecias do futurista Luigi. Aconteceu o rap no meio do caminho. No rap o DJ – o camarada que toca os discos – manipula fragmentos de músicas pré-existentes, sobrepondo e tranformando o som como matéria tátil – sample. O scratch, pelo qual o DJ mostra seu virtuosismo rítmico, são feixes de “ruído branco” - chiado – que fazem contraponto com a base e com o canto.
E já que falamos do DJ, devemos pensar também um pouco sobre o próprio disco. Antes os chiados ocasionados pelo atrito da agulha no vinil eram tidos como uma espécie de ruído, algo que atrapalhava a mensagem contida nas faixas daquele círculo. Hoje não é exagero dizer que muita gente passou a escutar aquele chiado como algo significativo. Neste caso estamos longe do que Schaeffer (compositor e teórico, pioneiro da Música Concreta) gostaria com sua escuta acusmática, pois o que é valorizado são as relações simbólicas que se estabelecem com aquele timbre. É o timbre do disco servindo como portador de valores como, por exemplo, “pureza analógica” de registro (o que é um equívoco pois poderíamos adicionar o chiado digitalmente, mas beleza, nem sempre o verde nos diz esperança e o vermelho paixão, e seguimos a vida sabendo que eles podem nos dizer isso...). Em outras palavras, violino te leva aos céus – harpa então! -, guitarra te dá atitute e chiados de vinil te colocam em uma máquina do tempo que te transporta diretamente para uma loja de discos, onde você pode encontrar a "verdadeira boa música".
Brincadeiras de lado, vamos voltar ao rap? Só mais um pouquinho. Queria pontuar mais uma ideia que sempre me vem. A melodia é um elemento musical, certo? Ruído é algo que atrapalha a mensagem, em nosso caso, musical. Estaríamos envolvidos em uma expansão do controle do que é musical, e neste caso, aprendendo a utilizar todos os sons possíveis para nos expressar musicalmente. Isso já faz 100 anos, pelo menos. Então, como é que a voz – gente, vale lembrar que estamos falando de canção, e as tensões que envolvem a arte “puramente musical” são diferentes – sacaneou a melodia? Para onde ela expande a compreensão do “musical”? Onde ela transforma a interferência do ruído em reverência à complexidade da vida, este caos incontrolável?
Se você chegou na fala, estamos pensando juntos.
Já faz mais de vinte anos que o Tatit nos diz que toda a canção se origina nas matrizes tensivas da fala, e faz mais de cinquenta anos que João Gilberto chutou o pau da barraca do canto. O rap, por sua vez, como um novo paradigma da canção, explora esta proximidade da fala de maneira primorosa. Quem ainda não aprendeu a escutar a sonoridade das palavras – a melopéia, como Ezra Pound nos diz – como música, está na mesma condição que alguém que não percebe os jogos de tensão e relaxamento do sistema tonal. Isso, novamente, extrapola em muito o limite do rap. Não surge com ele e não se restringe a ele. Só o menciono porque nele a musicalidade da palavra se impõe de uma tal forma que quem só sabe sorver melodia o acha monótono. Mas como encarar, para mudar de exemplo, aqueles textos quilométricos dos cantadores de cordel com suas melodias monótonas? De muitas formas, tanto entrando no ciclo hipnótico de suas estruturas estróficas, como escutando o ricochetear das sílabas dentro da boca do cantor e/ou percebendo como a fala transforma as entoações dadas previamente pela melodia.
Pausa para escuta. Sábado que passou teve show do Siba – tem um texto/vídeo no forno sobre ele, aguardem – e quem não foi perdeu.


Mas João do céu, você começou falando do malucão futurista lá, que que isso tem a ver?
Meu caro, minha cara, deixemos o Russolo e pensemos no Bala.
A “poesia sonora”, conceito criado só na década de 1950, por Henri Chopin, tem seus primeiros experimentos dentre as tradições orais de performances dos futuristas – os russos também participaram dessa história – e, dentre todas as postulações destes artistas e pensadores, podemos dizer que a “poesia sonora” liberta a voz para a livre utilização do ruído.
E eu te pergunto, como não escutar aquele “hahahahahaha HAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHA” do Criolo e não pensar nisso tudo?



Acontece que temos em nossa cidade – Londrina – a sorte de ter uma figura com a Janete El Haouli. A Janete foi minha professora na graduação. Ela foi pra São Paulo. Mas voltou pra Londrina e, corajosamente – coragem, ela disse uma vez, é agir com o coração – organizou a TOCA. E agora ela resolveu promover, junto com o Zé Mannis, o evento Música e Ecologia Sonora – Cem Ruídos, que ocorrerá entre os dias 12 e 15 deste mês. Este evento contará com pesquisadores do Brasil, França, Equador e Itália, e é uma homenagem ao centenário do texto de Russolo. Ao todo são 15 pesquisadores – artistas – que tem muito a nos dizer. É claro que o foco do debate não é canção, mas como você viu, se queremos ir para além de uma zona mediana de consciência é melhor libertar nossos ouvidos e (pré)conceitos.
Dentre as comunicações e videoconferências – são mais de 15 mesas, fora intervenções e oficinas – teremos um quadro mais ou menos assim: No primeiro dia – uma introdução ao ruído? – a palavra fica com Daniel Teruggi, José Henrique Padovani, Fernando Iazzetta e Lilian Campesato. A Lilian, por exemplo, apresentará a comunicação “Vidro e Martelo: contradições na estetização do ruído”.
No segundo dia o debate se expande e fica ainda mais interdisciplinar (tratará desde o ruído na fotografia às corridas ilegais de carros e motos), e contará com a presença de Enzo Minarelli, Leonardo Fuks, Fernanda Magalhães e Leila Soldberg Jeolás. Dentre as pautas deste dia destaco a comunicação do italiano Enzo Minarelli – que é hoje o grande pesquisador e poeta da poesia sonora – que falará sobre o “Ruidismo russoliano e ruidismo na poesia sonora”.
No terceiro dia teremos a participação de Fabiano Kueva, Silvia Zambrini, Alexandre Fenerich, Rodolfo Caesar e Silvio Demétrio. A linha condutora deste dia estará centrada na investigação das características da escuta. A primeira comunicação do dia ficará a cargo do equatoriano Fábio Kueva, e terá como mote “O ouvido não se educa, se liberta”.
Na sexta ocorrerá os seminários do Rodolfo Caesar e do Mannis. O Rodolfo irá tratar sobre “A espessura da sonoridade e a leveza de seus suportes”, e o Mannis sobre o “Conforto acústico em ambientes hospitalares”. O encontro será encerrado com um passeio pela Mata dos Godoy. Este espaço tão especial que está ameaçado pela construção de um aeroporto em sua zona de amortecimento. (Se você ainda não conhece esta questão tão urgente de nossa cidade, assista ao vídeo do Mioto aqui). Será uma grande experiência – sem macacos, tomara – de escuta, que irá nos aproximar da vivência multisensorial da paisagem sonora.
Todos estes debates e experiências valem por si mesmos. Mas se você ainda estiver pensando em como isso pode ser útil dentro do universo da canção, eu te digo que um dos recursos que vem ganhando espaço dentro das produções de áudio dos novos cancionistas é justamente a utilização de paisagens sonoras. Dentre muitas experiências (poderíamos citar a série Música de Bolso, em que cancionistas são convidados para interpretarem suas obras em espaços públicos, e a paisagem sonora – e visual – do espaço passa a estabelecer um diálogo com a obra) cito um fragmento do texto que eu e o Danilo Lagoeiro (amigo e ex-aluno) analisamos a canção Maria, Minha Maria, de domínio público, na interpretação de Biu Roque com Siba e a Fuloresta, e produção de Beto Villares:

“Nos próximos dezesseis compassos, correspondentes aos quarenta segundos finais da faixa, o que escutamos é somente o solo das cigarras sobre a mesma quadratura harmônica que servira de aura ao canto que se concluiu. Não é difícil recriar a atmosfera de contemplação que deve ter tomado o personagem de voz seca após seu áspero desabafo, após seu lamento.” texto inteiro aqui.

Enfim, será uma semana cheia, em que poderemos nos nutrir com informações para alimentar nossas atividades e caminhos particulares. E aí, vamos?

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Siba está quase chegando, Londrina.

João de Carvalho

Bem, daqui a dois dias o cantor e compositor Siba estará em Londrina trazendo o show de seu último disco, o "Avante". O álbum foi lançado no começo do ano passado e, segundo o próprio Siba, é um pretexto para reunir e viabilizar o que realmente importa: o show. Mesmo assim, encarando o disco como "simples pretexto" e como ponto de partida de um processo que vem se desenvolvendo já faz quase dois anos nos palcos do Brasil e do Mundo - ele virá para Londrina depois de uma passagem por Londres - "Avante" conseguiu se manter como um dos melhores discos lançados em 2012. E foi um ano de grandes discos, diga-se de passagem.

E, se por um lado é uma pena que o show tenha demorado tanto para vir pra cá, teremos a oportunidade de conferir um estágio bem mais experimentado desse processo infinito – peno menos até seu “Mute” final – deste artista que trabalha muito além da superficialidade que esta época de imagens rápidas nos impõe. Vamos com calma, o quero dizer é que Siba é um artista que realmente tem conflitos estéticos profundos, e que vem se equilibrando entre as condições – e contradições – do mercado musical com extrema integridade.

Vejam bem o conflito deste cantador pernambucano (segundo o que compreendo, é claro, rss): como respeitar e compreender as formas artísticas tradicionais de sua região sem ao mesmo tempo cair em um sentimento de nostalgia que tende a estancar o fluxo vivo desta mesma cultura? Em outras palavras, como ser atual e trazer dentro de si as bases de sua tradição? Em tempo, por “sua tradição” estou me referindo ao “maracatú de baque solto” - principalmente, onde Siba se fez um mestre e formou sua própria nação, o Maracatú Estrela Brilhante - e todas as poéticas populares que tem no verso rimado e metrificado seu tronco comum.

No Mestre Ambrósio esta questão era evidente, afinal o grupo surgiu dentro do movimento manguebeat, mas mesmo a Fuloresta não é um grupo de maracatú típico. Vale dar uma lida no texto que fizemos, o Danilo Lagoeiro e eu, sobre o diálogo cancional entre a Céu e o Biu Roque (aqui). Neste texto, uma leitura um pouco técnica, fica evidente que mesmo o trabalho da Fuloresta não é um resgate tradicionalista ou folclórico, e sim que joga com a tensão de como traduzir toda a riqueza musical da zona da mata para o disco (no caso do nosso recorte) e para o palco (tradicionalmente não existe nem palco nos festejos de maracatú).

Avante é um novo passo nessa caminhada, e se Siba foi – talvez – o mangueboy mais radical em sua imersão na cultura tradicional, é aqui que esta imersão adquire uma profundidade realmente atemporal. A geografia deste novo álbum aponta para elos distantes entre a cultura local – novamente, Zona da Mata pernambucana – e lugares distantes (distantes?) como o Congo ou o Afeganistão.

Tá, mas isso é só um post de aquecimento para o show do sábado, e eu tenho muitas teses e intuições sobre este disco que é um dos álbuns que – sem exagero – mais marcaram a minha vida. Já chorei tanto e dei tanta risada ao som destes nem 44 minutos... Vamos focar em um ponto? Que tal o vídeo-clipe lançado em junho deste ano?



Preparando o Salto é a primeira canção do disco. Este clipe, produzido por Renan Costa Lima, é um diálogo com algumas das referências mais profundas do disco: que lugar é esse? Apesar de simples o clipe propõe uma série de referências iconográficas muitos sugestivas e pertinentes com a estética metafórica e existencial de Siba. Mas, vamos lá? Que lugar é esse? São dunas brasileiras ou estamos em pleno Oriente Médio? Me lembro daquele filme, “Casa de Areia”, em que o Andrucha Waddingtton utiliza esta paisagem branca das dunas para evocar um não território, atemporal, quase lunar.

Nessa perspectiva lunar, podemos até mesmo ver uma espécie de pequeno príncipe andando em circulo sobre seu planeta. Mas, percebam, não é só a imagem – nem sei porque comecei falando dela – que joga com esta desterritorialização. Que som é esse? Preparando o Salto é uma canção ousada, não só pela métrica impar que remete – neste caso – aos compassos da música árabe de um modo geral (1234 1234 12 1), mas como pelo plano da composição timbrística que é uma das investigações mais radicais do álbum. 

Um último comentário – isso é só um post de aquecimento, não um artigo científico – o final da letra de preparando o salto rompe com o esquema métrico proposto no início (quadras em 12 sílabas). Isso não é um acaso. Esse rompimento – primeiro apresentando uma quadra em redondilha maior, e depois chutando o pau de vez com um verso, rimado, mas livre – é uma materialização do próprio tema deste fragmento:

Vou passar
Como um santo mudo
Mirando o alto
Rindo
Preparando o salto
Deixando pra trás … tudo
 

E aí? Vamos pro show nos divertir e nos alimentar dessa poesia que costura tempos e territórios?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Novo single de Criolo, "Duas de Cinco".

João de Carvalho


Acabam de ser lançadas duas canções do novo single do Criolo, intitulado "Duas de Cinco". O site de vendas do disco - vinil - é fruto de um trabalho muito integrado entre produtores e artistas, e apresenta uma ótima saída para a crise no formato de distribuição da música em tempos de facebook e youtube.

É o seguinte, lançar um CD hoje já se configurou como um gasto desnescessário, segurar a informação produzida, não liberando para uso comum, é quase antiético. Então, o que o artista pode vender?

Faz algum tempo que gravar é uma forma de vender shows, e não propriamente lucrar com a venda de discos. Mas ao mesmo tempo que presenciamos essa revolução via internet vemos surgir, como uma contramaré, o retorno do vinil. Melhor qualidade de som (os formatos divulgados na internet são todos compactados) e relação tátil com a obra material são os principais benefícios deste formato. Não devemos nos esquecer, todavia, que o produto de que estamos tratando é um disco de rap, linhagem poética que tem no DJ - o tocador de disco - a figura do maestro, senhor dos sons e do batuque no hip hop.

Bem, mas o "Duas de Cinco" não é um LP, e isso é um dado muito importante! Vivemos em um mundo onde a quantidade de informação satura nossos olhos e ouvidos. Tomar cuidado com a informação que se produz é um ato de respeito para com a qualidade de vida de nosso semelhante, no caso da relação com a música, lançar um single é muito mais do que uma moda retrô, é um respeito com o público.

E, devo dizer, as duas faixas que foram liberadas são coisas finíssimas!!!

A lírica de Criolo pega mais fundo na ferida, dessa vez dissecando ainda mais temas como o tráfico e o consumo de drogas, lícitas e ilícitas, a marginalização e a solidão humana mais profunda. Os versos "É o Kinect do XBox/ Por duas bucha de cinco", que dá nome para a canção, para o single e para o belíssimo Lyric Vídeo, dá bem a idéia geral do que podemos esperar do single. Criolo, MC pra calá a boca de quem duvidô (na bôa, enche o saco ficar dizendo que ele não é "só um MC", e sim um grande cantor, como se voz tivesse que honrar uma dívida para com a melodia... ou dizer que ele amaciou para agradar a classe média... ), canta como um indivíduo dilacerado pela dor de seus semelhantes.

Para finalizar, fiquem com a produção audio visual do projeto - vale ressaltar, um vídeo fantástico com recursos modestos, perfeito para uma comunicação mais sinestésica como a que o youtube nos proporciona.


Essa canção reaproveita o refrão de "Califórnia Azul", de Rodrigo Campos (que canção!!!). Intertextualidade o tempo todo, pois a vida é assim mesmo, se repete, se atualiza, se intercambia... só assim não morre quando azeda.






Ps.: quando eu comecei a escrever este post o vídeo da canção tinha menos de 300 visualizações, quando eu terminei havia mais de 11.176...
Ps.2.: fui rápido, mas o povo não dorme... rss... (entrevista de divulgação da canções)

Saia justa. Eita vida maluca.

esse negócio de que o Caetano não disse nada eu discordo,
ele disse muito,
afinal, estávamos todos querendo saber o pq...
e foi a isso que ele se reportou,
justificou o homem comum, atado a uma série de relações complexas.
quem esperou que ele mudasse de time 
ou desse um xeque mate no assunto foi inocente, 
o debate continua para muito além da figura parcial 
e periférica 
desse velho "homem cordial".

para mim, não poderia haver texto mais sóbrio e coerente.



quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Reviver a Chama Viola


 
João de Carvalho

(o texto que se segue já é um pouco antigo - começo do ano passado -
faz parte de uma pequena coletânea chamada 
"3 ensaios poéticos e porosos"
que fiz como apoio às aulas da primeira turma do curso sobre canção)

Acabo de assistir ao documentário
"Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje".
(dirigido por Izabel Jaguaribe
com roteiro de Zuenir Ventura):


Logo na primeira sequência de imagens
– antes ainda dos primeiros créditos e nome do filme –
Paulinho viola
a fronteira entre o passado e o presente
quando declama:
“Chama que o samba semeia
a luz de sua chama
a paixão vertendo ondas
velhos mantras de Aruanda.

Chama por Cartola
chama por Candeia
chama Paulo da Portela, chama
(…) e outros irmãos de samba”

A chama é o fogo ainda vivo
é calor e movimento.
A chama de uma vela acende uma oração
dá vida a uma prece.
Como em um templo antigo
muitas velas clareiam a sala do samba.

E Paulinho chama
meio náufrago no passeio público,
para que possamos nos reunir
a qualquer hora do dia,
nesta irmandade de bambas.

Mas que raciocínio claro tem esse Seu Paulinho!

A consequência de reviver o passado,
de violar as fronteiras óbvias do tempo,
só poderia mesmo ser a extinção da saudade.
E é isto mesmo que o compositor começa
(e meça e remeça e arremessa)
explicando ao seu amigo livreiro
na primeira cena do documentário.

Um homem que chama o passado para o presente,
mantém a chama acesa,
não pode mesmo sentir saudade.

Paulinho empunha seu violão,
e canta e toca
como quem reza uma oração.
E é assim que ele canta
e decanta o samba de Wilson Batista;
cada palavra com seu sentido especial.


Mas ainda mais especial
é o verso que diz
“meu mundo é hoje”.

É como se a canção
funcionasse feito
um oráculo,
de onde de repente salta um verso
que o faz pensar
sobre algumas relações subjetivas e pessoais
que resguardavam-se quietas e sem forma
no interior
da alma.

Porém
quando o samba do sambista diz
“meu mundo é hoje”,
de fato
não está querendo nada mais
do que caracterizar um personagem que,
não dando valor ao “prezo” da hipocrisia
(e não é preço e nem peso;
o que Paulinho canta no filme
- diferente de sua própria gravação
e da composição original d Wilson Batista -
é prezo!),
vive o presente,
sem se preocupar com o futuro.

Agora,
este mesmo verso
cantado pela figura de Paulinho da Viola,
vindo logo depois
de seu “Chamamento”
e da conversa com o livreiro,
significa muito mais
do que isto.

... é comum quem toma apenas um verso de uma canção,
mesmo que este significasse algo completamente diferente
em seu contexto original,
e o utiliza como um amuleto
capaz de encerrar em si
e traduzir uma gama enorme de ideias e sensações.

E o que acontece aqui
é parecido com o que ocorre com Pierre Menard
ao reescrever
de maneira idêntica
o Quixote em uma das “Ficções”.

E não era mesmo o Borges
q falava q
os artistas
inventam
seus precursores?

Aí!
O Borges disse isto em outra circunstância,
mas o que eu penso agora,
adulterando-o à la Menard,
é que este processo de rever o passado
é muito mais cotidiano do que se parece.
Aliás,
tem ainda aquele poema
do Augusto de Campos,
o “rever”,
que à maneira de Ezra Pound,
“make it new”,
parece tratar de questão semelhante.
Considerando isto,
creio que se
o Paulinho fosse de Campos,
ele faria o poema:
“reviver”.

E ...
é justamente da parodia do verso em questão,
de Wilson Batista,
qe Paulinho Batiza
seu documentário.

... quando o filme começa o samba entoa:
“Eu sou assim
Meu mundo é hoje
não existe amanhã pra mim”.

... ao final do filme Paulinho recria:
“Meu tempo é hoje
eu não vivo no passado
o passado vive em mim”.

E isto não é
por pouco o
poema q eu
ali li ?


(poema Reviver, João de Carvalho, 2012)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O mal estar dos rumos


 
João de Carvalho
“En el siglo diecinueve, con la invención de las máquinas, nació el Ruido.” Luigi Russolo



Faz algum tempo que digo aos meus alunos que o cerne das experimentações musicais mais recentes, no âmbito da canção, não estão mais focadas no desenvolvimento melódico-harmônico (e poético), que foi o principal motor da MPB. Ao contrário, para muitos dos recentes casos, este desenvolvimento teria regredido em prol de um conceito mais amplo de sonoridade.

Os mais novos expoentes da canção não são grandes músicos quando, o que focamos em nossa escuta, são os desenvolvimentos harmônicos. Porém, quando expandimos nossa concepção do que é música para aspectos relacionados à sonoridade, podemos notar como estes artistas são extremamente musicais e sensíveis.

Mas existe uma diferença fundamental entre os músicos atuais (incluindo os nomes antigos, mas que ainda estão na ativa) e os da década de 1970. A distância entre o cancionista e o homem que cuida da parte técnica de captação, registro e edição do som, encurtou. Antes, um cancionista procurava um grupo de músicos para dar vida à sua obra, hoje um cancionista pode mais facilmente procurar alguém que domine as técnicas de produção fonográficas.

Bem, por aqui parece que isso ainda precisa ser dito, mas eu estava somente dando luz à roda, chovendo no molhado. Explico. Meu amigo virtual, Roberto della Santa, grande apresentador de gentes, me colocou em dia sobre o debate que ocorreu envolvendo o cancionista Rômulo Froes e suas declarações sobre uma “nova geração” de cancionistas. Debate já antiguinho (do começo do ano passado), mas que ainda vem ecoando.

As declarações de Rômulo são muito parecidas com as minhas, porém penso em não cair em algumas armadilhas que ele infelizmente se enrroscou. (texto do rômulo) (debate com o walter garcia)

A primeira coisa que gera um constrangimento nas declarações do cancionista/crítico é a insistência na ideia de uma “nova geração”, que ao meu ver não existe enquanto unidade. Rômulo afirma que todo músico tem um computador para produzir, e que quem não tem, simplesmente não produz música hoje em dia. Ora, então será mesmo que o Criolo, por exemplo, só passou a produzir música agora que ele estreitou seus laços com quem pode gravar? Obviamente só mesmo uma visão muito pragmática e pessoal poderia desmerecer a existência daquelas canções em seus anos de interpessoalidade não mediada por um suporte tecnológico. Não creio que o autor do texto em questão concorde com essa ideia, mas essa ideia permeia seu raciocínio.

A segunda coisa se refere ao próprio louro da “nova geração”: o timbre. (Isso gerou inclusive vários comentários contrários). Por diversas vezes Rômulo se utilizou deste termo para qualificar os trabalhos de seus pares. Creio que existe mais uma confusão aqui. Utilizo a palavra sonoridade, de maneira expandida, onde timbre e textura formam uma unidade. Certamente a busca poética de timbres é algo que os trabalhos mais recentes costumam se esmerar, porém isso não difere estas obras das produções de outras épocas. O esmero do timbre é algo que está presente em qualquer trabalho refinado, de qualquer época e de qualquer estilo.

Mas existe um algo a mais na sonoridade dos trabalhos mais recentes. Estes parecem ter problematizado com mais ênfase a incorporação de texturas pontilistas, com silêncios e vazios expressivos. Além disso, compõe essa sonoridade geral, a maior intimidade de ruídos como matéria poética, fragmentação do discursso. Sem dúvida o manuseio de computadores e programas de edição facilita muito esse tipo de processo.

Eu poderia dizer, em uma metáfora provocante, que a canção hoje é mais plástica do que antigamente. Vale toda a ambiguidade da expressão, mas quero focar no aspecto pictórico da formulação. Se formos desenhar o que acontece com os sons de uma canção mais nova e de uma mais antiga, provavelmente chegaremos a desenhos bem mais interessantes com o primeiro caso. É muito fácil imaginar que essa percepção seja amplificada pela proximidade que o aparato tecnológico nos coloca de um processo pictórico. Na edição de uma música se recorta, cola, inverte, amplia, diminui, sobrepõe, fade-out, fade-in, cross-fade, fora a própria visualisação das ondas.

Mas dizer isso seria negligenciar o fato de que tudo isso também se desenvolveu, e bem antes, nas pautas tradicionais e nas experimentações de Tom Zé.

Se vamos debater sejamos menos superficiais e mercadológicos e peguemos também os experimentos do Arthur Campela e do Chico Melo, poxa, por que não?



Só porque o áudio e o vídeo não tem a qualidade mínima para entrar em um mercado vamos negar o papel dessa fatia da produção cancional?



O que é canção erudita e popular? Acho que o rótulo “canção de consumo” tem que ser um aviso de que relações comercias rondam a experiência poética, mas jamais atuar como reguladora da experimentação.

Voltando um pouco, ainda tenho que dizer um pouco sobre a utilização do ruído, sobre a fragmentação do discursso, e sobre a querela com o Luiz Cláudio Ramos.

Hoje estive na TOCA com a Janete El Haouli, e ela me disse que faria um evento em celebração ao centenário da publicação de L'Arte dei Rumori (A arte do ruído), do Luigi Russolo, o primeiro marco da valorização do ruído (e discussão sobre o que é o ruído) como material musical. Bem, talvez de fato os arranjadores da canção popular brasileira sejam um tanto quanto conservadores, e ainda se esmeirem muito na condução de vozes. Mas, sejamos francos, o quanto de ruído as novas produções comportam? Será que os ouvidos dos jovens compositores/produtores estão tão livres e limpos assim? Nesse quesito os tropicalistas deram passos mais radicais (e originais), --- gente, e antes o Hendrix também já tinha chutado a barraca, né? --- ponto

Na fragmentação do discurso vejo uma tendência atual, ainda que não nova. Toda a relação de espaço tempo muda para um homem urbano. Poesia concreta não é à toa. Isso, apesar de ser amplamente tematizado nas composições musicais dos compositores de “música contemporânea”, parece-me que chegou ao universo da canção via reggae e afrobeat. As texturas acabam sendo úteis porque formam gestalts, criam espaços. A rotatividade de texturas provoca uma constante atualização da escuta. É como andar no centro de uma cidade, entrar e sair de cômodos, zapear a TV, mil janelas e abas no navegador.

            Mas aí o texto enfia o pé na armadilha mais fatal, vai criticar o arranjador do Chico Buarque. Oh!!
          Rss... Uma grande ousadia que merece ser parabenizada pela coragem em, mais do que ao Luiz Claudio Ramos, se impor em meio à uma crítica mal preparada e bajuladora! Louro à parte, o autor apresenta uma pequena (e inocente) análise dos últimos discos do Chico, focando um diálogo existente entre as primeiras faixas dos álbuns. Mas culmina na afirmativa de que o último disco é mais fraco do que os anteriores. Putz! Como isso? Que escuta mais tendenciosa! Eu penso e argumento o contrário. Radicalmente o contrário. Acho que Chico é o melhor disco do Chico! Tenho meus motivos para achar isso, e por isso causa polêmica, pois os motivos são MEUS, mas daí a representarem uma verdade é um “passo torto”, com o perdão do trocadilho.

Também penso que, por vezes, o Luiz cai em algumas inocências durante os arranjos (principalmente na primeira faixa, ao colocar elementos quase ilustrativos do texto), mas estes momentos não são, de forma alguma, a maioria dos casos. O que escutamos na maior parte do tempo são refinados contrapontos e encadeamentos. E não podemos deixar de dizer que o time de instrumentistas é de primeiro escalão, o que inevitavelmente agrega muito à sonoridade.

Um exemplo de inocência, segundo Froes, seria o arranjo de Tipo um Baião. Discordo novamente, o arranjo desta canção é genial! Respeita e amplia a canção de Chico. Não é nada ingênua a oscilação dos andamentos e das texturas deste arranjo, que recria em sua macro estrutura a principal metáfora da canção. Um coração sanfona. (artigo interessante)



Mas o Luiz não é um cara inocente mesmo! É só escutar como a guitarra é timbrada aos demais instrumentos. E aquela melodia da introdução? Que coisa é aquela, meu deus?! … Tá, quer escutar como é rico o trabalho de sonoridade dos arranjos do Chico? Escutem o gesto final de Tipo Um Baião (+- 3'21''), uma frase que vem pipocando nos instrumentos. Que coisa mais bem acabada, minha mãe!

Bem, vejam o lado positivo, niguém falou que o arranjo do Luiz Cláudio para “Se eu soubesse” não era melhor (ou, menos ingênuo) que o arranjo do disco da Thaís...