quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sobre algumas canções e a revolta do vinagre.


Não são só 20 centavos! Isso é certo. Mas, então, o que é isso?
É um ato poético. É um desfile de indignações, um grito que estava entalado.
No fundo, é uma juventude dizendo: isso aqui vai mal, e queremos mudanças.
Eu sei que pra quem já não é mais tão jovem, talvez as ambigüidades gritem muito forte.
E que não é tão fácil assim fazer coro em palavras de ordem mal forjadas.
Mas esta “revolta do vinagre” é a poesia que faltava para temperar nossos sonhos.

Em 1962 Dylan, com apenas 22 anos, encadeou perguntas profundas.

 

A primeira, em uma tradução livre e criativa, era assim:
“quantas ruas um homem deve tomar
antes que o chamem de homem?”
O autor, como você deve saber, não responde às questões,
apenas aponta para onde podemos encontrar as respostas:
“a resposta, meu caro, ela vem com o vento
e faz do tempo seu invento” 
(eu sei, ele não diz assim tão na cara, Dylan deixa um vazio)


(Arnaldo, quase Daniel, Antunes:
tudovemdoventodovemdoventovemtudo
 (é      é        é
yansã do balé
dança tuda dança
e bora-longe 
com o qe num se qé))


No outro ano estava Dylan ao lado de Martin Luther King no Central Park
cantando para uma multidão, da qual, alguns anos depois, com a morte de Martin
brotaram black panter's. : ação armada contra a violência social, nos USA.
Nessa mesma época, por aqui, temos o ítalo-negro usá, Carlos Mariguela
revolucionário poeta – cuja música preferida era “A Banda”, de Chico 
(com também seus vinte e dois anos)
Chico é nosso Dylan. Putz, não me lembro de ter escutado isso,
mas parece tão natural que não rogo pra mim a autoria do paralelo!


(ps.: “estava à toa na vida e meu amor me chamou” 
é quase um “saímos do facebook”)


O fato de Mariguela ser encantado pela “A Banda”, que é uma canção em que,
apersar de ser alegre, bonita e singela
o passado volta a imperar sobre o futuro,
e a alegria da catarse vai e voa fácil no vento,
isso é muito sugetivo.


Tal como Dylan, esse cantor branco de olhos claros
mas que também preserva seu pé na senzala
(não nos esqueçamos que “Blowing in the wind” é
abertamente inspirada num negro spiritual:



(você sabe que o negro spiritual é uma música de pobres agricultures, marginalizados,
onde, apesar de religiosa, encontramos versos que são dicas de fuga
coisas do tipo: sempre se deve passar pelo rio... (ele despista os cães farejadores)
vá em direção ao som do sino, por alí você encontrará apoio e abrigo...
bem, e você sabe o que significa palmares, samba, capoeira e candomblé,
né?)


… bem, tal como Dylan, (lembremos que somos antropófagos culturais)
Buarque inspira a geração de negros das próximas décadas
lá, de Martin Luther King ao rap
cá, de Carlos Mariguela ao rap nacional:


Confesso que por diversas vezes me indaguei sobre a validade dessa perspectiva
a violência seria mesmo o melhor caminho? 
acontece que Mano Browm fala de dentro da megametrópole devoradora de homens.
SP, onde os muros gritam por mais amor, 
viu só um pouco do que acontece cotinianamente na periferia da cidade.




Todos sabem que o Criolo está na crista da onda
dando nó nos ouvidos da classe média.
Pois bem, já vi vários vídeos 
de uma galera diluindo a informação pedrada que o Criolo propõe.
(reflexo dessa cultura de superficialidades)...
mas, 
porém, 
contudo e toda via
é essa galera que nos enche de esperança
de que quando a banda passar, pois ela vai passar,
as coisas já não estejam mais no lugar em que estavam.

Que o vento nos revele a história.

Evoé, jovens artistas!


João de Carvalho 














quarta-feira, 12 de junho de 2013

Entrevista para o Contracapa, de Karen Debértolis

Nesta terça (11/06/2013) tive o prazer de "ir pro ar". Foi no programa Contracapa, da rádio web AlmA Londrina, dirigido pela escritora Karen Debértolis. Falei um poco sobre como escuto canção, e escolhi algumas (que me vieram na cabeça) pra tocar no rádio.

karen - a mulher das palavras

Contracapa é um programa que discute, em princípio, literatura. O dessa terça ficou bem legal, e é o primeiro de uma série em que a Karen pretende abordar como tema a canção. Terça feira que vem, dia 18, tem outro programa com minha pessoa, rss, e escutaremos, básicamente, o álbum Matita Perê, de Tom Jobim.

Bem, quem perdeu o programa dessa terça, não tem motivo pra se afligir. Minha entrevista está online pra quando você puder escutar! É só ir lá na rádio e baixar o programa em mp3. (clique aqui)

Dentre as canções que eu escolhi pra tocar no rádio, está a recém lançada Crisantemo, do Emicida. Vou deixar o Link do vídeo aqui, só pra dar aquela vontade de escutar o programa inteiro.


Aproveito para lembrar que já está na hora de formar outra turma de alunos! Quem estiver interessado mande um email para jocarv1984@yahoo.com.br, dizendo quais os horários que você tem disponível, ou ligue pra mim no (43) 9689-3736 (Tim (as vezes não funcional)).

Um grande abraço!
João de Carvalho

ps.: estou esperando seus comentários!


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Atenção, ávidos ouvidos!

"A canção e seus sentidos" é o nome do curso
em que praticamos o rito de uma escuta intensa
sobre
um repertório simbólico
cotidiano.

Os conteúdos foram sistematicamente separados
mas a dinâmica da aula flui como um rio
que ao correr da correnteza
bebe a água de outros rios
e esmigalha
a corrente e a certeza.
                                                      (Atenção, ávido ouvido! )

Acompanhe o blog, perceba o percurso
de escuta em escuta, diga o que você pensa
desse
repertório simbólico
cotidiano.
                                                   
Diga lá, quais canções lhe tocam?
                                                       (Atenção, ávidos ouvidos! )
Você já se perguntou porque? Eim?

Empenhei, até agora, dez anos  de minha vida
em desvendar os artefatos de cantos ancestrais
devorei muitas almas
percorri diversas sendas
divergi, diverti, de verdade ri
e eis
que estou aqui
pra devorar e ser devorado
pra somar e ser dividido
pra cantar e ser encantado
pela escuta de vocês.

João de Carvalho






segunda-feira, 27 de maio de 2013

NOVO, Extra! CLIPE DE made in china: "O que que cê tem na cabeça"

João de Carvalho

O inquieto Carlos Careqa acaba de lançar o primeiro clipe de seu novo disco (Made in China). Com roteito, direção e fotografia de André Abujamra, a canção de Carlos Careqa e Marcelo Quintanilha - composta em sons por Márcio Nigro - toma a forma de um clipe que extrapola, em muito, o simples objetivo da publicidade.
                                     
mídia
made in
China

Escutem com os olhos! :
http://www.youtube.com/watch?v=hmyJMhxHtN4&feature=share


(sobre o disco)
Made in China explora o ying-yang; canto 44 do Tao, aquele que versa sobre a fama e o dinheiro; "a moeda que sobra, o coração que sangra"; escutar o disco

(sobre a canção)
"O que que cê tem na cabeça" é uma parceria entre Marcelo Quintanilha e Carlos Careqa. Marcelo soube fazer uma letra que capta os conflitos e o humor singular de Carlos Careqa. A canção é a própria voz (ou melhor, o coral de vozes) do cantor.

(sobre o arranjo)
Márcio Nigro fez um disco lindíssimo. "O que que cê tem na cabeça" é a segunda faixa do álbum, precedida pela abertura arrepiante de Calma Alma. Textura é a palavra. Ex.: por volta dos 2 minutos e 53 segundos (marcação do clipe) a malha sonora dá uma "enxugada" e o que resta, para acompanhar o refrão, é um ritmo marcado com um pequeno ruído, um chiadinho que parece ser extraído do movimento brusco dos botões da mesa de som. sobre isso, dois metais (trompetes? não sei...) deslizam melodias fluidas, enquanto um baixo (e um piano (acho)) marcam as entradas dos compassos. tem também os pratos da bateria "produzindo ondas".


(sobre o clipe)
o vídeo serve como uma ponte, um convite, uma pergunta. afinal, a canção é uma pergunta! ou melhor, são perguntas. o que que tem na cabeça do Carlos? o que tem na cabeça do artista? o que que você tem na cabeça? o vídeo instiga a curiosidade. você conhece o Carlos Careqa? já escutou o disco que tem aquele burro na capa? (tudo que respira quer comer). e quem é o márcio nigro, esse cara que anda ao lado... (ele é o cara dos sons do peixonauta, vc sabia?)... e o Leminski sendo lido pela máscara de burro, logo agora que a edição de "Toda a Poesia" figura nos topos das listas como sucesso de vendas!  não podemos deixar de prestar a atenção no descompasso entre imagem e som, que vai se acentuando ao longo do vídeo.

(sobre ajudar a resistência)
no fundo, fazer arte é travar uma guerrilha cultural. lutamos por valores subjetivos. ... Carlos canta na oitava faixa de seu Made in China, com aquela voz rouca, que é na verdade uma persona de Carlos chamada Tom Waits (diga-se, Careqa fez o que nem Pound foi capaz: criar uma persona baseada em um contemporâneo seu),  a canção "Existir": "(r)existir ainda vai levar os meus trocados/ na corda bamba sempre fui ovacionado". bem, você pode escutar o disco inteiro de maneira gratuita na internet (já passei o link), mas se quiser ajudar esse grande artista a continuar produzindo sua arte de resistência, com alguns poucos trocados você pode ter o seu próprio Made in China em sua casa. (é o próprio autor que vende, com posts como este: "Estava na rua hoje a tarde. Começou a chover. Comprei um Guarda Chuva, custou R$ 20,00 Reais. Pensei no meu CD que vendo pelo mesmo preço e certamente durará bem mais que o Guarda Chuva Made In China! É isso aí, precisa explicar?")... vai lá, é só mandar um emal para  carloscareqa@gmail.com e perguntar para ele qual o procedimento correto.

;-)



 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Rodrigo e as Canções do Estúdio Realidade: em 4 atos e 2 desvios.

Por João de Carvalho
I - introdução

O Rodrigo Garcia Lopes está lançando seu segundo disco: Canções do Estúdio Realidade (C.E.R.). Ele, que também é poeta, tradutor e editor da revista Coyote, toma emprestado diretamente de um dos ícones da contracultura norte-americana, William Burroughs, a expressão "estúdio realidade". O lançamento deste álbum marca um período de colheita para o autor,  que lançará ainda este ano um livro de poemas (Estúdio Realidade, pela 7Letras, do Rio) e em 2014 um romance policial (O Trovador), além de shows com o repertório do disco e vídeo-clipes (os primeiros, que já estam em fase de produção, são das canções New York e Quaderna, dirigidos por Anderson Craveiro).
Viabilizado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC Londrina), o projeto contou com a presença marcante do multi-instrumentista  André Siqueira, que, munido de um time composto por 13 músicos locais, traduziu, ou melhor, transcriou várias potencialidades harmônicas, rítmicas e texturais já presentes no violão de Rodrigo.

Mas, como a própria apresentação do disco (feita por Arrigo Barnabé) já prenuncia, ao falarmos de coisas técnicas ¨logo vamos nos perdendo¨. Em outras palavras, C.E.R.  é um trabalho tão rico em sonoridades, poesia e modos de dizer (como já foi apontado pelo certeiro Luiz Tatit) que, se começarmos a elencá-las vamos desfiando um novelo sem fim. Então, se você estiver querendo escutar um disco com arranjos instrumentais finos e de bom gosto, estruturas de canção pouco comuns, ricos encadeamentos fônicos, belas e sugestivas imagens (isto mesmo, escutar imagens)  e contemplar a dança que as palavras realizam no intelecto, este álbum é um prato cheio!

Só que não pára por aqui não. O CD é um livreto belíssimo, com fotos e citações inspiradoras. E aí podemos apreciar o brilhante trabalho do Marcos Losnak (parceiro Coyote), Beto e de Elisabete Ghisleni (fotos). Cada faixa do disco vem acompanhada, num delicado contraponto, com uma fotografia. E ainda tem mais. Tudo isso pode ser conferido de maneira interativa e gratuita no endereço eletrônico www.revistazunai.com/rgarcialopes/cancoes/ . Ali você pode conferir inclusive um comentário faixa a faixa com o próprio autor. Bem, se você ainda não escutou, vai lá e invista uns 50 minutos do seu tempo. Depois volta aqui...  

II – dois desvios

Não sei você, mas eu fiquei cheio de dúvidas com este disco. Acho que elas começam em “quem é o Rodrigo?”, caminham por “o que é Londrina?” e chegam até um “para que canções?”.

--- desvio nº1 ---

Acho que devo começar assim: 

Eu, João de Carvalho, nasci em 1984, nunca sai do Brasil, nem o conheço muito bem, não falo inglês... no ano em que eu nasci o Rodrigo estava morando em Londres, como trabalhador ilegal, e comprou algumas cerejas em uma banca de frutas para matar sua fome. Uns vinte anos depois estou eu em Londrina buscando saber o que havia de literatura e poesia na cidade, foi quando trombei com o nome Rodrigo Garcia Lopes, e "Cerejas" foi um dos primeiro poemas que li. Lembro de ter ficado um bom tempo relendo aquelas palavras sem encontrar um sentido claro e, por fim, pensar sobre o que levava alguém a escrever aquilo. Mas naquela época eu ainda não sabia que o Bashô recomendava “do orvalho  / nunca esqueça  / o branco gosto solitário” (via Leminski)... Hoje, ao escutar a sexta faixa do C.E.R., e perceber a musicalidade daquelas palavras encadeada em um ritmo de blues, penso que
                                                         canções são mesmo bolas grudentas lançadas ao tempo.

Elas tem a capacidade de aderir significados com o passar dos anos e dos eventos...
                                              ficam girando em torno da gente...
e interessante é notar como elas, ao se dividirem,
                                                                                           entre vários individuos,
                         multiplicam a sua massa. 

Penso tb no papel do tradutor... no fundo todo artista é um tradutor...
alguém que viaja e nos brinda com aromas de outros cantos.                          traduzir é isso
                                                                                                               fazer pontes
                                           talvez...
---

Eu sempre digo aos alunos que cancionista esperto não compõe canção.
                                               Cancionista esperto compõe repertório;
                          seja um encadeamento específico de show ou um específico de disco.

: O grande lance está em fazer as canções conversarem entre si.

A escuta do álbum C.E.R. começa com a apreciação da capa.
Existe um personagem e um violão por entre uma névoa verde
provocada pelo desfoque de alguma vegetação.
Este sujeito espreita,
e está à ponto de assaltar uma ilha de edição do nosso estúdio realidade.


--- desvio nº2 ---

C.E.R. é um disco embebido de Londrina.

“... um arraial cercado por uma densa massa de floresta que se estendia no horizonte escarlate. No verão, a umidade que escapava da mata sufocava os habitantes. Quem adentrava o maciço sombrio de altas árvores voltava encharcado de um suor pegajoso. Ingleses, alemães, russos, dinamarqueses sofriam com o clima da “selva do Três Bocas”, onde campeavam moléstias silvestres. Nos fins  de tarde era possível ver os funcionários estrangeiros da Companhia de Terras lastimando a mata.” (Maurício Arruda Mendonça).

O cosmopolitismo apontado por Leminski (1985) em Rodrigo ainda permanece, e o principal diálogo musical que o autor faz é justamente com o jazz e seus derivados. Mas isso tem a cara de Londrina – ou de uma parte dela. A influência da arte japonesa, sua economia de meios e sua visualidade, também é marcante na lírica que permeia o álbum. E, novamente, mais um traço desta terra que tem uma das colonias japonesas mais significativas do país.

 A Trilogia do Esquecimento
                                                    Rodrigo Grota
                                  Kinoarte


Haruo Ohara  ;  seu olhar descende da poesia mínima.



O haicai de Nenpuku Sato explica nosso fotógrafo mor.

Booker Pittman

Jazz e entretenimento na terra do café

Satori Uso
persona síntese beat pé-vermelho
                                                                     Londrina,
a mais rápida das bandas de cá

---

Voltando, enfim, ao disco...
                                                     eu vim parar aqui por causa da vegetação...
   qualquer lugar onde se firme a vista tem a cor verde...
                     Londrina parece que brota do meio do mato. Isto tudo está no disco...

                                               Mas o disco é um disco de viagem! lugares diversos ... nômade.
               Não de Londrina,
p#$$%!

Sim,
                                mas o olhar
         e os ouvidos                       que registrou essas viajens
                                                                                                        foi feito em meio a estes pinheirais.


III – algumas percepções faixa a faixa:

O disco abre com Quaderna. Quatro compassos quaternários. Porém, existe um deslocamento rítmico na idéia inicial que transforma a repetição em cama para a diferença. É o que ocorre também com as estrofes que, sendo compostas em quadras, com excessão da última, sabotam a redondilha maior, proposta pelo primeiro verso, com uso de metros irregulares. Os temas elencados em cada um dos versos também sacaneiam a estruturação lógica, pois quase nunca apresentam uma situação de correspondência obrigatória com o número quatro... (por ex., compassos podem ser quaternários, ou binários, ou ternários...) ... mas tudo isso prepara a ideia central: a escolha, e a composição de um próprio enredo para a vida.

A segunda faixa, Ninguém Melhor Que Ela, é uma versão da canção tema do 007 de 1977. Pode não parecer, mas ela é mais do que uma simples canção de amor.  Temos aqui um jogo de espionagem entre o desejo e o amor. É bem bonito o espelhamento entre as estrofes, na primeira ela guarda os segredos dele, na segunda ele guarda os truques dela... o arranjo, muito delicado e bonito, tem ares de "foto BP" e "espionagem"... um baita climão! ... quem arranhar um violãozim pode arriscar tocá-la com acordes simples, também fica bonita e a aproxima de uma pegada  mais "brega brasileiro", meio tremendão ou Odair José, muito propício para este tipo de Gaia-Ciência (isso é sério, não estou tirando onda...). Ps.: o foto é linda, mas dá pra rir quando lembramos que se trata de uma "maria sem-vergonha"... bem, afinal, são leituras!

Alba é a canção praieira do disco. O mar sempre nos ensinando sobre a real dimensão das coisas. Essa percepção é fundamental para nos colocar no nosso devido lugar. O jogo final da letra, “vida breve  / curto o dia”, nos faz lembrar ainda que começamos essa viagem sob o signo de Quaderna; da responsabilidade sobre traçar o próprio enredo de nossa única vida.

O primeiro quarteirão do disco se encerra com Vertigem (Um Corpo que Cai). Aqui temos a canção mais cinematográfica do disco. A melodia das estrofes é composta partindo de motivos em zigue-zague sobre uma harmonia dissonante. Esta melodia, associada ao desenrolar gradativo da letra e do arranjo, cria um clima de tensão e contensão que se rompe na palavra “vertigem”, acentuando o conteúdo passional do refrão, que parece cair... uma associação com o perfil melódico desendente. *na última vez que o refrão é apresentado aparece uma segunda voz, do próprio Rodrigo, que canta uma melodia em movimento contrário... isso parece, da maneira como é feito, agravar a sensação de  desencontro e angústia dos personagens.
Fugaz. A palavra "vertigem" volta para a cena. O estranhamento da viagem. Toda a beleza é fugaz... Que foto mais linda! Nossa! Dá para ficar procurando formas aí... . O texto é apresentado de forma declamada para, somente na re-exposição, entregar a melodia. A arte querendo eternizar o instante...  
Sobre Cerejas eu já disse um pouco. Esse poema interrogação ficou uma delícia de cantarolar com essa melodia... a parte B apresenta a leitura dos negritos originais. E poder escutar o Casagrande com seu vibrafone é sempre uma grande oportunidade.
Álibis começa com o verso "Pela trilha sem folhas". Pra quem não conhece, "trilha forrada de folhas  / sem saber o leste e o oeste  / japonês que chega aqui"... Nenpuku Sato, via Maurício Arruda Mendonça. ... O primeiro verso revela uma estação do ano (ou da vida). Depois vem o desterro, "água bebida num trem" (Fugaz). E esse verão passeando de novo pelo disco.
Assim como o que ocorre em Fugaz, em que a canção ajusta uns versos do poema original, Rito faz algumas alterações no poema original. A mais evidente é a supressão da palavra "cobranças", porém uma escuta mais atenta revela que existe um outro plano de pontuações no canto... a frase central não soa como uma pergunta... existe uma interrogação após o "lembra" do primeiro verso da última estrofe ... e a interrogação final vira uma espécie de ponto (ou três pontos). Pra mim essa é uma das canções mais bonitas do disco. Acho linda a primeira sequência de rimas em "isso", é um som meio soturno... uma canção triste, sem dúvida. Aquela alteração que eu mencionei, da dúvida que vira afirmação (precisa de centro!) acho uma transformação linda... a melodia gira em torno de uma nota, um centro... gosto ainda mais porque a letra registrada no encarte traz a interrogação. É nítido o contraste desta canção com as que vieram antes... aqui já não acontecem explosões por simples fagulhas. E a foto fecha um afeto fantástico!
Fechamos o segundo quarteirão. Adeus abre as portas das parcerias. Aqui, um poema do Paulo Leminski. Rodrigo foi muito feliz em sua versão para esse poema de despedida. Essa canção com levada funk ressalta uma espécie de humor em meio à amargura do que é dito. Lembram daquela história da canção bola grudenta ao tempo? Essa foi feita na década de 1990. Nessa época o poema "Rito" ainda não existia. Nessa época o Rodrigo ainda podia abraçar seu pai e sua mãe... Provavelmente essa canção já está enorme; deve ter grudado tantos significados nestes quase vinte anos de existência... Uma canção de desprendimento. Pra dançar!
Iluminações é uma canção exemplar. Parceria com o Bernardo Pellegrini. Tem um certo clima de "clube da esquina" (perdoe-me fazer comparações, coisa de redator chinfrim, mas acho que isso colabora com o clima e situações em questão). Casa de madeira ... quem foi que disse! ... o chão cede, ora! ... (pra mim, inclusive, é a "casa de mata-junta", da rua da Carioca - pra quem boiou, ver Londrinenses, no último conto). Essa canção capta os elementos certos de uma atmosfera de república em meio à sonhos e esperanças. É lindo cantar isso nesse momento do disco. Lembrar dos sonhos... reanimá-los através do canto.
Butterfly. É, compor em inglês é assim, mano! Classe essa canção. Uma pequena pérola capturada pela Neuza Pinheiro em forma de melodia. Essa canção é  tão delicada quanto a bela borboleta descrita. Cada verso com um som especial... melopéia, fanopéia, logopéia... tá tudo aí. Uma explosão quase muda.
New York. A última faixa do disco, um "tipo um rap", pra lembrar a formulação do Chico Buarque sobre as canções de seu último disco, funkeado. O arranjo feito pela banda "Cinemática", partindo do violão original de Rodrigo, reforça as intenções expressivas do canto falado do autor. O que mais distancia essa canção de um rap tradicional não é de forma alguma o arranjo, ou mesmo a tendência mais lírica do que épica ou dramática. O que de fato faz com que pensemos que aqui não se trata de um rap é a falta de engajamento comunitário. É o não pertencimento desse sujeito que canta ao ambiente descrito. Ainda é uma canção de passagem, de estranhamento.
IV - pequena ressalva.
me causa um certo desconforto pensar que "a cara de Londrina" seja mesmo este cosmopolitismo de pioneiros.   essa é a "cara de uma certa Londrina", central, estudada... cultura, penso, é mais do que isso... Família IML (que acabou), rap nacional de responsa, pé-vermelho... um amigo me contou como os caras ficaram felizes de tocar no centro da cidade - na Vila Brasil... (a molecada da periferia tem os sons nos celulares e sabem as letras... e pensem, tocar no centro da cidade DELES causa alegria)... e tem mais coisa que acontece por aqui que não tem essa face cosmopolita... gostaria mesmo que as pessoas que ainda não conhecem o trabalho do Rodrigo pudessem trafegar nas pontes de percepção que ele vem traçando ao longo dessa caminhada poética.                      
o contrário também seria legal; que quem já trafega por essas pontes possa perceber outras realidades.
 /
 

terça-feira, 9 de abril de 2013

A morte e a transfiguração de um anjo: pequenas notas sobre quando a canção ajuda.

I
Lorenzo laureado
Laurentius
               de Florença
   à latina Londrina.

Cacione
                               e Arcangelo
Leo leonado              
                       e Thais
     Astronave de Papel.

Receberam um anjo
                    (um elo além da alma)
que espalhou luz
           na vida de todos nós.

Mas uma coisa é certa --- a morte

é quem afirma a sorte.

A dádiva
a duvida
devida.


II
Desde ontem um disco do Otto não me sai da cabeça: 

Algumas coisas nos forçam a suspender projetos, prazos...

Esta noite acordei assim, 
          parecendo um inseto virado de barriga pra cima.
                                      Acontece que ontem, após uma festa regada em boa musica, 
                   recebi a trágica noticia sobre o falecimento do nosso tão amado Lorenzo. 
(Amor: um querer ver crescer, uma rede para a eternidade... 
                sim, eu por diversas vezes o imaginei já homem, ao lado dos meus filhos...). 
(Trágico: como meu amigo Caetano me ensinou: do grego tragos; 
                o berro do bode; o sacrifício da vida).


...
                          Hoje pela manhã, 
                                                     indo para o Parque das Oliveiras, 
lembrando que não faz muito tempo
                                                          eu estava ali para me despedir da Carisa 
– outra amiga muito amada. 
         (Naquela ocasião, durante o cortejo, eu não parava de pensar na canção “Lágrimas Negras”.)

“belezas são coisas acesas por dentro
tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”
...

Um pouco antes de chegar, encontrei a Gisele.

“forte como aço
meu abraço”

(hoje, cada micro-espaço dessa canção
significou algo marcante)


Ela me disse da saudade, do matutino choro solitário, da noite de sonhos. Da Thais.
                                                                (o Binho disse: "...é, agora é cuidar da nossa amiga, meu irmão!")

"Saudade quero ver pra crer
Saudade de te encontrar
na vida tudo pode acontecer
partir e nunca mais voltar..."


Mas é mesmo como o Otto diz, “não existe armadura contra o sofrimento”. 
                                                                |A pele é crua.|

Seu disco, inclusive, foi forjado em um intenso contexto de perdas 
                              (seu relacionamento afetivo, sua estabilidade profissional, 
e a morte de sua mãe e de uma afilhada da 2 anos – então idade de sua filha).

...
...

“Por entre flores e estrelas
você usa uma delas com brinco
pendurado na orelha”

É difícil não imaginar que ali é um filho seu. 
    Difícil é suportar essa tao imagem.
          Então, celebramos a dor chorando em coro. 
               Ela, a dor, nos une e revela a vida. 
                                                                                 (Qual pai e qual mãe ali presente
                                                                     depois não olhou para seu(s) filho(s)
                                                        e sentiu o peito completamente tomado?)


“Há sempre um lado que pesa e um
outro lado que flutua a tua pele
é crua...”


                                   Lorenzo ensinando o Otto (meu filho) como brincar carnaval.



João de Carvalho
08/04/2013




segunda-feira, 25 de março de 2013