sábado, 28 de maio de 2016

MM3, Metá Metá 2016

João de Carvalho

Imagem criada e disponibilizada por Kiko Dinucci
"Primeiramente, Fora Temer!"

Ontem saiu o novo disco do Metá Metá: MM3.
É mais um registro ao vivo, pois essa é desde o início uma das propostas do grupo.
São os 3 (Kiko, Thiago e Juçara) mais o Marcelo Cabral (baixo) e o Sérgio Machado (bateria).
Num exercício de desprendimento (na aceitação dos erros) em 3 dias de estúdio.

O resultado, como era esperado, ficou visceral.
Mas mais do que isso, é um disco de luta, de resistência cultural.
Ano passado conversei com eles aqui em Londrina.
Na entrevista ficou nítido como o posicionamento religioso deles
é também um posicionamento político. O Thiago França disse:
"quando você não esconde o que você é, isso já é um ato político".

Pois bem, acontece que o golpe que foi dado na democracia brasileira
utilizando-se da maquinaria midiática tradicionalmente manipuladora
foi forjado por gente que não tolera a diversidade cultural e religiosa.
Neste contexto o disco do Metá Metá é uma afronta direta aos valores fascistas
que crescem à todo vapor em nosso tempo, em volta de nós.

São nove canções novas. E diferente dos outros dois discos
onde as canções já existiam e foram arranjadas pelo trio
agora elas foram compostas desde o início entre eles.
O disco abre com Três Amigos, com participação de Rodrigo Campos na composição
mais a Juçara e o Sérgio. O texto é aberto e agressivo
como uma carta de apresentação da banda, e do disco.
Uma canção pra por "os bico em choque".
Quase um aviso do tipo "quem não entende que saia assustado... ou fica suave".
 Angoulême, a segunda faixa, vem no mesmo encalço, com texto aberto e agressivo
sonoridade agitada e surpreendente. A terceira canção do disco é
A Imagem do Amor, outra pedrada. A anti-balada do disco
que grita "a imagem do amor não é pra qualquer um"!
Faz lembrar a lenda de Iansã, uma mulher em forma de búfalo
mas que poucos podem ter o privilégio de vê-la em forma de mulher
como uma das ilustrações que acompanham o disco.


 Sempre comparo Kiko Dinucci à Dorival Caymmi
tanto por seu talento como artista plástico como pelo
uso da mitologia do candomblé, gerando
canções mágicas (mágicas conforme Edgar Morin).
Mano Leguá, a quarta faixa do disco, nos conecta com Exú,
Orixá mal compreendido e chamados pelos perseguidores
de Diabo. Kiko inclusive já produziu um documentário
sobre este orixá fundamental dentro da cultura do candomblé. 
Angolana é a canção que mais explicitamente reflete as experiências
da viagem que o grupo fez à África, no ano passado.
O sax de Thiago França incorpora sonoridades da música do oriente médio
o que amplia o lugar comum de imaginar a música africana principalmente rítmica.
Em Corpo Vão, a quinta faixa, temos novamente uma canção subversiva
com um final cheio de energia ideal pra fazer o público dos shows baterem cabeça.
A sexta faixa é inteiramente cantada em iorubá . No arquivo de PDF com as letras,
que vem compactado junto com as faixas do disco, podemos ler a tradução da letra.
Osanyin é um canto pra Ossaim, o senhor das matas, dono das ervas
um canto ideal para a mentalização positiva no preparo de chás e banhos.
 

A penúltima canção do disco é uma parceria com Siba.
Toque Certeiro é mais que uma canção de desencontro amoroso.
É o desencontro de quem não tem parada certa.
Meu Balão Vai Voar, a última faixa do último disco do Siba - 
disco que Dinucci participa na linda O Inimigo Dorme
caracteriza um "cigano peregrino, que desconhece o lar".
Voltando à canção do Metá Metá, apesar de todo o desencontro
ela acaba afirmativa: "toque certeiro pra onde apontar".
Lembra-me muito a sabedoria contida em outra canção de Siba 
Pra finalizar a escuta do álbum MM3 temos Oba Koso, um canto pra Xangô
o rei da justiça. Uma faixa de 9 minutos com texto curto,
como outras canções do Metá Metá, praticamente um mantra.
Um mantra que prepara a alma pra guerra.
 




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