quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Nas Varandas da Vila

 João de Carvalho

Um tando de mim quer traçar esse texto como quem abraça amigos.
Tenho que ter em mente o que o Palmeirah me disse:
Mano, não dá pra dá um salve pra todo mundo... é muita gente, aí o programa não anda!
O certo é que este texto mais esquece do que lembra.



Ao me propor apresentar o projeto Conversa de Varanda, da Gisele Almeida,
fui mapeando uma espécie de rede de produção,
onde cada indivíduo contribui com um pouco na construção do significado
que o disco – no nosso caso – carregará.

E, ainda que eu diga tantos nomes, como direi, falta muita gente!

Será que esqueci, por exemplo, de ti?

Onde você entra nessa história? Como estas canções ecoam em você?
São respostas que merecem constar nesta postagem.
Espero que você me compreenda a falha.
E que ainda assim este texto possa te abraçar.

A Vila

Na segunda feira do dia 8 de setembro, subimos à pé, eu e o Waldir, até o Cemitério de Automóveis. Fomos ver e escutar o Bernardo Pellegrini cantar e contar suas histórias. Voltamos de carona, em carros separados, pra tomar uma aqui do lado, no Bar do Tomil. A mesa, por fim, se formou comigo, com o Maurício Arruda e a Jacqueline Sasano, o Waldir e a Raquel Palma, o Cândido e sua trupe de palhaços (Pepito, onipresença na noite londrinense) e o Carioca. Em outras palavras, era uma mesa de artistas. De encontro de gerações da produção cultural de Londrina.

O Cândido, músico e ator, mora com seu filho mais novo em São Paulo. Conheceu o Bernardo e o Maurício quando morou em Londrina na década de 1980. Nessa época isso aqui era um orgulho só! A cena cultural podia ostentar nomes como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Isso falando só de canção, mas tem também a presença do teatro daqui, que talvez, inclusive, seja a característica mais marcante daquilo que se chamou vanguarda paulistana, na sua aceitação mais radical da vocalidade, cheia de máscaras e personas...



Em certo momento o Maurício comentou sobre uma frustração a respeito da atual movimentação cultural de nossa cidade. Respondi que, em 12 anos de Londrina, parece que escuto agora o vento mudar de direção. Bem papo de boteco, impressões subjetivas. Comentei que eu pirava no lance do portal que alguns – o Otto, por ex. – anunciavam como o 1111. Eu também vejo este número com frequência... piras, piras, eu sei... mas falei pro Maurício que eu acreditava que existia uma onda de pessoas/artistas, muito mais colaborativa. E disse que aqui, na Vila Brasil, eu encontrava as maiores inspirações para esta esperança.

Foi no livro do Maurício que eu li. Como epígrafe geral, Londrinenses traz uma citação de C. L. Srauss, quando este passou por aqui:

“Mesmo que os planejadores de Londrina se mostrassem indiferentes aos espaços, estruturas mentais inconscientes se aproveitaram dessa indiferença para invadir o domínio vago e nela se exprimir de forma simbólica ou real, um pouco como as preocupações inconscientes se aproveitam do sono para se exprimir”


Busquei me indagar mais sobre esta vila.

O que faz tanta gente interessante, que enfrenta com bravura os abusos imobiliários e as insanidades do mercado de trabalho, tornar-se vizinhos?

Se eu parar de escrever agora, e sair pra ir na venda, aposto que encontro algum(a) maluc@, que também está se equilibrando entre um monte de contas e muitos, muitos sonhos. Um desses malucos que podem pintar a qualquer momento na minha frente é o Danilo Lagoeiro. E é no livro que ele escreveu com a Maria Fiorato, Impressões da Memória, que encontro um depoimento do Seu Zé Rodrigues, o sanfoneiro que mora ao lado do Espaço Cultural Vila Brasil, onde rola a capoeira e tal...

“Serenata pras menina, pras moça? Ai fia de Deus, a coisa mais bonita, que mais as moça gostava! Vamo supor que eu tinha uma namorada, né? Se ela falava que o pai dela ia sair era melhor, mas geralmente sempre tava. Aí a gente ia, a gente já sabia o quarto que ela dormia, e a gente ia na rua quando tinha certeza que tava todo mundo dormindo, depois das dez, ia debaixo da janela dela, pegava e tocava a música bem baixinho, sabe? Bem sereno assim... Aí você via aquelas janela abrir que nem porta assim, ai que gostoso, meu Deus do Céu! Ai que gostoso... A gente não falava nem uma palavra, nem um nada.”

Aqui, desde antes, é uma vila de misturera de origens. Podemos dizer, sem maior ufanismo, que é um justo nome para o bairro. O tom geral dos acordes era a música caipira. O reinado da viola e do acordeom. O repertório típico de um ambiente praticamente rural. Os sonhos dos circos, as paixões das quermesses, canções nos lábios, nos dedos e no coração.

O projeto conversa de Varanda foi idealizado durante encontros neste bairro e, como não poderia deixar de ser, parece ecoar esta teia de sonhadores que compõe o inconsciente dessas casas de madeira.

Os Três Primeiros Papos



A Karen Debértolis é gente boníssima!!!

Uma articuladora fundamental para a cultura da cidade, capaz de ligar gerações distintas de criadores [Vinícius Lima e Rodrigo Garcia Lopes, Rodrigo Grota e Luiz Mioto]. Karen, sabia que eu dei seu álbum, o que você me presenteou, pro Palmeirah? Ele é seu leitor e admira muito o trabalho poético/musical que você desenvolve! (preciso de outro disco)

A Karen, além de poeta, é jornalista. E tem, tal como o mano Palmeirah, um programa de rádio. (tenho que me lembrar de apresentar a Janete El Haouli pra ele) E a Karen tem também um blog! Se você ainda não conhece, confira:

                  Blog Inéditos de Dispersos                     Contracapa, Radio Alma

E é ela, essa figura tão generosa, que promove o trabalho de tantos ao seu redor, e que em seu primeiro disco já nos alertou sobre a força do silêncio como arma, quem abre a série de web-vídeos do projeto Conversa de Varanda. Saca só a sapiência dessa mulher das palavras, acostumada a dialogar com tanta gente:

“quantos falsos
palavras de pilhéria
suspiros de lado com palavras disparate
quantos falsos
adorações adocicadas
protestos ma non tropo
frases desastres
quantos falsos
que gritam corretas atitudes
que mastigam sua própria arrogância
e cospem uma fragilidade fake
quantos falsos
parecendo vidros transparentes
com rótulos de instruções serenas
que espreitam pela queda
o deslise
o tropeço
quantos falsos
e vão estender a mão
a outra escondida em figas
o sorriso do gato de Alice
do alto do mais nobre falsete”



Bem, o Fuca, que mora uma quadra à esquerda, com a Gisele, é o músico que compreende o que a Karen deseja e propõe para o restante da banda. E pelo fato da Karen estar sempre aqui por perto, gravando e editando os programas ali na Vila Cultural Alma Brasil, ou se reunindo para ensaiar com o Fuca, e por ela admirar o talento da Gisele, é que surgiu “Insuspeito”. Canção composta por Rafael Fuca, sobre texto de Karen Debértolis, é uma bela balada pensada pra voz da Gisele Almeida. Representa muito da musicalidade da Gisele, cantora de blues e jazz em vários projetos aqui nessa terra vermelha. (Ela também veio do interior de SP).



O segundo papo foi comigo. É, eu fui um dos compositores convidados para estas Conversas de Varanda. Orgulho pra mais de metro. É sempre um prazer poder tocar com o Fuca, e é uma alegria sem igual ter “minhas” palavras e melodias na boca da Gisele. E, além disso tudo, poder ser registrado, em som e imagem, pelo Felipe e pelo Nilo, da Filmes do Leste, empresa que também é vizinha aqui {uma quadra pre esquerda e duas pra cima}, putz, aí fica até difícil de dizer alguma coisa... pra mim esse vídeo é um papo entre 5 pessoas, pois os dois câmeras são personagens ativos, tanto na escolha dos ângulos, o quê mostrar?, como depois na edição que ficou sob a responsabilidade do Nilo, e a arte nas mão do Felipe... eu consigo escutar alguns pensamentos deles... a escolha do Nilo em montar a minha fala toda entrecortada, e frisar com close quando digo que me formei professor, isso é ele compreendendo as canções, me escutando, e expressando o que vê e pensa... e o cabelo da Gisele harmonizado com os contornos das janelas e com os tipos das letras do projeto inteiro? Isso é o Felipe soando! Não é um outro artista, é o próprio camarada que operou a câmera, e que estava fazendo o rolê porque botava fé na ideia (até a gravação deste programa, que foi antes da Copa, o projeto era completamente “independente”)... tá dito aí:



A Gisele vai cantar no seu disco minha versão do Gayatri Mantra, que batizei de Um Gayatri. Isso é muito legal, pois esse trabalho de transcriações compõe uma parte considerável do meu repertório “autoral”, e essa versão em específico liga meu caminho com o da Gisele de uma maneira muito especial, pois envolve nossa pouco definível espiritualidade. Uma informação que complementa bem este quadro é que ela é minha terapeuta floral, além de me ajudar com seções de Reiki! A palavra é só uma, gratidão!

“som chão vento subirá
até o sol supremo raiou
e que também aqui
brilhando está nosso caminho”


O terceiro papo foi com o Fischer Seixas. [Esse mora duas quadras à direita, e somos amigos “estrangeiros” nessa cidade desde nossa graduação – +- 2002 – , eu em música e ele em psicologia]... E essa conversa foi tão importante de ter acontecido! Pq esse nosso amigo aí andou muito tempo recluso em seu mundo. Equilibrava-se entre os ofícios de psicólogo e carteiro – isso é literal, dos Correios mesmo. Agora largou tudo e está em casa trabalhando em seu blog e suas canções. Esse vídeo, essa possibilidade de existir enquanto cultura, são quase cartas em garrafas, pergaminho na pata de um pombo correio, informando aos parentes e amigos distantes que tá tudo certo. Tamo seguindo, conseguindo existir e resistir no loko rolê do mundo!

“Na paisagem citadina
Cada esquina revelou
A mais bela pradaria
Infinita toda em flor
Se da flor fruto não vira
Pague a prenda, meu Senhor

Ai, meu Pai, meu Pai do céu
A loucura me atacou
Foi um mal inesperado
De tão forte que afrontou
Revirando a certeza
Quase nada me deixou
Ela veio de veneta
Disparando o seu humor
Foi cuspindo na visita
Arrotando a minha dor

A loucura é arredia
Ela já se amotinou
Declarando a rebeldia
Degolando o desertor
Sorrateira faz o caos
E a porteira arrebentou
E de fora vem pra dentro
Enxotando quem ficou
Nem pai nosso, ave maria
Nem vergonha nem pudor
A sangria é desatada
Com remendo supurou

Se ela fez o que bem quis
Teve tudo a seu dispor...
Vai girar num torvelinho
A ressaca enfim chegou
Vai deixar outro caminho
Pro caminho acontecer
A verdade que foi dita
Não dá mais pra desfazer
A loucura ficou mansa
Desgrenhada, acalmou
Foi dormir feito criança
Esquecendo a sua dor”

Esse vídeo do Fischer podemos dividir em 3 partes. A primeira a e última sequências constituem-se das duas canções apresentadas integralmente, A Loucura me Atacou e Dois. Na seção central, que rola a entrevista e a canção que o Fischer fez com seu avô, homenagem ao Paysandu - azul e branco na camiseta e no blog-, podemos perceber a paisagem sonora daqui do bairro: cigarras entremeadas pelas varreduras sonoras dos carros e dos aviões. Se vc-s repararem, nessa seção do meio temos duas sequências, com dois assuntos distintos. O primeiro conta dessa distância que o Fischer tem de sua terra, e é muito sugestivo a violência ser pontuada pela aproximação de um carro, e no momento em que ele fala do Marajó só escutamos cigarras, em uma cena acústica típica do interior do país. No segundo momento, que começa com a recordação de uma canção do Raul, temos um recorte de uma fala bem característica do Fischer, e ele comenta sobre sua relação com o ato de compor. E assim como no primeiro momento o carro gera um ponto de tensão na fala, que logo se desanuvia, o mesmo acontece neste segundo fluxo, mas agora com o som de um avião. Depois que o som passa o Fischer vem relaxando, e se diz "voltando, voltando, voltando"...





A canção que a Gisele escolheu pra cantar do Fischer foi Queixa de Sinhá. O vídeo, que foi o último lançamento do projeto, apresenta uma linda interpretação da canção do Fischer com o violão do Fuca e a voz da Gisele. Uma canção ambígua, com uma escrava quase que se enfastiando com o lamento dos desencontros amorosos de Sinhá. Parece que a família do Sinhô está tendo problemas com escravos e com contas na praça, a escrava talvez até receie sobre o futuro do outro escravo. O Fischer é um admirador do Chico Buarque, e é curioso que essa composição dele - se não me falha a memória - é anterior à Sinhá, do Chico e do João Bosco. A atmosfera das duas canções até dividem similiridades... Se por um lado a canção do mestre trata sobre as artimanhas retóricas que o escravo tem que se valer para se defender das acusações da Sinhá, a canção do meu amigo versa sobre o equilíbrio que o escravo que fica ao lado da senhora tem que ter. A ambiguidade é uma arma mais do que necessária. Bem, sabemos que essas relações não se extinguiram por completo da nossa sociedade, e uma crônica de época, como é o caso dessas duas canções, tratam muito mais de comportamentos arquetípicos do que propriamente de uma cena bucólica de um imaginário saudosista ou anacrônico. E a Gisele se porta muito bem com este texto, mantendo sua natureza ambígua e não entregando de mão beijada quem é quem neste diálogo. 


Pra onde o vento sopra?

O projeto Conversa de Varanda apresentará, até dezembro, dez compositores londrinenses, residentes e atuantes na cidade. O único caso que quase contraria isso é o do Miguel Arruda. Outro mano de uma cara, é filho da Thaís (transcriei o mantra pra cantar com ela), e como a mãe, é um nômade, filho do mundo. Mas sempre volta pra cá...



Entre os sete compositores – alguns eu não conheço! – que ainda estão por vir, temos em uma ponta o veterano Bernardo Pellegrini – vocês devem se lembrar que começamos indo para um show dele – e na outra ponta, a estreante, inspiradíssima, Carolina Sanches {Maracatú Semente de Angola, Pisada da Jurema e Caburé Canela}. Tecnologia de ponta!



Nestes dois últimos sábados, inclusive, estive em lugares muito especiais que a Carol também estava, e nestas duas oportunidades ela cantou a canção que a Gi escolheu para gravar. É uma canção que convence todo mundo a cantar junto, mas não em coro, e sim colocando cada um na ação de encontrar um lugar para sua própria voz... e, quem estava presente deve se lembrar, começa com uma cena parecida com a relatada pelo Seu Zé!

Ah, Jung,

parece que o Sr. Strauss era realmente um cara de intuição!

E, eu não disse que o que dava o tom pro aqui eram as sanfonas e as violas?

Mas tinha mais coisa...

Acontece que na rua Venezuela, praticamente ao lado das sanfonas do Seu Zé, tem uma espécie centro budista... O Maurício me contou de um mestre Zen que dava aula de japonês ali. Hai-caísta reconhecido e premiado nacionalmente. Certa vez eu estava passeando com os meninos e paramos para escutar a música que vinha daquele salão... uma canção linda, pentatônica, com aqueles arranjos de orquestras típicos japoneses.

(entre o templo e o Seu Zé os meninos curtem, aos sábados à noite, o som da capoeira)

Bem,
se a Vila conspira,
e esse projeto é vontade dela,
falta falar de quem?
Uma dica:
viola + zen
é
tô pensando
no André!



Se por um lado temos o Fuca como braço direito da Gi, fazendo a ponte entre os compositores e os instrumentistas, temos o André Siqueira na função de instrumentista/arranjador/produtor. O André é um mult-instrumentista, mas mais do que isso, pra mim, ele é um “violeiro expandido”. Não um cantador, e sim um caboclo que de repente encontra a paz no som, no correr dos dedos em um instrumento. O André é um grande artesão, como parece ser a regra para qualquer um que aspire a paz interior. Fiquei muito feliz ao imaginar o André, com sua vasta experiência com improvisação e com sua intimidade com a obra de Giacinto Scelci, emprestando sua musicalidade para a canção que eu transcriei.

Se você ainda não conhece o trabalho desse fera, confere aí: link.

E fiquei muito feliz também quando o Bruno Gehring me disse que quem vai fazer a pós-produção do disco é o Marcelo Cabral. Manja ele? Integrante do Passo Torto! Baixista e produtor do Criolo. Foi o cara que “bancou” o Nó na Orelha. Produtor do Fantástico Mundo Popular do Sombra!!!! Esse cara, de forma indireta, é um dos responsáveis por me fazer perceber e compreender o que está acontecendo, e, consequentemente, nesta minha narrativa ecoa seu trabalho...

Faz mais ou menos um mês que eu apresentei um trabalho, no Simpósio de Comunicação Popular e Comunitária, intitulado “Duas de Cinco, do single ao curta: a rede de produção do hip-hop paulista em tempos de youtube”. Neste trabalho busquei revelar que o curta Duas de Cinco é fruto de uma produção horizontal, onde muitos agentes contribuem de vária formas para o significado da obra. Quando o curta foi lançado, on-line e com bate papo com o Criolo e o Cisma, me lembro de ter pensado: Puxa! Esses caras estão coroando um novo paradigma de produção de canção no Brasil. Áudio-visual. Uma produção rizomática. Independente. Desmonetarizado, que foi um termo que aprendi no simpósio com o rapaz do Mídia Ninja, mas capaz de captar recursos de várias fontes.



 Ter o Marcelo Cabral para dar a “última demão” nas canções do disco da minha vizinha Gisele Almeida, é algo que reforça a minha fé de que a vida, e a Vila, sabe o que faz. Muito mais do que “emplacar”, o CD que está previsto para sair em dezembro será um passo importante para superarmos essas “cordilheiras sob o asfalto” que nos distanciam. Né, mano Palmeirah?!

terça-feira, 22 de julho de 2014

Nova edição do curso!!! ou, já não era sem tempo, né, João!?

Você já conhece este blog?
Seja bem vind@!
Montei ele para ser um espaço de trocas com os alunos/amigos que fizeram o curso A Canção e Seus Sentidos. E por sinal, venho aqui hoje chamar vc pra participar de mais uma edição deste curso que costuma ser um percurso cheio de escutas e descobertas.

Funciona assim. A canção, vc deve estar consciente disso, é um território híbrido. Um baita cruzamento cultural. E o cancionista, da maneira como compreendo, é um cara curioso e cheio de amigos criativos e interessantes. Fruir canção é algo que nos conecta com muitas linguagens diferentes. Considerando isso, o curso que pensei funciona bem quando tem gente de áreas de estudos diferentes, pois assim trocamos impressões e percebemos este objeto insólito, que é a canção, por ângulos novos. 

Em outras palavras:


Entendeu?
Mais ou menos?
Assim, ó.
Vou abrir horário para 3 turmas, uma na terça de tarde (15:00 hrs), uma na quinta de noite (19:00) e uma no sábado de manhã (9:00)... se vc se interessou, mande um email para mim (jocarv1984@yahoo.com.br) dizendo qual horário vc prefere e quem é vc. Curte estudar o que? E escutar o que? E se vc tiver um outro horário de preferência, estou aberto à sugestões.

Tá faltando dizer que serão turmas de 3 a 6 alunos. (alguns encontros prometem até pão de queijo)
E q são aulas de 1 hora e meia. 
Durante 4 meses.
Que o investimento é de 80 reais por mês. (baratin baratin!)
E que é suuuuuuper legal estudar canção!!! 
Tá entendendo?

Bom dia, então!
até logo ;)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Juçara Marçal – o grito da geração que a crítica quis abortar

João de Carvalho


Juçara Marçal lançou seu primeiro disco solo, o “Encarnado, no início da semana passada. Desde então é o disco que estou escutando no mp3. Resumindo, é um disco tão lindo, ousado e bem feito que naturalmente somos convocados para escutar de novo. A produção é independente (ela mesma bancou a gravação) e está disponível para download gratuito no site: Juçara Marçal

O entrosamento de Rodrigo Campos e Kiko Dinucci – que tocam também no Passo Torto, com Romulo Froes e Marcelo Cabral – chegou ao seu estado de maior sintonia. De cara, temos como primeira faixa do álbum a canção “Velho Amarelo”, do próprio Rodrigo. Reparem que o acompanhamento é feito somente por guitarra e cavaco distorcidos, onde a harmonia fica dividida em módulos de arpejos que, pra mim, remetem claramente às texturas circulares da kalimba africana – instrumento utilizado pela Juçara para se acompanhar em “Canção pra ninar Oxum”.


E uma das histórias que este disco conta é justamente essa. A de um caminho da música de raiz africana no Brasil. Isso, é claro, já vem dos trabalhos anteriores do Metá Metá. Vale lembrar que o refrão afro de “Mariô” do Criolo é do Dinucci, e os metais do Thiago França! Encarnado é o disco de uma cantora afro-brasileira, e de autores afro-brasileiros.


Em “Damião” podemos confirmar a força desta nova geração de cancionistas, o que o Romulo Froes apontou como a inventividade com o “timbre”, e que eu trato por “sonoridade”, para que assim escutemos também o elemento “textura” como protagonista deste “novo domínio” do cancionista. E, assim como Pixinguinha deve ser lembrado como um cancionista, não só por seus temas que ganharam letra, mas sobretudo por ser um baita orquestrador de seu tempo, ajudando a definir a sonoridade do regional brasileiro, o que seria fundamental para o samba... bem, assim caminha o Thiago França!


São muitos os momentos inspirados do álbum, mas o climax do disco é sem dúvida bem na metade do repertório, a 6ª faixa, “Ciranda do Aborto”, de autoria de Dinucci. Tanto em Odoya – faixa anterior – quanto na “Ciranda”, existem momentos de improvisação textural super ousados! Talvez, até onde minha memória pode resgatar, a canção brasileira nunca esteve tão próxima deste tipo de sonoridade. Mesmos as experiências do Caetano sempre tinham um certo tom de “teste”, e não de domínio das sonoridades dos músicos de vanguarda. Agora não, em Odoya e Ciranda do Aborto, Juçara e o trio de meninos (chega a rabeca do Thomas Rohrer) conseguem criar uma atmosfera interessantíssima para as canções.


Cada uma das doze composições merece uma escuta atenta. Mas, como o tema central do dico – como bem pontua Romulo Froes aqui – é a morte, não podemos deixar de mencionar a genial regravação de “A Velha da Capa Preta”, composição de Siba. O arranjo que o Kiko e o Rodrigo elaboraram é uma puta aula sobre “acompanhamento” de canção. Nem preciso dizer, escutem só como o texto e a ironia do Siba brilham dentro deste arranjo:



“Encarnado” deixa claro que a geração que a crítica cultural do país quis taxar como morta, está mais viva do que nunca. Pra quem ainda não baixou o disco, tá esperando o que? E para os que já estão encantados, esperamos agora, aqui em Londrina, poder conferir este show de perto!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Copa, empregados em aeroportos, Emicida e MC Guime.

João de Carvalho
Bom dia.
Logo mais eu entro em sala para dar aula.


Esta experiencia recente que estou tendo - a da professor universitário - fez terreno fértil para que eu me emocionasse ao ler a crônica "O empregado tem carro e anda de avião. Estudei pra quê?". 

"Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.".  Matheus Pichonelli

Ao acabar a leitura deste texto, escutei ecoar em mim o refrão: "Nóiz sempre vai ser Guetto!".


"Nóis quer carrão e mansão, né? Por que não?
Tá bem patrão de avião, né? Por que não?
Quer opção, quer salmão, né? Por que não?
Ser feliz, jão, diz aí, por que não?"
Emicida

A maneira como o berimbau é fragmentado eletronicamente, associado à "voz androide" de MC Guime pronunciando a palavra "guetto" é, por um processo de significação metafórica, a aproximação da força da capoeira com a do funk ostentação. Aos poucos, os outros elementos musicais que emergem em nossa escuta lidaram sempre com uma mistura refinada de timbres e referências culturais (existe um virtuosismo impressionante na construção da textura da canção, os ritmos e timbres se sobrepõem sonoramente e conceitualmente). 

E tem o flow - este novo elemento de composição musical - do Emicida, que está cada vez mais elaborado. Mas essa questão do flow é assunto pra outra hora...

Dessa relação do Emicida com o MC Guime saiu a parceria de "País do Futebol". 


Não é a primeira vez que o rap nacional faz "parceria" com a Nike (existem mais marcas presentes nesse clipe). O próprio Mano Brown fez parceria com Jorge Ben em uma produção para a referida empresa, e com a grana reformou a Blue House (sua casa/estúdio no Capão Redondo). Neymar também já havia participado de outro clipe com Emicida (Zica, vai lá).

"No flow
Por onde a gente passa é show, fechou
E olha onde a gente chegou
Eu sou país do futebol, negô
Até gringo sambou
Tocou Neymar é gol"
MC Guime

Até mesmo o comercial da Nike do ano passado, com a vinheta do Emicida, é uma super produção se formos pensar em jingles. Apesar de ter apoiado um evento corrompido como a Copa, e que isso não pareça pouca coisa, Emicida constrói um texto coerente com seu pensamento de valorização da auto-estima da população da periferia. Isso, quando pensamos em "rolezinhos" e derivados, alimenta simbolicamente grande parte da população das periferias dos grandes centros urbanos. Seria, inclusive, o caso de perguntar quais canções esta professora universitária consome. Sertanejo Universitário nas baladas e "música clássica" nos casamentos, talvez? ... O que será? Certamente não é funk ostentação.

Menos problemático esteticamente, mas ainda outro passo discutível dessa aproximação do Emicida com o futebol, foi a participação do artista no sorteio da Copa.


O texto do Emicida - principalmente da primeira parte -  é completamente dissonante com toda a estrutura do evento. É risivel (de nervoso) a apatia da platéia ao final da performance, que acaba esfuziante e é recebida com parcas palmas.

Nesse diálogo todo, rap, funk e futebol, as mensagens foram dadas. Agora, como será que a população (principalmente jovens, nossos alunos da Educação Básica) estão decodificando estas mensagens? 

E aí, educadores musicais, "bora pro bang"?

sábado, 18 de janeiro de 2014

A Rua é Ruído: Rashid e Emicida em "Confundindo Sábios"


por João de Carvalho

Um bom ano para todos e, finalmente, a primeira postagem de 2014!
Vamos direto ao argumento central, que o ano já tá a milhão:
Rashid sai em turne de sua última mixtape.
Mixtape esta que foi batizada com o nome do rap que fez em parceria com Emicida.


No post passado [Nocivo Shomon: na polifonia da revolução] eu apresentei a ideia, que desenvolverei com mais profundidade na minha pesquisa de mestrado, da polifonia no hip-hop. Apontei, naquele texto, como o contracanto realizado pelo Nocivo Shomon é importante para a boa saúde do movimento, que tem na linha de frente de uma nova geração de MC's a figura de Emicida. Este conflito – que, como apontei, chega até a lembrar a famosa “Polêmica” de Wilson Batista e Noel Rosa – pode ser representado nas ideologias que separam os que acreditam que “A rua é nóiz” e aqueles que questionam “A rua é quem?”.

Que tal aproveitarmos essa desculpa do show do Rashid no SESC Belenzinho – a ideia original era fazer este texto como apresentação do referido show, mas não deu tempo :( – para escutar um som com atenção?




“Confundindo Sábios – Rashid, Coyote, DJ Mrs Brown e Emicida

(aê, pra quem desacreditou, tamo de volta
- hahahahahahaha – a rua é nóis 
Zona Norte, Jardim Fontalis, Lauzane, Cachoeira, Vila Zilda...)

Então segura que é Rap nacional! Sai da frente que isso é Rap nacional!

Pele preta, tarja preta, na sarjeta da história
Beretas a mão, sem brasão, sem memória
Sem milhão, só porão, só grilhão, óh escória
Favelas, hard core, nas telas, Val Marchiori

Olhe, esse jornais, a 2 mil anos atrás
Gritaram: solta Barrabás
Tornaram crime, nosso Deus, nosso Jazz
De notas livres, cê sabe o que isso faz

Foi repressão sobre repressão, sobra a depressão
Sobe a inflação, cabe ao são, inflamar a nação
Informar a ação que monetiza a fé
Porongos foi Canudos, foi Carandiru, foi Racionais na Sé

Sou Clementina, Skelé, Palestina, axé
Na esquina um Zé e... Pantera Negra Tupi
Não pra TV (não), pro CV (jão), mil grau
Tipo Lampião (então) banditismo social

Isso é um campo minado, morô?
Tem que ser loko pra seguir de pé
Se quiser arriscar, demorô
ta no seu nome ladrão, vai na fé
O barato ta doido e tem mais
Ninguém confia em ninguém
Querem tornar sua mente alcatraz
Ou febem
(descreditar … ã, ã! ...)

Relaxa, o discurso acha, rumo nas caixa
É Gaza a faixa, onde balas não são de borracha
Vidas em baixa, avenidas em marcha, é
Tua causa encaixa, mas não vê mortos da maré

Tem cor de graxa o desprezo por quem vive à
Mercê das praxe a la presos na Bolívia
Refém das taxa, vacina é tua, livre-a
'Té crença racha, se fecha junto a Bíblia

(AH!) Dor do canto embala, banto, senzala
Sem pala, tanto que fala, pra ala
O cântico estrala, a luta de João Cândido exala
Liberdade, ao contrário no que o povo inala

(AH!) Nota agora, sequela, não gela
O nó na goela, revela
Tua rota mata, a nossa salva, sem cela
De um mundo que semeia Beira-mar pra colher Dráuzio Varela

Isso é um campo minado, morô
Tem que ser loko pra seguir de pé
Se quiser arriscar demorô
ta no seu nome ladrão, vai na fé
O barato ta doido e tem mais
Ninguém confia em ninguém
Querem tornar sua mente alcatraz
Ou febem
(descreditar … ã, ã! …)

Então segura que é Rap nacional
Sai da frente que isso é Rap nacional!”

E não é por acaso que o sample que o DJ Mr Brown utiliza para fazer seus scrats é um fragmento com a voz de Mano Brown, extraído de Vida Loka I, a mesma canção que parece conter o estopim que dinamitou a rigidez da quadratura do rap 

Rashid, tal como Emicida, teve seu nome projetado dentro da cena do hip-hop por seu bom desempenho nas batalhas de MC's. É um dos poucos que possui o Galo de Ouro (título dado somente aos MC's que várias batalhas seguidas na Rinha dos MC's – coordenada pelo DJ Dandan e Criolo). Em 2010 o jovem MC lançou o EP “Hora de Acordar”, que abriu o caminho para as mixtapes “Dádiva e Dívida”, “Que Assim Seja” e “Confundindo Sábios”, respectivamente em 2011, 2012 e 2013. De sua última mixtape é que extraímos o exemplo que escutamos alí em cima, e que dá nome à nova tur que estreiou no SESC Belenzinho nesta quinta.

O nome do disco, e a inspiração para o rap homônimo, vem de uma passagem que Rashid se lembra de ter ouvido quando criança durante uma missa. Sobre a parceria, Rashid fala à Revista Fórum: “Fizemos essa música realmente juntos, cada rima, e entramos no estúdio com o objetivo de confundir quem estiver ouvindo, já que não existe uma parte de cada um na música, rimamos juntos o que acreditamos e o que observamos com a força que o rap nos dá”.

A letra, como eu a articulei em estrofes alí em cima, tem a mesma estrutura de vários rap's que se fazem hoje. O “Duas de Cinco” do Criolo, que eu já comentei por aqui, é um bom por exemplo. Percebam que as 3 primeiras estrofes destes dois raps repetem o beat na tonalidade da música, e a 4ª estrofe aparece como a modulação que cadencia o final da primeira parte do rap. Isso se dá da mesma maneira nas duas seções. Cada estrofe é formada por dois dísticos, ou seja, é uma quadra, o que coincide com a quadratura (ciclo de 4 compassos) musical. Dentro desta quadra a rima pode continuar a mesma (a, a, a, a) ou variar em (a, a, b, b). Existem raps que são mais “quadrados” e a rima acontece basicamente só no final destes dísticos, mas uma das vertentes que mais tem ganhado destaque é a que explora de maneira estratégica as rimas internas (mesmo os que exploram um flow mais pesado – quadrado – costumam se utilizar também da flexibilidade ritmica que as rimas internas proporcionam, porém de maneira mais moderada).

“ Pele preta, tarja preta, na sarjeta da história
Beretas a mão, sem brasão, sem memória
Sem milhão, só pórão, só grilhão, óh escória
Favelas, hard core, nas telas, Val Marchiori...”

Se imaginarmos a letra inteira colorida, podemos ter uma dimensão dos complexos jogos de rima que aparecem nesta obra (o que não é exclusividade só dete som!). O estilo do Emicida e do Rashid desenvolvem muitas das inovações de flow que tornou o Mano Brown uma referência tão importante. E não é por acaso que o sample que o DJ Mr Brown utiliza para fazer seus scrats é um fragmento com a voz de Mano Brown, extraído de Vida Loka I, a mesma canção que parece conter o estopim que dinamitou a rigidez da quadratura do rap por aqui: “tocou a campainha, plim, pra tramá meu fim, dois maluco armado sim, um isqueiro e um estopim”.

A musicalidade destes novos MC's é, provavelmente, o conteúdo mais contundente de suas obras.

Bem, como se não bastasse essa complexidade de sonoridade, o canto é dividido de modo a confundir a escuta e não conseguirmos identificar exatamente quem canta o quê. Isso é um aspécto ainda pouco explorado no universo do rap, onde as parcerias entre os MC's costumam ser divididas de maneira mais clara, onde fica inclusive marcado as diferentes perspectivas de cada um sobre um mesmo tema. Aqui não ocorre isso. As vozes se misturam como se fossem um único MC.

_Tá, você falou do flow, mas e o conteúdo, Jão!?
_Calma, já chego lá.

Não considero forma e conteúdo duas instâncias separadas. A musicalidade destes novos MC's é, provavelmente, o conteúdo mais contundente de suas obras. É chover no molhado – principalmente depois do texto do Walter Garcia “Ouvindo Racionais” – dizer que a força que o discurso do Mano Brown possui se dá justamente por um equilíbrio fabuloso entre “o que está sendo dito” e o “como está sendo dito”. Então, só para clarear mais um detalhe sobre a musicalidade que envolve o trabalho do MC (por que, é claro, tudo também depende do DJ e do Beatmaker – que podem ser a mesma pessoa ou não), é importante perceber o tamanho dos versos. A irregularidade das métricas é outro fator de diversidade musical. Se temos um verso curto, por exemplo, é muito possível que tenhamos um tempo forte vazio, e se temos um verso longo, é bem possível que o caráter mais passional (emotivo) seja evocado por conta da respiração que exige um fôlego maior e tende também a agrupar o verso seguinte. Resumindo, a flexibilidade rítmica é um dos fatores que compõe isto que se chama de flow.

Certo, isso tudo não é invenção de uma só pessoa, e por mais que o trabalho dos Racionais seja um monumento sobre o qual devemos nos debruçar para entender esta arte que toma conta das ruas, e compreender as próprias ruas, estas técnicas e dicções são muito difíceis de se rastrear a origem. O fato é que para a geração do Rashid e do Emicida (que é um pouco mais velho) o trabalho dos Racionais é quase uma cartilha que os MC's tem que cumprir e respeitar. E nessa cartilha existem lições sobre música e sobre sociedade. E é daí que a perspectiva do tema de “Confundindo Sábios” tira seu substrato mais básico.

Então, qual o conteúdo extra-musical, ou melhor, qual o conteúdo social que “Confundindo os Sábios” traz? Bem, o hip hop como um todo baseia-se na proposta de dar voz à realidade da periferia. Ou, em outras palavras, o hip-hop se propõe elaborar um discurso que retrate a situação do excluído, daquele que não tem lugar ao sol no projeto urbano das grandes cidades. Do negro, essa cor tão mutável na sociedade brasileira. Nesse sentido, versar sobre a exclusão racial e social que divide o país é o assunto central de 90% dos raps que se engajam no hip-hop. Com nosso exemplo – à despeito da crítica rasa que ataca este novos MC's como “rap modinha” – acontece o mesmo.

A perspectiva do “banditismo social” que a letra se refere é um mote recorrente dentro dessa conjuntura que apontamos. Desde, pelo menos, Dimas – figura evocada por Mano Brown como o primeiro Vida Loka da história – aquele crucificado ao lado de Jesus, que se tornou santo católico depois de sua redenção. Ficar esmiuçando todas as referências históricas que a letra faz menção não é tão frutífero neste momento. Mas é importante lembrar que ao pronunciar nomes como João Cândido ou Barrabás, por exemplo, os autores instigam seu público – em sua maioria jovens – a buscar informações sobre estes personagens históricos, o que funciona como uma importante estratégia de educação social – tanto para a periferia quanto para a classe média que se orienta à esquerda.

Neste ponto o rap nacional é completamente explícito em sua proposta: ao jovem da periferia resta a guerrilha, que pode ser no crime ou no hip-hop. “O nó na goela, revela/ tua rota mata, a nossa salva, sem cela”. Assim, não há exagero algum ao dizer que o rap salva vidas, tanto em sua atuação mais de base (com figuras como o Nocivo Shomom, por exemplo) quanto na atuação com um público mais amplo (como é o caso do Rashid e do Emicida). 


Não é pouca coisa o fato do Mano Brown participar do DVD Criolo e Emicida Ao Vivo (que teve a direção da Paula Lavigne, só pra frisar). Neste encontro de gerações e perspectivas do hip-hop o Brown aparece com um boné que, ano passado passou pela cabeça de Spike Lee, por exemplo, escrito “A rua é Nóiz”.

O ruído pode ser pensado como aquele evento que acontece fora de um círculo de convenções tidas como corretas. Italianos, por exemplo, tendem a falar mais alto que japoneses, mas são brancos. Sabem que em um templo de compras não devem entrar em bando cantando suas canções de festa. Afinal, um templo não é lugar de dança que mexa com o hemisfério sul do corpo. Quando alguns negros entram em bando nesse templo cantando essas músicas dadas às partes de baixo, provocam um ruído. Ruído se diz “noise” em inglês. E por ter uma natureza de encruzilhada, de campo de batalha, de espaço compartilhado, é que a rua é noise.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Nocivo Shomon: na polifonia da revolução

por João de Carvalho


No sábado do dia 7 de dezembro, será realizado o 3º Londrina RAPFest. Este evento vem quase como um contrapeso do que foi o show do Criolo em Londrina. Apesar de inesquecível – o show do Criolo é realmente de tirar o fôlego – este evento amargou uma certa “incoerência” ao cobrar 50 reais (com área vip por 80!!!) em um show de rap.

Neste show, DJ Dandan levou um papo com a plateia (heterogênea!) lembrando que já estivera em Londrina há 15 anos atrás, ministrando uma oficina de hip-hop. Ainda agradeceu a plateia, divulgou a banquinha de produtos do grupo (um dado importante deste novo panorama de produção cultural), e concluiu dizendo que era a comunidade quem era responsável pelo rap local. Frisando, enfim, a necessidade do apoio à cena do hip-hop da cidade.

O argumento central deste texto é enfatizar, a todos aqueles que foram no show do Criolo, a importância de se ir ao evento que irá ocorrer neste sábado.

Fato é que o povo da “A Firma Ativa” - que tem o Thales UZI, um dos articuladores mais importantes da cena do rap londrinense - está realizando um evento com até mais atrações (e com mais de artistas locais!) só por 15 reais. O evento promete ser uma celebração “mais de raiz”. Em outras palavras, muito mais hip-hop, menos classe média. É o que promete, tendo em vista que a principal atração deste 3º FestRap é justamente a polêmica figura de Nocivo Shomon.

O argumento central deste texto é enfatizar, a todos aqueles que foram no show do Criolo, a importância de se ir ao evento que irá ocorrer neste sábado. Para isso, penso que seria legal começar sondando o conceito de polifonia de Bakhtin, e como este princípio está presente na cultura hip-hop. E, sem desejar fomentar as desavenças do movimento, quero me valer do exemplo do conflito entre os rap's “Ooorra” e “A Rua é Quem?”, respectivamente do Emicida e do Nocivo Shomon, para evidenciar a complexidade deste ice-berg com o qual o Titanic da classe média colidiu.

Polifonia – (se estiver sem tempo, pula essa parte, outra hora vc volta e lê)


Ao se debruçar sobre a obra de Dostoiévski, Mikhail Bakhtin acaba elaborando o conceito de polifonia aplicada ao gênero de romance criado por seu conterrâneo. Bakhtin percebe que nos romances de Dostoiévski os personagens possuem vozes discordantes e contraditórias. No romance polifônico existem no mínimo dois heróis (PIRES, 2010. pg.70), que lutam por pontos de vista e juízos de valor distintos.

O gênero polifônico se contrapõe ao monofônico (onde uma voz domina as outras vozes) e retrata os conflitos dos embates sociais, sempre de maneira dialógica. Segundo Schnaideman (2005, p. 15), no pensamento de Bakhtin, a importância da multiplicidade de vozes é uma afirmação democrática e antiautoritária.

A polifonia, e toda a noção de dialogismo, funciona no rap de maneira profundamente ligada à sua perspectiva política. Assumir as contradições, as múltiplas vozes e múltiplos pontos de vista, é uma postura de grande coerência ideológica e estética dos artistas do movimento hip-hop.

Muitas das ideias de Bakthin já foram utilizadas para explicar e analisar a cultura hip hop. Dialogismo, intertextualidade, interdiscurssividade e polifonia são conceitos corriqueiros na literatura que busca dar luz a esta linguagem de resistência cultural das ruas. Nas palavras de Rociclei Silva (2011, p. 52), “O hip hop se caracteriza por sua diversidade de vozes e linguagens que se chocam constituindo uma verdadeira arena de conflitos, mas que nenhuma se sobrepõe à outra.”.

O grafite, o break e o rap são as principais frentes de combate artísticas do movimento. Mas não podemos esquecer que o movimento também abrange a moda, as gírias, o gestual corporal e, mais recentemente, a criação de uma literatura (escrita) local, a militância e organização em espaços virtuais (através de blog's, sites, e canais de distribuição de música), a criação de experiências em vídeo (não só através da ocupação de “espaços públicos” de informação, com programas em grandes emissoras como a TV Cultura e a MTV, mas também através da produção independente de video-clipes e “vídeos documentários” sobre a movimentação da cena) e a organização dos sempre tradicionais bailes de rap, onde os agentes produtores dessa cultura são ao mesmo tempo público e artistas.

Só o rap já possui em si duas frentes interdependentes de atuação que, como o próprio nome já faz referência, se relacionam aos aspectos rítmicos e poéticos do discurso dessa linguagem cancional. Em outras palavras, temos nas funções de DJ (o tocador de discos) e MC (o mestre de cerimônias) um constante diálogo em que os atores desenvolvem não uma única ideia, mas suas várias ideias, associações e pontos de vista sobre determinado tema.

É muito comum existirem coletivos de rap, grupos compostos por dois ou mais MC's, que dividem a batida para exporem seus relatos. Os Racionais MC's, por exemplo, que constituem o grupo de maior e mais duradoura visibilidade do cenário do rap nacional, é composto por Mano Brown, Ice Blue e Edy Rock nos vocais e KL Jay responsável pelos toca discos. Isso, associado à uma postura frente às mídias, à imprensa e ao público, dilui a ideia de super star ou de ícone pop, ao contrário, torna horizontal a relação de poder e valor de cada um dos membros.

A polifonia, e toda a noção de dialogismo, funciona no rap de maneira profundamente ligada à sua perspectiva política. Assumir as contradições, as múltiplas vozes e múltiplos pontos de vista, é uma postura de grande coerência ideológica e estética dos artistas do movimento hip-hop.

As Vozes

Como eu disse antes, minha mais sincera intenção não é aumentar o clima de “treta” dentro do hip-hop, mas, partir de uma reflexão atenta sobre um dos conflitos de maior evidência dentro do movimento. Resumidamente, pra quem está chegando agora neste debate, existe uma forte resistência à “popularização” (talvez devêssemos chamar de “classemediatização”) do rap atual. Esta resistência vem principalmente dos produtores (MC's e DJ) do rap undergroaund, mas não só, é comum também vermos esta mesma postura em acadêmicos estudiosos – ou simplesmente apreciadores – do rap. Para quem já estava envolvido com o hip-hop desde antes destes 5 ou 6 últimos anos, esta nova onda do rap parece só mais um modismo, que desvirtua a natureza combativa e de contracultura proposta pelo movimento. Existe até um apelido pejorativo dado a esta “nova cara” do movimento: “rap modinha”.



Talvez o exemplo mais bem acabado que este conflito gerou esteja na “treta” entre o Emicida e o Nocivo Shomon. Não cabe aqui empreender uma busca para averiguar quem começou desrespeitando quem – até mesmo porque os insultos são básicos dentro dos conflitos de freestyle, do qual ambos participaram diversas vezes. Esta querela lembra em muito a que aconteceu entre Wilson Batista e Noel Rosa, onde Wilson era o “ideal de malandro” e Noel era um branquinho estudante de medicina. Até mesmo a fase de afirmação nacional que o samba vivia durante aquele período é comparável à atual fase do rap, que vem – definitivamente – se consolidando dentro da tradição da canção brasileira. Assim como o sambista, na época de Noel, sabia que estava lidando com um monumento cultural de extremo valor, e que, não sendo invenção sua, ele deveria ter responsabilidade por esta cultura que floresceu à margem da sociedade, o rapper de hoje sabe o legado que as primeiras gerações do hip-hop nacional lutaram para construir, e pesa sob seus passos a tensão de qual caminho seguir.

Mas qual seria exatamente esta crítica feita ao “rap modinha”?

É importante que pensemos as canções escolhidas para esta breve análise, como prismas pelo qual vislumbraremos a polifonia do hip-hop. Um raio-X – localizado – do movimento. E, em virtude deste objetivo, é fundamental comentarmos também sobre outras obras e outros artistas.

Bem, o Emicida lançou em 2009 sua primeira mixtape intitulada “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe...”. A última faixa deste trabalho é a canção – já disse em post anterior que pra mim rap é canção - “Ooorra...”, em que o MC se defende de ataques que sofria. Este rap não é uma “diss”, como é chamada uma obra de discórdia e afronta endereçada à um artista ou grupo de pessoas em específico. Ou seja, por mais que tenhamos a tentação de escutar este rap como sendo endereçado ao Nocivo Shomon, que explicitamente a rebateu com “A rua é quem?”, devemos ter em mente que se trata de uma obra de afirmação do artista frente à um padrão de críticas que ele vinha – e vem – sofrendo.

Mas qual seria exatamente esta crítica feita ao “rap modinha”? Tudo começa com a afirmação que a turma do Emicida (com o Projota, Kamau, Rashid e outros) tomaram para si como slogan: “a rua é nóis”. Existem muitas culturas dentro do hip-hop. Só para citar um exemplo significativo desta “divisão”, existe o grafite – que já vem sendo legitimado, dentre o restante da sociedade, como uma importante manifestação artística – mas existe também a pichação – que ainda é vista como puro vandalismo. É a polifonia do movimento. É isso que faz com que ele não se cristalize. Bem, voltando às críticas ao “rap modinha”, existem ataques de ordem pessoal que pretendem deslegitimar os artistas mencionados como justos representantes da voz da periferia.



É neste sentido que o texto do Emicida será desenvolvido, buscando legitimar sua integração dentro da realidade da periferia, demonstrar quais os motivos que unem seu grupo (sua panela, segundo os que criticam), e ainda – principalmente – argumentar contra a clássica afronta do “se vendeu”. O primeiro fato que Emicida se reporta para legitimar sua voz como representante de um contexto socialmente carente é sua história familiar, em que seu pai morreu quando ele ainda era criança, em decorrência do alcoolismo. Esse fato aparece também em outras canções, como por exemplo em “Crisântemo”, uma verdadeira obra prima que merece um post só para analisá-la. A primeira estrofe é dedicada somente a este fato, e Emicida o utiliza como um aceno para chamar a atenção dos “muleques” que não respeitam os pais:

“Vendo os muleques ai, com pai mãe do lado e nem respeita
Deviam ser por um dia o que eu sou a vinte anos
Pra ve se 'cêis ia' tá na de trocar os coroa pelos manos”

Somente ao final da obra é que surgem os versos que parecem endereçados ao Nocivo Shomon:

“E o justo, então antes de criticar quem 'cê' vê trampar
Cala boca e pensa, quantas história 'cê' tem pra contar
Falar que ao dizer ''a rua é nóiz'' pago de dono da rua
Desculpa, eu vivo isso e a incerteza é sua
Se você não se sente dono dela, xiu não fode!
E antes de escrever um rap, me liga e pergunta se pode.”

Utilizando um pensamento do José Miguel Wisnik, eu diria que o Nocivo é mais cívico, enquanto o Emicida é mais malandro.

Vamos deixar um pouco o exemplo do Emicida e escutar “A Rua é Quem”, do Nocivo, que está presente em seu primeiro disco intitulado “Assim que eu sigo”, lançada também em 2009. Diferente da “estratégia” do Emicida, de contar sua história para legitimar sua atuação dentro do rap, Shomon parte para a ofensiva. Com uma rápida passagem pela sua vida privada, citando suas filhas, Nocivo se apoia muito mais em criticar a postura do outro rapper do que de construir uma “defesa” sua.



São muitas frases de efeito. Muito do clima de disputa de MC's, o lance de ridicularizar o adversário com tiradas e ofensas, está presente em A Rua é Quem. A crítica mais constante, que aparece sob várias formas durante a letra, é a de que Emicida mente sobre sua vida, e que as histórias são falsas para agradar e vender. Chega a ser engraçado para quem é de fora do rap ver uma questão dessa sendo tratada com tanta paixão, isso porque a poesia é livre para forjar a realidade que quiser. Pessoa já dizia que o poeta é um fingidor, e o Leminsk dizia que o primeiro personagem que um escritor cria é ele mesmo. Mas, dentro do hip-hop, esta coerência entre o dizer e o fazer é algo importante sim, e não devemos de forma alguma menosprezar este fato.

Acontece que muito mais revelador do que as letras, pra mim, é o próprio som. Enquanto a base do Emicida tem um balanço mais leve, ocasionado pelo ataque do grave (da bateria eletrônica) no contra do segundo tempo, a base do Nocivo é mais reta, mais pesada, pois cai sempre nos tempos fortes. Isso é um dado que parece muito sutil mas que na verdade determina muito do caráter geral que estas duas canções assumem. A poética do Nocivo é sempre mais direta, mais agressiva, mais máscula, enquanto a do Emicida é mais sutil, mais feminina. Utilizando um pensamento do José Miguel Wisnik, eu diria que o Nocivo é mais cívico, enquanto o Emicida é mais malandro.

Nocivo está cada vez mais engajado dentro do espaço que ele reivindicou – fora da grande mídia – e Emicida está com um poder de abrir fronteiras cada vez mais sólido.

Isso está presente também no “flow” de cada um. Os versos do Emicida são bem mais assimétricos, o que lhe garante uma maior variedade de fraseado e uma proximidade maior com a fala, enquanto o Nocivo constrói uma estrutura poética feita basicamente de dísticos razoávelmente simétricos. Em termos da Semiótica da Canção, poderíamos dizer que o Emicida preza pela figurativização enquanto o Nocivo pela tematização, ou seja, o Emicida parece realmente estar falando de si e o Shomon enumerando os problemas do adverssário.

Por um lado o “beat” do Emicida tem mais variação de textura – no refrão entra uma guitarra, que muda consideravelmente a atmosfera – garantindo-lhe uma maior variedade sonora, por outro, o som do Shomom é muito mais monótono – até o groove que ele recortou para fazer de base só tem um acorde, de Mi menor, que não se altera até o final do refrão. Acontece que dentro dessa monotonia que o Shomon cria, o final se torna surpreendente. O fragmento que se repete como base é libertado de seu ciclo maquínico no final da música – nos 5:05 – e coincide com o final da frase “ser fudido não é orgulho pra ninguém não, mano, orgulho é nóis sair da lama, vamo evoluir, vamo pensar grande, porque enquanto nóis pensar pequeno nóis não vai conquistar nada de grandioso...”.

Vale desvendar um pouco ainda o flow do Nocivo. Reparem que durante a primeira estrofe sempre rolam rimas nos finais de duas em duas frases. Mas acontece uma rima de aproveitamento antes de se passar para o próximo dístico. Acontece um esquema mais ou menos assim:

----------a
----------a
----a-----b
-----------b
----b-----c
----------c
----c-----d
----------d
(e assim por diante)

Vejam:

“A verdade tá de volta e idiota não vai conter
Bico que se abala é uma bala pra quem se cala bater
Não vim aqui dizer o que a massa deseja ouvir
Vim pra fazer império de pela saco cair
E ver os rato fugir e abandonar o navio
Cansei de festa lotada pra ouvir rap vazio
Meu desafio não é competição de MC
É lutar a cada dia pra ver minhas filha sorrir
Na sede de demolir canta rima repetida
Tu conta muita história pra quem tem tão pouca vida
Sempre a mesma que ideia que só você sofreu
Eu lutei muito pelo rap pra tu dizer que ele é teu
Aí fudeu, os clone no microfone é foda
No palco manda mentira os puto grita e vira moda
Uns cantam por amor outros só pra fazer nome
Treta é botar muleque pra fazer papel de homem
Inevitável travar guerra nessa terra de ateus
Pra calar falso profeta que pensa que virou Deus
Mando o barulho do bagulho eu também sei
Menino tu não é do morro e nunca vai virar rei
Cuidado com o que escreve, deve ter mais cautela
Grita que é da rua, nunca será a favela
Nocivo atropela martela os pela que amarela na cena
Teu cache é pesado mas teu rap é peso pena.”

Bem, as duas canções são bem interessantes. A do Emicida tem a vantagem de conseguir viver sem a do Nocivo, mas nem por isso a deste é inferior. Devemos lembrar, ainda, que estas obras foram compostas em 2009, e muita água rolou de lá pra cá, inclusive outros sons e clipes de troca de críticas. A postura de ambos artistas se tornou mais madura, e a crítica mutua fez o nível de auto exigência (já que um está pouco se fudendo pro outro) se elevar. Nocivo está cada vez mais engajado dentro do espaço que ele reivindicou – fora da grande mídia – e Emicida está com um poder de abrir fronteiras cada vez mais sólido.


O papel da geração mais velha foi – e está sendo – fundamental para clarear as relações ambíguas do movimento. A participação do Mano Brow no show do Criolo e do Emicida ao vivo e a participação do Edy Rock no Caldeirão do Huck não são pouca coisa, e fizeram muitos repensarem seus preconceitos e perceberem o momento estratégico que o hip-hop vive. O diálogo com os meios de produção mais comerciais elevaram muito a qualidade da produção dos novos trabalhos, e isso é um dos maiores trunfos desta caminhada. A ampliação de público não deve ser entendida somente como “estamos juntando um din”, mas como estamos levando a consciência que desenvolvemos nas quebradas para o centro da cidade! Para mim parece muito sintomático que as passeatas que ocorreram este ano – onde a maior parte eram estudantes da classe média – tenha tido se utilizado de palavras de ideias que estavam presentes no discurso do Criolo na praça Rosveld. Sobre isso eu já escrevi aqui.

A acusação de que o trabalho dos novos MC's está ficando sem conteúdo não procede. Existem muitos conteúdos. E o trabalho de MC's como Kamau e Emicida possui uma enorme importância pois aponta novos rumos para o movimento. Agora, novos rumos é uma expressão complicada, pois não quer dizer de forma alguma que todos devam seguir este caminho, ou que este é o melhor caminho. Quero dizer, com esta expressão, que são caminhos que ainda não foram devidamente trilhados, enquanto o trabalho de base, mais próximo das indignações da periferia, este já tem sido feito desde muito tempo.

Pra mim – e de novo quero frisar que é uma opinião de alguém que chegou não faz muito tempo dentro deste repertório – o grande lance do hip-hop é essa possibilidade de coexistência destas perspectivas. Qualquer uma das duas levadas ao extremo, apagando a voz da outra, é problemática. A perspectiva do Shomon é problemática pois não estabelece um diálogo com o que está além dos muros do preconceito, tornando o gueto cada vez mais gueto, onde o ideal – aqui creio que todos concordariam – seria que não houvesse mais essa divisão (pra não falar guerra) de classes. (“Desigualdade traz tristeza”, Criolo). Já a perspectiva do Emicida é problemática pois facilmente se cai em um mar de ilusões de egos inflados (“Prest'enção que o sucesso em excesso é cão”, Mano Brow), e em uma perigosa confiança na “fé de vencer”.

Por sorte essa rixa que aconteceu parece ter vacinado tanto o Emicida quanto o Shomon. No último trabalho do Emicida ele problematiza esta questão da falsidade que é a vida de shows (em Hoje Cedo), enquanto lemos no facebook (29/11/2013) o Nocivo Shomon dizer:

“e outra fita;por eu criticar as ideias do emicida num som não tira o que ele tambem fez e faz de bom pela cultura em geral,depois dele que uma pa de muleque aprendeu como ser sua própria produtora,a criar suas capinhas de cd a mão e acreditar na música,muito mano conheceu primeiro os free dele pra depois conhecer o rap em geral,e eu criticar as ideias de alguem é diferente de dizer que esse alguém não tem sua importancia,e queira ou não o maluco é bom nos free e tem talento e vontade e ta correndo coisa que muitos ae nunca fizeram que é trampar,eu não gostar da música dele ou das ideias é outra fita,então não tire suas conclusões sem ouvir da minha boca,sou maduro e sei a importancia do papel de cada um!!!!!!critiquei e critico pra ver melhoras na nossa cultura,não critiquei por criticar ou por ódio!!!!!!!!”


Bem, agora falta essa consciência chegar ao público, que, de um modo geral, ainda está alimentando essa rivalidade pelo que ela tem de ruim para o movimento. Mas espero que seja uma questão de tempo, pois seria uma injustiça muito grande para com o talento do Nocivo sempre colocá-lo como o rival do Emicida, além de representar um enfraquecimento do sentimento de coletividade tão caro à revolução que o hip-hop almeja.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um papo com Siba

João de Carvalho

"... não existe vida sem a morte."

No dia 26 de outubro tive a oportunidade de fazer uma pequena entrevista com o Siba, em sua passagem por Londrina. Foi a primeira vez que me atrevi a "entrevistar" alguém, então não esperem um desempenho lá grandes coisas. Assistindo ao vídeo que fizemos, percebi que minha ansiedade em comunicar um monte de ideias, somado ao fato do natural constrangimento frente à câmera (e ao Siba), e o angustiante grave que vinha da passagem de som, me deixaram cômico. Mas blz. Eu supero.

Devo agradecer à Patrícia Zanin (da rádio UEL FM) por ter agendado nosso papo. No dia do show, mais precisamente durante a passagem de som no teatro, Siba concedeu uma série de entrevistas. Foram 3 antes de nos atender, e em cada uma ele foi deixando a marca de seu raciocínio claro e profundo. Nestes papos que precederam nosso papo, Siba esclareceu sua relação com a cultura popular, dizendo-se ((com as minhas palavras)) muito mais um agraciado do que um agraciador. Ainda deu uma aula sobre suas referências de guitarra, de Hendrix a Franco (guitarrista congolês), e esclareceu o que é turnê e o que são shows estratégicos de ampliação de público, passando na prova dos nove da humildade.

"... a não ser nessa vidinha, classe média, confortável, que a gente leva achando que tá livre de tudo, quando na verdade, ela tá aí, ó, a morte tá sempre presente mesmo sem a gente ver, acho essa consciência muito importante..."

E para quem está chegando por agora no repertório desse pernambucano (seja bem vind@! ), eu recomendo assistir ao teaser do documentário Nos Balés da Tormenta. Tem também o Fuloresta do Samba, que é de lei. Seria legal também ler o texto que o próprio Siba redigiu apresentando o novo trabalho. Vale a pena fazer isso, mas dá pra continuar lendo... ;)

Enfim, chegou a hora do nosso papo. Eu tentei fazer algumas perguntas, todas meio confusas, talvez você tenha que assistir mais de uma vez pra entender o que eu estava pensando, e não é culpa sua... mas, é o que tem pra hj. O Siba foi super compreensivo e deu umas respostas massas pra caramba! Por isso vale assistir ao vídeo, pois entramos em alguns assuntos que normalmente não podemos desenvolver em conversas rápidas. Neste vídeo-documento você pode conferir Siba tecendo algumas reflexões sobre a vida e a morte, sobre o sagrado, sobre o artesanato cancional, sobre muita coisa... 

E ao fim do vídeo vocês podem conferir meu momento fã. Tomei coragem e toquei a versão que fiz de Qasida. Uma singela homenagem que tem muito a ver com o rumo que as perguntas tomaram. De fato, muito da interpretação que tenho sobre a obra do Siba está relacionada com um projeção que faço, amplamente apoiada no repertório que montei para dar aula de História da Canção (que ministrei este ano no Festival de Música de Londrina).


vídeo entrevista


Clicaqui, e assista agora o vídeo que o Mioto fez especialmente para nosso blog! Valeu mesmo, meu mano! E valeu também ao Alexandre Ficagna e ao Fagner Bruno, respectivamente pelo som e câmera... todo mundo com a mais pura camaradagem! Massa mesmo, gente!

A verdade é que fiquei com vontade de proseá muito mais... Faltou refinar mais sobre como Siba fez a aproximação com a música congolesa e afegã, por exemplo. Algumas das coisas que percebo como paralelo com a música árabe - de um modo bem geral - é a utilização de longas seções instrumentais, as mudanças de andamento e o uso de compassos com métrica alternada. E, como paralelo com a música do congo, eu poderia lembrar da utilização da marimba (ele mesmo disse em algum lugar, a marimba entraria na banda para remeter ao som da Kalimba) - Mulatu Atatke toca marimba - e do uso constante da dobra de sexta nos solos de guitarra (no começo eu achava que isto se remetia mais à uma inversão das terças caipiras das violas) e do suingue sincopado dos acordes nas cordas mais agudas. Gostaria de perguntar também, sobre como foi o processo de busca pela sonoridade do disco, a utilização de tuba e marimba em meio às guitarras dele e de Catatau. Mas, tudo isso fica pra próxima... ou eu organizo melhor e faço por e-mail... mas tá, isso é outro papo.

Espero que tenham gostado.
Até!

ps.: tem um vídeo que eu recomendo...


Este vídeo é muito legal, e apresenta cenas do ensaio da banda que veio à Londrina. Serve como amostra do show que vem sofrendo mutações desde seu nascimento. Lembro que eu me toquei do tamanho da delicadeza de Bravura e Brilho durante o show... percebam - aos 5'24" do vídeo acima - que contraponto mais inusitado que o teclado e o assovio fazem com a melodia da voz (isso junto com toda a textura que muda e fica mais em staccatto)... este timbre de assovio, a sonoridade desta seção, tem uma espessura robusta, grávida de significados! Com todo respeito, precisa de muita cera nos ouvidos para não escutar uma referência ao universo infantil nesta passagem.

Agora acabou mesmo.