sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Canções para um Paraná em greve: carnaval mais que mascarado

João de Carvalho

Professores em Curitiba. (não encontrei o crédito da foto)

Fevereiro tá quase acabando e só agora faço a primeira postagem do ano.
Antes fosse um problema de protelação só meu, mas parece-me que por aqui as coisas só começam mesmo depois do carnaval... mas na real não, elas sempre se engendram de muito antes. Mas acho que é mesmo no carnaval, quando os indivíduos trocam as fantasias, que podemos ver com mais clareza algumas máscaras caírem. Não à toa, fevereiro do ano passado pintou de laranja nossas almas quando os garis do Rio ergueram seus punhos. Mas desta vez, sintomaticamente, a mídia televisiva tem dado muito pouca importância para a greve dos servidores do Paraná, mas por aqui tá um paranauê danado!

Os professores foram os que puxaram o coro dos contrários dentro deste estado que reelegeu seu governador logo no primeiro turno. Na ocupação da ALEP conseguiram impedir que votassem o “pacotão de maldades” proposto pelo tucano. Mas não são só os professores que estão em greve, o estado inteiro está parado, já são mais de seis greves acontecendo, e na entrevista mais que maquiada dada à imprensa, o Pinóquio, dando mostra de já ter matado seu grilo faz tempo, ainda quer dizer que faltou compreensão dos funcionários... que já havia dado aumento de 60% para a classe... aaaaah! Beto Richa é o puro creme do migué, mas ainda é só o chorume que escorre de um saco de lixo no centro de nossa sala.

Bem, fui chamado para tocar na recepção dos estudantes da UEL, no que seria o primeiro dia de aula da universidade em que me formei, na qual ainda estudo, e na qual sou professor. Acordei segunda pela manhã e fui correndo pra Universidade, durante o caminho fui cantarolando o repertório que eu havia ensaiado para este dia e pensando no significado de tudo isso. Cheguei no ginásio de Educação Física, local da primeira Manifestança (como foi batizado o evento de recepção promovido pelos professores em greve), com a calça cheia de carrapicho devido ao mato alto da UEL. Os estudantes (naquele momento haviam poucos, mas concentrados e comprometidos com a energia de resistência e transformação que o momento pede) tiveram que se sentar em tecidos espalhados pelo chão, devido à sujeira que se encontra a universidade.

Acho oportuno comentar o repertório que toquei neste dia, como um registro desse vento que soa por aqui. Peço licença para comentar sobre meu próprio trabalho, sobre minhas canções, em uma atitude um pouco suspeita. Não estou buscando confetes sobre meu trabalho de cancionista, vocês podem não gostar, inclusive... normal. Minha maior intenção é ajudar a roer um pouco algumas fantasias, e quem sabe, poder rasgar um pouco mais do saco de lixo da nossa sala. Para isso vou fazer um breve comentário sobre cada uma das canções que toquei, colocar a letra, e alguma referência audiovisual. Me segue na escuta?

A primeira canção que toquei chama-se Revolver a Terra, onde cito a canção Volver à los 17, de Violeta Parra. A canção da Violeta é uma obra prima que traz a fantástica imagem de uma revolução que se enreda como uma hera no muro, um musguinho na pedra! Eu cheguei na UEL quando tinha 17 anos, e cantar essa canção para jovens que acabam de sair do Ensino Médio foi altamente simbólico. Foi mágico, como diria o Morin. Não tenho gravação da minha canção, mas vocês estarão melhor acompanhados com a Violeta...

Revolver a Terra (J.C.)
o sêmen, a semente, a terra, fecundam o tempo
a noite, sob o solo da lua a luz vai cantando
húmus humanos, putrefos hermanos
hera herbarium no muro
musguinho pedra caminho
minhoca cavuca o chão

voltar aos 17, depois de viver um século,
é como decifrar signos, sem ser sábio competente
voltar a ser simplesmente, tão sábio como um segundo
voltar a sentir prufundo, como um ninhõ frente a deus
isso é o que sinto, nesse instante profundo

se vá enredando, enredando, como no muro a hera
e vá brotando, brotando, como o musguinho na pedra
como um musguinho na pedra, ai sim, sim, sim!”

são sempre sorrateiras as vidas que eclodem nos cantos
os ratos, as baratas, as lesmas, formigam o tempo
húmus humanos, putrefos hermanos
hera herbarium no muro
musguinho pedra caminho
minhoca cavuca o chão



A segunda canção que cantei foi uma que chamo de Vai o Vil. Se trata de mais uma releitura/diálogo, dessa vez com a canção andina El Condor Passa. A obra original, da qual aproveito a melodia, trata dos incas trabalhadores escravos na mineração do Peru. Eu escrevi um poema, que depois se adequou à melodia andina, ao ver, na época da mobilização sobre a construção da usina de Belo Monte, a imagem de um índiozinho Guarani-Kaiowá chorando. No fundo o clamor final, “não é seu filho quem chora”, tem o mesmo germe do conflito que se instala agora aqui no PR. É claro que a tal austeridade pesa muito mais nas costas do trabalhador comum do que no cotidiano da casta palaciana de nosso estado. Também não possuo gravação desta canção, então deixo vocês com a letra que cantei e com o áudio da versão de Paul Simon para o tema, também uma recriação livre.

Vai o Vil (J.C.)
vai o vil
metal matar
encher o rio
liquidar a vida aflita
nos olhos dos outros
é refresco
a partida, afinal
não é seu filho quem grita,
nem aos seus, o que é sagrado
não é seu deus que agora morre
afogado.



A terceira obra que apresentei foi uma recriação de duas canções, o negro spiritual No More Auction Block For Me e o 'hino' Blowing the Wind, de Bob Dylan. Já durante as manifestações de junho de 2013 eu havia comentado sobre estas canções aqui noblog.

Não Mais
Não mais leilão de mim, não mais, nunca mais
não mais leilão de mim, foram tantos...

Não mais chicote do capitão do mato,
não mais acoites, foram tantos...
Não mais estala em minhas costas a dor
não mais o sal nos cortes, foram tantos...



Quantas ruas
Quantas ruas um homem tem que parar
antes que o chamem de homem?
Quantos mares as pombas devem riscar
antes que pousem e repousem?
Quantas bombas do céu devem cair
antes que matem a fome?
A resposta, meus caros,
ela vem com o vento
e faz do tempo seu invento.



Durante as manifestações que antecederam a Copa do Mundo do ano passado, passou por mim uma canção que batizei de Dragões. A imagem de São Jorge – Ogum – é evocada neste canto. Um canto para manter na memória que “a luta não é brincadeira”, e que no saco podre que escorre chorume no centro de nossa sala tem muito mais coisa do que só a excrescência de um único partido. O trecho inicial da canção, seu refrão, é uma nota de facebook do também professor da UEL, Betto De La Santa, que quando eu li já li cantando... essa tem uma gravaçãozinha caseira... escuta só:

Dragões (Betto de la Santa / João de Carvalho)
Morreu um cinegrafista
morreu um camelô
morreram operários
na copa houve luta
e nós vamos lembrar

será que o rojão partiu do lado de cá?
quem rachou a rua em partes o circo quer armar
diabo é o que separa
raiz de todo o mal
o bode, o bonde, a cabra ensanguentada do Cabral
não me iludo, a luta não é brincadeira
a morte é coisa séria e certeira
esperança não se finda quando o corpo cai no chão
mas não dá pra esperar pra ver o fim da equação
achar que é exagero
taxar de vandalismo
é chamar raso barranco esse baita desse abismo
mas não vão nos calar

bufando fogo
na ação do aço
no caminho da justiça

ô, Sâo Jorge o dragão tem
cargo público e mansão
ô, São Jorge o dragão tem tem
cassetete na mão


Depois da Copa tiveram as eleições, e o clima esquentou geral! Compus nesse período uma canção chamada “O Que lhe Serve”, e esta foi a quinta canção que toquei naquela manhã de segunda feira. No meio eu cito Maiakóvski, na versão de Augusto de Campos. No poema, o poeta russo coloca o sol em seu lugar. É um poema inspiradíssimo e inspirador, composto por um sujeito solar e sensível, comprometido com a educação dos cinco sentidos! Essa eu não tenho registro nenhum. Mas vou postar a letra... é um rap, se você arriscar ler em voz alta é capaz de ficar bom ;)

O que lhe serve? (J.C.)
sim senhora agora lá fora o sol apavora
embora a gente que caminha a qualquer hora
juba de leão que sem sol embolora
sabe que em frente ao medo, de front ao front,
afronte e enfrente, uma bica de água fresca
está sedenta pra nos beijar
a mente mente o tempo todo
raio de luz na lente acende o fogo
oásis se formam a ilusão, é, ela faz parte do jogo
a rima mina a mina e contamina a lógica
o lábio da menina linda lendo embaralha a ordem cronológica
febril, subo mais um monte, o horizonte
ideia à mil, opressor céu azul de anil
nenhuma nuvem pra aliviá, sei que vou chegar
vermelho
e o espelho me diz:
tú é um aprendiz
aprendiz de feiticeiro, faceiro, vai
lava o teu rosto na pia do banheiro
que só o sangue corando a face anima a vida
mas cuida do disfarce, acerta o look,
que tudo é fake, tudo é fase, e a opinião é só uma onda no facebook
livro das caras a coragem que ladra não morde
as pedras que rolam
vira lama, vira terra, vira flor
e não pensam na sorte.

Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.
O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.” (maiakovski)

e vem a flor fluir no ar, flagrou o flow? fugaz
a brisa entra, anoiteceu mas não esfriou,
um clã de gatos no quintal, atrás dos ratos, coisa e tal,
mas a empreitada não vingou
eu sei, e você sabe, que a solidão não cabe
num link que se clica, numa página que se abre
botar o pé na rua, dar um salve pra lua
vou na fé que descomplica, explica-me o sabre
e os perigos das vias, das vidas vadias, das vidas vazias
minhas sombrias, minhas alegrias, sei que nunca é tarde
pro sonho
que pode ser medonho ou vir sem provocar alarde
a história não tem fim, nem cabeça ou pé
só quem sonha acordado tá ligado, né?!
O olho vê a via láctea, enquanto mama um cafuné
a viagem é intergaláctica, deu insônia na geral,
bandidagem tá feliz, por um triz, passou mal
vem no vento, inventa na janela e a roupa seca no varal
mas sossega irmão, que o sono do patrão também é leve
pensamento lá na frente pra que o padrão se eleve
lua cheia no poente, o sol já vai surgir
a vida é linda mas é breve
escreve, escrevo, escriba não só grafa greve
escolhe o que escuta e grava aquilo o que lhe serve.

Essa foi a última canção que compus no ano passado, e a passagem final faz referência ao clássico poema do Augusto de Campos, Greve, onde apresento uma espécie de personagem contemporâneo, inspirado no hip-hop, que não se adéqua aos programas e leituras de uma “esquerda mais tradicional”. Acontece que o ano se iniciou como eu relatei no início deste texto, e me vi obrigado a “refazer” meu jogo de rima (greve, serve), invertendo o sentido que propus com O Que lhe Serve. O mote de Passa Reto, Beto Richa elaborei durante a primeira passeata de repúdio ao pacote proposto por Richa, aqui em Londrina, enquanto caminhava com meus filhos e escutava buzinadas de carros de luxo, no centro da cidade.

Passa Reto, Beto Richa (João de Carvalho)
É richa,
se espicha,
passa reto,
Beto Richa!

acha que o povo não se licha?
capricha
no pacote do palácio
é fácil
montar na motoca e passear relaxa, né?
se acha! tá louco!
Paraná vai parar e eu acho pouco!
cê acha? tô louco!
Paraná vai para e vai ser pouco!

É richa,
se espicha,
passa reto,
Beto Richa!

não joga a educação no lixo
que nóiz
na rua é que nem bixo
feroz
pique montado num elefante, Ganesh, né?
um flash. tá certo!
Paranauê no Paraná, eu tô esperto.
vê se se mexe! tá perto!
Paranauê no Paraná pra tá liberto.
Ei, Beto
nada agora lhe serve
a não ser a palavra greve!



Depois dessa canção (foi por causa dela que me chamaram pra tocar na recepção aos estudantes), apresentei pela primeira vez, ainda lendo a letra que eu não sabia de cor, a canção Mais que Mascarado, que comecei a esboçar durante o carnaval deste ano. E, enquanto nosso governador passeava em seu recesso, fingindo-se de morto, professores acampavam na Assembleia Legislativa do Paraná. Outro professor da UEL, Sílvio Demétrio, escreveu um texto muito lúcido sobre cavalos e governantes. Vale a pena ler aqui. A canção é inspirada na versão da Nina Simone para Sinnerman, e a gravação é provisória (desafinada e com erros de dicção, inclusive), e contou com um time composto só por grevistas (alunos e professores da UEL) para fazer um registro ainda na segunda do dia 23. Nesse sentido é uma canção de apoio à greve sim, como foi compartilhada por alguns amigos, mas não só. A questão central da escravidão vinculada à geografia das cidades não está na pauta da vez no Paraná. Nem a regulamentação da mídia. Muito menos uma reinvenção dos nossos hábitos cotidianos que são insustentáveis. Mas estão sim, dentro do saco de lixo do qual escorre o chorume da vez.

Mais que Mascarado (J. C.)

Ah pecador
cuidado com os cavalos
esses que só se movem em L
não são livres
e trabalham para o rei...

Liberta-te borboleta
desse sonhador
confuso...

A vida passa pelo vidro
comprimido do seu banco vê o show
e tudo passa tão ligeiro
passageiro quando viu trem já chegou
e tem um trecho do caminho
que a pessoa ainda tem que ir à pé
nunca é bom estar sozinho
não tem jeito a gente vai na fé
só pensa em chegar em casa
tomar banho comer algo e relaxar
mas sabe que à esta altura
relax mesmo é na cama desmontar
no outro dia a casca é dura
tem que encarar a cara feia do patrão
as distâncias da cidade
são estratégias pra esconder a escravidão.

Meu caro, o transporte é caro
caro para caralho
vampiro no motor do carro
estaca colar de alho
tranca o caminho do pobre que rala
em frete à TV no sofá da sala.

E a peregrinação continua
sangrando no rio
fervendo no mar
sei lá...

Cê sabe, a vida é uma só
cada um cuida da sua e fechô
todos dando o seu melhor
e entupindo com algo mais a sua dor
mais um dia de trabalho
e tamo num tabuleiro de xadrez
o ponteiro tá girando
e esse jogo necessita lucidez
existem possibilidades
algumas nos levam ao bem outras nem pá
mas a pergunta mais difícil
de responder é quem sou eu nesse lugar
dessas peças tão pequenas
não sou peão não o bispo e nem o rei
eu tô mais pra um palhaço
que chegou para chutar a sua lei.

Meu truta, o transporte é treta
então vou de bicicleta
nem casa e nem lambreta
esporte pique de atleta
tirando uma onda com a brisa na cara
pedala, pedala, pedala, não para.

Mas pro plano tá completo
outros dados ainda faltam na equação
ninguém sobe solitário
e o meu clã é a tormenta do dragão
desses que apavoram a lua
dos poetas que habitam a Babilon
é que no meio dos felizes
tem sempre um coro que come fora do tom
não precisa ser vidente
para ver o que irá acontecer
se você não rompe o ciclo
uma hora o ciclo rompe com você
na tenção o clima é quente
prest'enção há uma multidão ali na frente
mente descaradamente
a lente oficial e ôcê tão crente.

Mano, o transporte é um cano
apontado pra sua amada
PM tá preparada
inspirada pra dá porrada
cara cairá a máscara do
cidadão de bem mais que mascarado.



As duas últimas canções que cantei na primeira Manifestança são canções tradicionais, o que permitiu arriscarmos um coro que ficou bonito. A penúltima eu conheci com meu amigo/aluno Rafael de Barros, pois faz parte de seu espetáculo de palhaço chamado El General. Se trata de Bella Ciao, uma canção italiana cantada no mundo inteiro como um hino contra o fascismo. Na Grécia cantaram esta canção quando o SYRIZA, partido de extrema esquerda que ganhou a disputa presidencial, uma resposta ao desgoverno que tentou vir com esse papo de austeridade pra cima dos gregos. A canção, na versão que ficou conhecia durante a Segunda Guerra Mundial, conta de um guerrilheiro se despedindo de sua mulher, disposto a sacrificar a própria vida para garantir a liberdade dos seus.

Bella Ciao
Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
ed ho trovato l'invasor.

O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.

E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.

E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l'ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Mi diranno «Che bel fior!»

«È questo il fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«È questo il fiore del partigiano,
morto per la libertà!



E a pra terminar, depois deste passeio por cantos revolucionários do mundo, chamei meu mano Caetano Zaganini, do grupo Osso e Dente (também composto por ex. estudantes da UEL), pra cantar comigo uma cançãozinha infantil. Peixinhos do Mar. Lembrei do texto do Betto de La Santa onde ele coloca esta situação do Paraná em perspectiva global e resgata o significado da expressão “paraná”, que seria braço de mar. Faz um tempo já que entoo esta canção como uma espécie de hino pirata com meus filhos.

Peixinhos do Mar
Quem te ensinou a nadar?
Quem te ensinou a nadar?
Quem te ensinou a nadar foi, foi, marinheiro,
foi os peixinhos do mar.

Ei nóiz,
que viemos de outras terras, de outro mar
temos pólvora, chumbo e bala
nós queremos é guerrear!


Bem, depois da minha participação teve uma super apresentação do grupo Osso e Dente, com canções extremamente alinhadas com o presente momento. O Caetano tá em Curitiba acampado de novo e a greve continua! As atividades continuam intensas aqui também, e domingo terá uma edição especial do Quizomba em apoio às greves do estado. Que a consciência coletiva possa se dar conta do tamanho do saco de lixo que temos em nossa sala, e que nos livremos dele logo, pois o ponteiro tá girando e só limpar o chorume não resolverá nosso problema. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Quanto Vale o Show? ou... 20 de Novembro 25 anos depois...

João de Carvalho
Racionais MC's: Edi Rock, Ice Blue, Mano Brown e KL Jay


O LANÇAMENTO

Nesta última terça feira, 18 de novembro de 2014, o grupo Racionais Mc's lançou o primeiro single do disco que está programado para sair no dia próximo dia 25. Se trata do rap "Quanto Vale o Show", que está disponível por 1,99 R$ na loja digital Google Play. Já no dia 19, a página oficial do grupo no facebook (conexão do grupo com mais de 5,5 milhões de seguidores) lançou o teaser do disco. Estes dois lançamentos, que somados ao dia da consciência negra, antecedem o último show da turnê - 21 em Uberlândia - em que se celebrou os 25 anos do grupo de rap mais influente e duradouro do país. Tal turnê fecha o ciclo simbólico que ainda prende o Racionais ao passado, mas antes mesmo que o sangue esfrie, o novo e aguardado disco sai na próxima terça (hoje) para lojas virtuais, e tem lançamento com show previsto para o dia 25 de dezembro, no Espaço da Américas (o mesmo em que ocorreu o show registrado do DVD Criolo e Emicida Ao Vivo), por 120 R$ - a inteira na pista - na Ticket 360.

Tem ocorrido tanto som novo interessante ultimamente, e a velocidade dos lançamentos se sobrepõe de maneira tão frenética, que a coisa mais rara que existe é um som que te pegue por completo e te faça apertar o play repetidas vezes. Mas esse som lançado terça agora conseguiu fazer isso comigo. Na primeira tacada foram 4 vezes seguidas, mas agora já passou das 10... e ainda não escrevi o restante do texto, o que pressupõe aquele monte de escutas cheias de pausas... Enfim, esse som me lançou numa torrente de associações que ligam Mahammad Ali até a recente vitória do PT. 
Há, vc duvida? Achou graça? Parece teoria da conspiração? 
Dá o play e depois me segue...




MINHA ESCUTA

O primeiro elemento que me chamou a atenção foi o plano sonoro desta obra. Achei muito interessante a base criada por DJ Cia - do RZO - que traz como principais referências o tema do filme Rock, O Lutador, e a voz de Silvio Santos, num "refrão concreto", feito com o recorte e a colagem da voz do ícone midiático, sobreposto às vozes do Mano Brown...

O fato dessa base não ter sido feita pelo DJ do grupo, o grande KL Jay (espécie de 'grão-mestre' (existem vários) do hip-hop nacional, um sábio vegetariano na selva de pedra), é algo revelador. Essa canção é uma demostração de que Racionais é muito mais um clã do que simplesmente um grupo musical. Não seria mais óbvio pensar que a primeira a ser lançada deveria mostrar os 4 principais elementos do grupo? Mas no Racionais essa ideia de principal não cabe muito. Só de longe o Mano Brown é O líder, e Racionais é O grupo de rap do Brasil. O que é certo dizer é que os Racionais representam a maior e mais tradicional família dentro do hip-hop nacional. E a densidade poética dessa base composta por DJ Cia, outro pilar do movimento, é a prova de que a família vai bem...

DJ Cia e DJ KL Jay, num rango entre a mixagem do novo CD em Nova York

Bem, se você escutar com calma vai perceber que, diferente do que mais se tem feito por aí, a articulação das partes dessa obra é assimétrica (as estrofes não tem a mesma duração de versos e compassos). Isso é uma ousadia realizada em conjunto, tanto por Brown como por Cia. A sequencia inicial é composta pela voz de Brown, trocando uma ideia, um ritmo marcado no pandeiro e uma segunda voz fazendo uma espécie de sombra com o pandeiro, evocando o começo do interesse do rapper pela música. Uma segunda sequencia se inicia, a voz de Mano Brown, agora em um outro espaço acústico, com um rádio tocando ao fundo, assume um tom profético e diz sobre os desertos que atravessou. Nesse "rádio imaginário" (é uma interpretação, vc não precisa concordar com tudo o que digo) a canção Gonna Fly Now se anuncia e existe a sobreposição do texto de Brown com a letra da canção matriz ("it's so hard now/ trying hard now"), tudo isso somado às vozes de fundo do MC do Capão.



Parece que aquele clima de sequência fílmica em que o personagem evolui no tempo enquanto toca uma música que embala a ação impregna, de certa forma, a base composta por Cia. O DJ do RZO conseguiu inclusive criar um direcionamento apoteótico, em que parece que a canção explode juntamente com o último corte de cena do texto de Brown, que também respira esse ar retrospectiva e passagem do tempo, pois as estrofes cobre um período histórico que vai de 1983 à 1987. Em outras palavras, o rapper paulista compõe uma crônica de alguém que cresceu (dos 13 aos 17) em um país que acaba de sair de uma ditadura militar.

Neste relato não é contundente somente o plano narrativo, mas também a conjunção entre narratividade e qualidade poética. Por qualidade poética estou compreendendo aqui somente os 3 elementos destacados por Ezera Pound: melopéia, fanopéia e logopéia. No final da primeira estrofe escutamos, por exemplo, os versos "Meu primo resolve ter revolver/ em volta, outras revoltas, envolve-se fácil/ era guerra com a favela de baixo/ sem livro, nem lápis o Brasil em colapso", um belo exemplo de melopéia, em que podemos perceber como a rede de sonoridade das palavras aproximam e revelam significados. As palavras resolve, revolver, volta, revolta e envolve-se são variações de um mesmo tipo de sonoridade. Mas é ainda mais surpreendente a palavra "colapso", que aparece em um lugar onde se espera uma rima conclusiva, consoante. É como se a palavra "baixo" se abrisse entre "Brasil" - que ecoa o "fácil" -  e "colapso".

Mano Brown costuma reconhecer que é uma referência como MC muito mais por seu "conteúdo" do que por sua técnica. Podemos considerar que ele não é um grande improvisador, e que ele nem é propriamente um inventor dentro das divisões rítmicas e nos usos das vocalidades (Emicida, Sabotage e Sombra -respectivamente- são exemplos mais ousados nessas coisas). Mas o flow do Mano Brown está longe de ser fraco! E, se ele não é propriamente um inventor dentro desse quesito musical (técnico), ele é sim um grande mestre dessa arte. Vou fazer um paralelo comum e comparar o Brown ao Chico Buarque. A relação que o Mano Brown tem com a "técnica do MC" é mais ou menos a mesma que Chico Buarque tem para com a "técnica musical". Também me lembra o exemplo do Siba, em que apesar das invenções instrumentais aparecerem sempre em função do texto, essas adquirem, por rigor composicional, um elevado grau de elaboração musical. As guitarras do Siba, a harmonia do Chico e o flow do Brown são frutos de um rigor irmão!

E, ainda que tudo que eu tenha apontado até agora sejam, de uma forma ou de outra, virtudes musicais, e isso é o que no final justifica o show, o que os Racionais estão nos apresentando é uma perspectiva de compreensão da sociedade em que vivemos hoje, na reta final de 2014, em pleno dia da consciência negra! (escrevi a maior parte desse texto no dia 20...). Vejamos.

Ali vai à lona, contra Wepner, em 1975.


O personagem Rock Balboa foi criado por Sylvester Stallone (além de ator, Stallone escreveu todos os VI roteiros da série) inspirado, declaradamente, na luta entre Muhammed Ali e Chuck Wepner. O então desconhecido lutador conseguiu resistir 15 rounds, e levar Ali à lona! Muhammed havia, no ano anterior, conseguido o título mundial na aclamada luta contra Foreman, e era o grande favorito da noite. Stallone estava alí, no meio da multidão, quando Muhammed Ali caiu. Em 3 dias o roteiro estava pronto, e no ano seguinte o filme já estava sendo lançado.

O nome Rock faz referência à um outro boxeador branco, Rock Marciano, o grande campeão da década de 50. É, fazia quase 20 anos que Marciano estava afastado dos ringues, isso não importa. Também não importa que este então ambiente de supremacia afrodescendente - o boxe - seja um espaço de resistência e identificação de uma juventude negra. Não importa que Muhammed tenha desenvolvido a espetacular estratégia de cansar Foreman, na "luta do século", a mesma estratégia usada por Balboa contra Apollo. Muito menos que a estratégia padrão de Ali era prolongar a luta até o último assalto. Naquele dia, para o jovem Stallone, Muhammed não ter derrubado o novato logo no começo da luta deve ter parecido muito mais arrogância (como a do personagem Apollo) do que respeito pelo oponente (Ali ganhou a luta no último round).

Como não pensar que estamos diante de uma questão racial?
Até mesmo a música tema, Gonna Fly Now, é um Soul de branco!

Bill Conti, compositor de Gonna Fly Now, canção do Rock de 1976.

No boxe americano dos anos 70 e 80, que corresponde respectivamente ao contexto da base de Cia e da letra de Brown, os brancos normalmente são os juízes, treinadores, apostadores, platéia... mas a grande maioria dos lutadores são negros. E no final das contas, quem faz o show? Em que consiste o show? Quanto vale o show? E, quem ganha com o show?

Na primeira vez que a voz de Silvio Santos aparece perguntando "quanto vale?", Brown não completa a frase com a palavra 'show', e sim assim: "quanto vale o SOUL?".

Essa pergunta é oportuna pois aponta, além de muitas outras coisas, para soluções musicais, de caráter e de afeto pré-rap anos 1990. Caso vc ainda não saiba, o Racionais não está sem lançar disco a 12 anos pq são preguiçosos. Não, existe uma crise muito coerente que se pergunta sobre como está o mundo e o Brasil hoje, e como superar a visão de mundo que o rap dos anos 1990 criou? Pro Kamau e pro Rael é mais fácil, não fizeram a cabeça de tanta gente assim nos anos 90. Mas como se portar diante dessa questão um grupo como o Racionais? Vc chegou a escutar os lançamentos do Eduardo, ex-Facção Central? Ele lançou no Dia das Bruxas... bem, muito bom! Mas completamente anos 1990... acho esse paralelo curioso, inclusive, pelas artes dos discos... mesmo tipo de letra, mas perspectivas muito distante... as imagens traduzem bem isso... na capa do single dos Racionais temos uma máscara de palhaço no chão, ao lado de várias notas de 50 reais e uma pequena chave... a capa do disco do Eduardo tá aí:


Voltando ao lançamento da semana, a tensão entre realização, consumo e ostentação está registrada neste relato autobiográfico de um sobrevivente da Zona Sul, salvo graças ao Hip-hop. Aqui, seria conveniente voltarmos um pouco nossa atenção também para o teaser de divulgação do disco:


Num rápido mapeamento do que assistimos neste pouco mais de um minuto:
1. Os nomes Cosa Nostra e Boogie Naipe (marcas/empresas do Racionais) aparecem como apresentadores de não se sabe o que ainda... mas ao fundo escutamos o som de sirenes.
2. Vemos uma ação "criminosa", personagens disfarçados de garis, com metralhadoras e máscaras, inclusive de palhaço (o palhaço é um ícone associado, no rap, ao ladrão).
3. Um plano rápido da máscara sobre maços de notas de 100 reais.
4. Os integrantes do Racionais, felizes, contando e redistribuindo a grana, em um quarto de hotel. Estão bem vestidos e o quarto parece bem caro.
5. Brown, olhando pela janela, com touca de motoqueiro (tb de assaltante), seca o rosto como se descansasse de uma ação intensa.
6. Um carro chega à uma comunidade da periferia. No muro lateral a imagem de 2 Pac. Uma moto parece esperar, e guiar mais para dentro da periferia. Chegamos à inscrição 'Fundão - gansta' (outra marca dos Racionais) na camiseta de alguém. A cor laranja (que casualmente na yoga inspira força e resistência), presente nas roupas dos garis, agora toma conta de um grupo maior de 'manos'... os Racionais aparecem no meio.
7. Entram letras que anunciam o disco e o show no Espaço das Américas, esclarecendo o que os dois primeiros nomes vieram apresentar.

O que vemos aqui é um reforço das questões presentes na letra do lançamento do dia anterior, a canção nova "Quanto Vale o Show". A ostentação, mapeada como presente desde o início dos anos 1980, se atualiza. O significado do ladrão dentro do discurso do Racionais tem uma longa história, que não cabe aqui, e talvez você já conheça... passa por Hobin Hood e São Dimas. A ideia de família, clã, ao invés de grupo tb se faz presente neste teaser. Recentemente Mano Brown disse em entrevista à Cult que a revolução hoje tem a ver com montar uma empresa e conseguir manter várias pessoas empregadas, algo que pode parecer contrario à ideia de revolução, que costuma ser associada diretamente aos pensamentos de esquerda, anti-capitalista por excelência...

Este teaser, somando-se à obra lançada no dia 18, sinalizam a direção do que pode ser o "novo" disco e o "novo" Racionais. Diferente de Eduardo, que aponta e explicita a guerra civil que vivemos, os Racionais ampliam a leitura, colocando outros elementos em jogo. Mas o que o antigo MC do Facção Central está nos apontando existe. O genocídio da juventude negra e "favelada" ainda não teve seu fim. O metrô chegou ao Capão Redondo, a consciência do "ser negro" se aprofundou, os pobres já podem ter acesso à certos símbolos de consumo. O conhecimento também está mais democrático. Muita coisa mudou, mas a juventude negra continua morrendo.

Capa do disco Cores & Valores. (foto: Rui Mendes)

Vamos voltar à canção lançada semana passada?
Este texto já se demora em minha mesa faz uma semana,
e o Racionais liberaram agora a pouco o disco novo...
!!!! ...
clássico,
agora só digo isso.

Nos minutos finais de Quanto Vale o Show, podemos acompanhar Brown narrando:


"Corpo negro semi-nu encontrado no lixão em São Paulo
A última a abolir a escravidão
Dezembro sangrento SP, mundo cão promete
Nuvens e valas, chuvas de balas em 87
Quanto vale? Quanto vale o show?"


Na parte onde antes entraria a voz de Silvio Santos questionando quanto vale o show, aparece o corte abrupto entre a cena das vitrines e o corpo de um negro assassinado (Indigo Blue/ Corpo negro semi-nú). Quanto vale o show? 
1,99 R$ - sinônimo de loja popular - para o arquivo de áudio de cada faixa. ? .
9,99 R$ - arquivo de áudio do disco completo. ? .
120,00 R$ - a pista, no show de lançamento do dia 20 de dezembro, no Espaço das Américas. ? .
A vida - quanto de sangue e suor para armar a lona do circo? 
Quantos DG's em Esquenta's?

Juçara Marçal, novembro de 2014 (foto do facebook da cantora/compositora)

Se por um lado o surgimento e a história do Racionais estão vinculados de maneira quase direta ao PT, essa nova canção (e pelo que pude conferir tb o disco) consegue não ser refém do apoio circunstancial durante a última campanha eleitoral. O apoio que a Dilma teve de alguns militantes do hip-hop (que é um movimento apartidário) só veio mesmo no segundo turno. Demostração clara das reservas com que estes apoios se deram. Isso foi, de um modo geral, muito mais um não ao PSDB e ao Aécio do que propriamente um sim ao PT.

E se não fosse a articulação virtual, que questiona e contrabalanceia os abusos da imprensa oficial (não preciso lembrar o desespero da Veja "Eles Sabiam de Tudo"), muito provavelmente o PSDB teria conseguido retornar ao poder. E o hip-hop, com alguns articuladores formadores de opinião que se posicionaram, cumpriu um papel nesse processo. Mas uma coisa é apoiar um político como o Eduardo Suplicy, que media o discurso do Racionais em esferas onde o grupo e o movimento ainda são mal vistos. Discurso este que se questiona, compreende e clarifica ideias - já disse em outros textos que o MC é um professor - que envolvem preconceito e desigualdade racial. Outra coisa é apoiar incondicionalmente um partido que sofre tanto com essa tal "governabilidade" (Kátia Abreu no Ministério da Agricultura não dá, né?!). 

Cores & Valores reflete como está o lugar do negro das periferias hoje, colocando esta questão de maneira histórica, exercitando de modo radical o quinto elemento do hip-hop. O conhecimento e a auto-consciência, reflexão constante do "da onde eu vim?" e de "quais as regras do jogo?", são o compromisso mais fiel que os Racionais se engajam. Bandeiras de partidos e ideologias prontas definitivamente não explicam o Racionais, muito menos o hip-hop. Na década de 1990 os Racionais foram a voz mais forte do que acontecia nas periferias do país, pois seu discurso foi aceito (de maneira religiosa, diga-se) por uma verdadeira legião de fãs. A primeira década dos anos 2000 também teve um disco do Racionais para embalar a consciência do país. Agora, finalmente, depois de 12 anos, tá na praça o novo álbum. E assim como no começo, - o primeiro disco do Racionais chama-se "Raio X do Brasil" - os caras não miram baixo.











domingo, 12 de outubro de 2014

O diálogo entre Rael e Caetano, ou O Rap Tropicalista da Laboratório Fantasma

João de Carvalho

 








O terceiro disco da trilogia da Banda Cê,
o "Um Abraçaço" (2012), de Caetano Veloso,
se inicia com a canção "A Bossa Nova é Foda".
Walter durante evento na UEL


[tendo em vista que o diálogo 
que pretendemos revelar se refere à relação hip-hop/tropicália, 
é importante lembrar que este é o disco que contém o "Um Comunista", 
principal contraponto a 
"Mil Faces de Um Homem Leal" 
(obras em memória de Mariguela), 
onde Caetano aprofunda a voz pessimista, que é a tônica deste seu mais recente período.] 

                                    
- discordo de Walter Garcia em dois aspectos... talvez três. 
             Primeiro, em dividir o Caetano em 3 partes (artista, pensador e marqueteiro). 
   A explicação convence por que é engraçada e faz a fala fluir durante um evento acadêmico, 
       mas o homem é muito mais contraditório e complexo, e reduzir Caetano à este esquema
            é ignorar o humano da figura histórica. 
                  Segundo, acho que hip-hop e tropicalismo tem "muito a ver". 
      São movimentos, compostos por pessoas que dialogam, e nisso trocam suas experiências sobre conflitos comuns ao ofício e à vida. 
            Caetano e Racionais são contemporâneos, oras! 
                   E terceiro, que é uma decorrência do segundo aspecto, 
             essa ideia de "linha evolutiva da canção brasileira" é uma ideia do Caetano jovem, 
       profundamente influenciado pela presença dos poetas concretos. Isso é que não tem nada a ver, gente!
    É sempre bom ter em mente que a Poesia Concreta, 
       por maior que seja sua relevância histórica,      (e aqui minha prosa porosa, que não diz o contrário)
    é um movimento de "vanguarda tardia". 
            O que presenciamos hoje é um quadro de produção muito mais rizomático
         e falar sobre a relação entre Tropicália e Hip-hop não é, 
                                                                                              de forma alguma, 
                         colocar uma como consequência da outra.


Sabemos também que a banda Cê propõe uma espécie de "retomada da sonoridade"
do disco "Transa", de 1972.
        Disco este que é tido, por grande parte de uma geração de novos cancionistas/produtores,
como o melhor trabalho de Caetano.
        O disco da Juçara,
e cito justamente esse exemplo pois, além dela participar do DVD do Criolo e do Emicida,
o Encarnado foi objeto de uma resenha anterior,
e tem ecos claros do Transa,           ........          ........    e tb do Tom Zé e do Itamar
                                                          (um pós-tropicalista, como salientou o próprio Walter).

Dentre as conquistas que Caetano realizou em 72,
está o aprofundamento da qualidade dialógica da canção,
um aprofundamento dos conceitos de intertextualidade e interdiscursividade...
veio esse aberto 
por João Gilberto...

e a criação
(junto com sua banda, que contava com
Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa)
-um aspecto de horizontalidade _rizomática_ de produção-

de uma sonoridade mais "orgânica",
menos formatada...

maiores explorações de texturas e timbres,
em detrimento do desenvolvimento harmônico bossa-novista
(aqui talvez a resposta do 
"pq o Itamar conseguiu algum eco posterior, e o Arrigo não"...)

e,
voltando à primeira faixa do Abraçaço:

A Bossa Nova é Foda

O bruxo de Juazeiro numa caverna do louro francês
(quem terá tido essa fazenda de areais?)
Fitas-cassete, uma ergométrica, uns restos de rabada
Lá fora o mundo ainda se torce para encarar a equação
Pura-invenção, dança-da-moda
A bossa nova é foda

O magno instrumento grego antigo diz que quando chegares aqui
Que é um dom que muito homem não tem que é influência do jazz
E tanto faz se o bardo judeu romântico de Minnesota
Porqueiro Eumeu o reconhece de volta a Ítaca
A nossa vida nunca mais será igual
Samba-de-roda, neo-carnaval, rio São Francisco
Rio de Janeiro, Canavial
A bossa nova é foda

O tom de tudo comanda as ondas do mar
Ondas sonoras com que colore no espacial
Homem cruel, destruidor, de brilho intenso, monumental

Deu ao poeta, velho profeta, a chave da casa de munição
O velho transformou o mito das raças tristes
Em Minotauros, Junior Cigano
Em José Aldo, Lyoto Machida
Vítor Belfort, Anderson Silva
E a coisa toda
A bossa nova é foda.



Essa canção apresenta uma análise, pelo viés tropicalista, do que foi a Bossa Nova.
Uma verdadeira aula sobre história da cultura brasileira.
Aqui, como em muitos outros casos, fica claro o papel educacional que a canção possui no Brasil.
De uma forma enviesada,
                                               que é característica da proposta tropicalista,
Caetano relaciona a agressividade e sensibilidade feminina da Bossa Nova e dos lutadores de MMA.

As duas primeiras estrofes fazem referência a imagem de João Gilberto,
a terceira, que corresponde à parte B da canção, é uma homenagem ao maestro do movimento.

Jobim aparece aqui como o
"Homem cruel, destruidor, de brilho intenso, monumental"
responsável por dar ao poeta (Vinícius) a "chave da casa de munição".
UM TROCADILHO GANGSTA!!

O vídeo, por sua vez,
joga de maneira bem curiosa com imagens que sugerem o lado feminino das lutas de MMA...



O Rael,
              mais um dos grandes talentos do hip-hop nacional,
                  foi ao show do Caetano Veloso, acompanhado do Emicida,
 e quando Caetano cantou "A Bossa Nova é Foda"
na hora ele disse aos seus manos,
vou fazer "O Hip-hop é Foda".
E assim fez!
Esse,
           é bom da gente lembrar,
é o processo mais comum de criação de um um Mc,
o diálogo intertextual.
               Normalmente um rimador pira em uma levada,
       uma "batida perfeita" (D2),
uma base sobre a qual seus versos vão fluir (flow) e com a qual vão dialogar.
                                  Sim,
           pois a base sempre sugere uma atmosfera,
   e a letra (as boas, né?)
é meio que "contaminada" por este clima,
que acaba por sugerir uma temática ou uma forma de desenvolvimento...

"Começamos nos guetos das grandes capitais 
Movimento dos pretos e de seus ideais
Somos filhos de Ketu, somos originais
Hip hop é feito com tempero de paz
Dançamos por aí, grafitamos murais
Lá eles têm Jay-Z, aqui tem Racionais
Pode ser Mc, se não for tanto faz
O importante é sentir 
que o hip hop é foda

Mas é um universo imenso em cada verso
E cada vez que verso, com alguém eu converso
Cada canto que toca,seja pro muthafukka
Pra quem é do pipoco ou se é só é pipoca
Seja careta ou louco, seja boy ou maloca
Isso pra mim é pouco o importante é que
o hip hop é foda


Já salvou muito mais que várias ongs banais

Dialogou muito mais que professores e pais
Projetos sociais não seduz marginais
Mas põe um rap pra ouvir a diferença que faz
Eu sei que é foda e que tá na moda
Mas quando é pesado e verdadeiro te incomoda
É foda, é fato, tempo quatro por quatro
Mc, b-boy, grafite e o Dj riscando os pratos
o hip hop é foda"



O Rael faz parte do quadro de "funcionários" da Laboratório Fantasma, a empresa que o Emicida e seu irmão, Evandro Fioti, fundaram em 2008. Dentre os lançamentos da Lab_fantasma, temos os excelentes discos (lançados em LP!) do Emicida e o do Rael, além do já fundamental DVD Criolo e Emicida ao vivo, de que tanto falo. Bem, a ideia de "responder" Caetano Veloso encontrou apoio no grupo, e em pouco tempo a canção (ou parte dela, se é que ela existe completa...) já estava sendo apresentada no prêmio Multishow,  nas vozes de Emicida e Caetano Veloso.




A estrutura da apresentação do Prêmio Multishow contava com um pequeno palco central circundado por uma série de super telões, estes, por sua vez, projetavam imagens dos cantores fundidas ou entrecortadas com motivos que "saltaram" das letras performatizadas. Me chama a atenção o último ciclo, que corresponde às duas canções que estamos debatendo neste post, em que a imagem escolhida para dialogar com as faces dos cantores foi uma fita k7 (por volta dos 4:50 do vídeo). Esta imagem, que salta da letra do Caetano, parece sugerir a presença da Lab_fantasma por trás daquela reunião, ao quase evocar a logo.



Em sua "resposta", o Mc aproveita vários pontos da canção de Caetano. O primeiro, mais explícito, é o refrão, que já é um mote figurativo (nas categorias de compatibilidade do Tatit, o momento em que a melodia cola co'a fala) perfeito para um rap. Em segundo lugar, a primeira sequência de rimas em "ais" parece ecoar o "areais" do baiano. Em terceiro (claro que esta ordem só existe na minha "ex-planation"), o movimento maquínico do violão base é um "arremedo" do violão de Caetano, e parece sugerir um movimento crescente (associado ao desenvolvimento gradual da participação do Dj) de uma "revolução silenciosa", que foi germinando e em pouco tempo já ganhou seu espaço. Outra questão liga os três movimentos: bossa-nova, tropicália e hip-hop são produtos (danças) da moda! Mas, ao contrário de Caetano, ao invés de simplesmente citar este dado, Rael completa "mas quando é pesado e verdadeiro te incomoda"!

A canção de Rael tem dois "clipes" gravados. O primeiro, lançado pela Laboratório Fantasma, aparece o Rael, o DJ Will (filho do grande DJ KL Jay) e o Bruno Dupré. Este é o "vídeo oficial", uma pequena produção destinada à divulgação da canção que não integra nenhum disco e foi lançada de forma autônoma. O formato é quase uma citação ao banquinho e violão da bossa nova (é muito incomum ver um MC sentado, cantando e se acompanhando ao violão). O segundo, produzido por Rodrigo Beetz, é uma recriação livre, que conta um pouco da história de mais uma vida que se engaja no hip-hop, mas aqui através da dança. Acho muito interessante essa liberdade, e vontade, de dialogar com a obra de um artista, um movimento que transpõe a barreira entre produtores culturais e público.




Outro vídeo que podemos conferir como esta canção se metamorfoseia e vai agregando múltiplos interlocutores, é o de uma câmera do meio da platéia do show Cada canto um rap, cada rap um canto", que ocorreu no dia 19/06 deste ano, no SESC Campo Limpo. Neste registro vemos a obra se estender por 14:30, sendo um convite pra vários Mc's improvisarem sobre a força do hip-hop. Dentre os vários improvisos, que temos que fazer uma grande força para compreender pois o áudio está comprometido, existem alguns momentos que são realmente emocionantes. Um destes momentos é a participação de Marechal, por volta dos 7:00... vale a pena conferir:




Mas esse papo não é de agora, não!
Vem se intensificando cada vez mais, 
adquirindo novos contornos 
e projetando novas consequências...
mas esse papo já está presente desde o início da Lab_fantasma.

Em 2009 Emicida lançou sua primeira mixtape.
A vigésima primeira faixa deste trabalho é a primeira parceria entre Rael e Emicida.
Me refiro justamente à "Outras Palavras", 
composição feita a partir de recortes da canção homônima de Caetano. 



Aqui também existe um aproveitamento muito mais profundo do texto original 
do que simplesmente uma base qualquer.
Na canção original Caetano argumenta que busca, por meio de seu manuseio das palavras,
admitindo sua existência enquanto linguagem, uma busca por outras palavras, mais positivas...
tudo isso dentro de um texto que, por mais peripécias linguísticas que possua,
incluindo um final apoteótico com ecos de Catatau, 
se trata de uma canção de amor,
de dor de amor...

Emicida e Rael desenvolvem diferente,
buscando focar a positividade de uma relação que agora goza dos frutos de um trabalho focado e responsável. Essa que é, desde o início, a perspectiva de Emicida, se vincula à referências muitas vezes negligenciadas do hip-hop. Vozes como Kamau e Speed são referências reveladas de precursores de uma "certa" corrente que busca transpor os conflitos explorados pela geração dos anos 90, transpondo barreiras que parecem (só de longe) marcar e isolar a sonoridade do rap...

E, voltando às canções que estamos tratando,
a "parceira" Caetano Veloso / Emicida teve um desdobramento muito interessante durante o evento
"Cidadania nas Ruas", produzido pela Lab_fantasma, realizado no Auditório Ibirapuera, para 30 mil pessoas.
O pequeno Doc realizado dá bem uma ideia da reunião que foi este evento.
(e tem o Emicida cantando Haiti, o que isso significa? pouca coisa não é!)


 Compensa assistir aos 3 vídeos deste Doc., pois ali temos os personagens de todo este meu texto dialogando e frisando as mutuas referências. Mas gostaria de apontar um outro vídeo, também produção da Lab_fantasma, intitulado "Insomnia". Este, uma parceria entre Rodrigo Ogi e Emicida, causou polêmica por causa dos versos "tem 2 tipo de MC, 2, digo, os que faliu e os que aprendeu algo comigo". Mas, para além das ambiguidades que a letra sustenta - é claro que dizer que o Emicida está falando exclusivamente dele mesmo é um grande erro de interpretação, mas ignorar que ele está comentando também sobre sua situação no quadro cultural do hip-hop nacional é outra grande armadilha - me chama muito a atenção os versos "gueto até umas hora, no trono/ quem não liga Itamar Assumpção quer ver os milagre do Emicida como?".




Qual Itamar? 
O que elaborou toda uma sonoridade?
O Itamar que era foda de flow? Pq a palavra mastiga na boca do Nêgo Dito!
O Itamar bandido? O que subverte o sistema?
Ou o que faliu?
Seja qual for
como ícone ou precursor
Emicida afirma que Itamar Assumpção é uma chave de leitura para seu trabalho.

Itamar   
um pós-tropicalista
que por força de seu tempo
morreu sem o devido reconhecimento
de público e de cachê que justamente merecia.

O valor de Emicida está - entre outras coisas - em ter conseguido imprimir uma marca
ter virado um próspero empresário,
em uma firma familiar,
empregando uma galera criativa em torno de ideais de mundo.
É como se Emicida olhasse para o Itamar e disse-se:
vingado, é nóiz!

E, se a "revolução" é de alguma forma como Mano Brown anunciou recentemente,
em entrevista à revista Cult:



"Qual é o maior compromisso da "revolução", entre aspas? É mostrar envolvimento, você pôr sua inteligência dentro dela, sua mão de obra, o conhecimento que você aprendeu naquela causa. Como é que você consegue mostrar isso? Quando sua empresa vai bem, quando você paga as pessoas. Aí é trabalho! Não é movimento, onde um faz e fica um monte de gente sem condições de fazer nada. Tem que dar condições das pessoas fazerem para ganharem seu dinheiro. Esse é o momento que a gente tá vivendo hoje. Essa é a maior evolução. Já não é a revolução do discurso, das coisas abstratas, morou? É do trabalho. Se fosse no campo, seria enxada e terra. É na cidade. É trabalho. É envolvimento. É vida, sabe? E é ideologia também."





O hip-hop é foda!
E pelo fato desse lance ser horizontal,
sem um herói que redime todo mundo

(Na canção nova do Criolo, Vai Ser Assim: 
"eles querem forjar heróis, pra manter o povo sem voz")

temos os caras do Racionais em uma situação de aprendiz.
A Boogie Naipe tá aí, pra não me deixar mentir...

Será que o gesto de Mano Brown
em afrontar uma espécie de cerco ideológico de dentro do hip-hop,
e encarar lançar um disco de canções de amor
não encontra com a postura dos tropicalista
em afrontar a coerção da canção engajada dos anos 60?
Será?

O "projeto tropicalista" foi contestado nos anos 1990,
justamente pelo rap dos Racionais Mc's,
agora
alguns dos principais produtores do hip-hop nacional
encontram-se em franco diálogo com a obra de Caetano.



Essa semana, inclusive, estréia o filme "Na Quebrada"...
no elenco os filhos de Mano Brown , Jorge e Domênica Dias...
e produção de Luciano Huck...
Ah, é!?
                   É.
E aí, se o filme for bom?
Se o filme "fizer bem"?
Eim?
Só digo uma coisa,
o disco do Edi Rock é muuuiiito bom!!!!
Ir ao Caldeirão ou não
                                      não muda o fato de que

O hip-hop é foda!