Montei ele para ser um espaço de trocas com os alunos/amigos que fizeram o curso A Canção e Seus Sentidos. E por sinal, venho aqui hoje chamar vc pra participar de mais uma edição deste curso que costuma ser um percurso cheio de escutas e descobertas.
Funciona assim. A canção, vc deve estar consciente disso, é um território híbrido. Um baita cruzamento cultural. E o cancionista, da maneira como compreendo, é um cara curioso e cheio de amigos criativos e interessantes. Fruir canção é algo que nos conecta com muitas linguagens diferentes. Considerando isso, o curso que pensei funciona bem quando tem gente de áreas de estudos diferentes, pois assim trocamos impressões e percebemos este objeto insólito, que é a canção, por ângulos novos.
Em outras palavras:
Entendeu?
Mais ou menos?
Assim, ó.
Vou abrir horário para 3 turmas, uma na terça de tarde (15:00 hrs), uma na quinta de noite (19:00) e uma no sábado de manhã (9:00)... se vc se interessou, mande um email para mim (jocarv1984@yahoo.com.br) dizendo qual horário vc prefere e quem é vc. Curte estudar o que? E escutar o que? E se vc tiver um outro horário de preferência, estou aberto à sugestões.
Tá faltando dizer que serão turmas de 3 a 6 alunos. (alguns encontros prometem até pão de queijo)
E q são aulas de 1 hora e meia.
Durante 4 meses.
Que o investimento é de 80 reais por mês. (baratin baratin!)
Juçara
Marçal lançou seu primeiro disco solo, o “Encarnado, no início
da semana passada. Desde então é o disco que estou escutando no
mp3. Resumindo, é um disco tão lindo, ousado e bem feito que
naturalmente somos convocados para escutar de novo. A produção é
independente (ela mesma bancou a gravação) e está disponível para
download gratuito no site: Juçara Marçal
O
entrosamento de Rodrigo Campos e Kiko Dinucci – que tocam também
no Passo Torto, com Romulo Froes e Marcelo Cabral – chegou ao seu estado de maior
sintonia. De cara, temos como primeira faixa do álbum a canção
“Velho Amarelo”, do próprio Rodrigo. Reparem que o
acompanhamento é feito somente por guitarra e cavaco distorcidos,
onde a harmonia fica dividida em módulos de arpejos que, pra mim,
remetem claramente às texturas circulares da kalimba africana –
instrumento utilizado pela Juçara para se acompanhar em “Canção
pra ninar Oxum”.
E uma das
histórias que este disco conta é justamente essa. A de um caminho
da música de raiz africana no Brasil. Isso, é claro, já vem dos
trabalhos anteriores do Metá Metá.
Vale lembrar que o refrão afro de “Mariô” do Criolo é do
Dinucci, e os metais do Thiago França! Encarnado é o disco de uma
cantora afro-brasileira, e de autores afro-brasileiros.
Em
“Damião” podemos confirmar a força desta nova geração de
cancionistas, o que o Romulo Froes apontou como a inventividade com o
“timbre”, e que eu trato por “sonoridade”, para que assim
escutemos também o elemento “textura” como protagonista deste
“novo domínio” do cancionista. E, assim como Pixinguinha deve
ser lembrado como um cancionista, não só por seus temas que
ganharam letra, mas sobretudo por ser um baita orquestrador de seu
tempo, ajudando a definir a sonoridade do regional brasileiro, o que
seria fundamental para o samba... bem, assim caminha o Thiago França!
São
muitos os momentos inspirados do álbum, mas o climax do disco é sem
dúvida bem na metade do repertório, a 6ª faixa, “Ciranda do
Aborto”, de autoria de Dinucci. Tanto em Odoya – faixa anterior –
quanto na “Ciranda”, existem momentos de improvisação textural
super ousados! Talvez, até onde minha memória pode resgatar, a
canção brasileira nunca esteve tão próxima deste tipo de
sonoridade. Mesmos as experiências do Caetano sempre tinham um certo
tom de “teste”, e não de domínio das sonoridades dos músicos
de vanguarda. Agora não, em Odoya e Ciranda do Aborto, Juçara e o
trio de meninos (chega a rabeca do Thomas Rohrer) conseguem criar uma
atmosfera interessantíssima para as canções.
Cada uma
das doze composições merece uma escuta atenta. Mas, como o tema
central do dico – como bem pontua Romulo Froes aqui – é a morte,
não podemos deixar de mencionar a genial regravação de “A Velha da Capa
Preta”, composição de Siba. O arranjo que o Kiko e o Rodrigo
elaboraram é uma puta aula sobre “acompanhamento” de canção.
Nem preciso dizer, escutem só como o texto e a ironia do Siba
brilham dentro deste arranjo:
“Encarnado”
deixa claro que a geração que a crítica cultural do país quis
taxar como morta, está mais viva do que nunca. Pra quem ainda não
baixou o disco, tá esperando o que? E para os que já estão
encantados, esperamos agora, aqui em Londrina, poder conferir este
show de perto!
"Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.". Matheus Pichonelli
Ao acabar a leitura deste texto, escutei ecoar em mim o refrão: "Nóiz sempre vai ser Guetto!".
"Nóis quer carrão e mansão, né? Por que não?
Tá bem patrão de avião, né? Por que não?
Quer opção, quer salmão, né? Por que não?
Ser feliz, jão, diz aí, por que não?" Emicida
A maneira como o berimbau é fragmentado eletronicamente, associado à "voz androide" de MC Guime pronunciando a palavra "guetto" é, por um processo de significação metafórica, a aproximação da força da capoeira com a do funk ostentação. Aos poucos, os outros elementos musicais que emergem em nossa escuta lidaram sempre com uma mistura refinada de timbres e referências culturais (existe um virtuosismo impressionante na construção da textura da canção, os ritmos e timbres se sobrepõem sonoramente e conceitualmente).
E tem o flow - este novo elemento de composição musical - do Emicida, que está cada vez mais elaborado. Mas essa questão do flow é assunto pra outra hora...
Dessa relação do Emicida com o MC Guime saiu a parceria de "País do Futebol".
Não é a primeira vez que o rap nacional faz "parceria" com a Nike (existem mais marcas presentes nesse clipe). O próprio Mano Brown fez parceria com Jorge Ben em uma produção para a referida empresa, e com a grana reformou a Blue House (sua casa/estúdio no Capão Redondo). Neymar também já havia participado de outro clipe com Emicida (Zica, vai lá).
"No flow Por onde a gente passa é show, fechou E olha onde a gente chegou Eu sou país do futebol, negô Até gringo sambou Tocou Neymar é gol" MC Guime
Até mesmo o comercial da Nike do ano passado, com a vinheta do Emicida, é uma super produção se formos pensar em jingles. Apesar de ter apoiado um evento corrompido como a Copa, e que isso não pareça pouca coisa, Emicida constrói um texto coerente com seu pensamento de valorização da auto-estima da população da periferia. Isso, quando pensamos em "rolezinhos" e derivados, alimenta simbolicamente grande parte da população das periferias dos grandes centros urbanos. Seria, inclusive, o caso de perguntar quais canções esta professora universitária consome. Sertanejo Universitário nas baladas e "música clássica" nos casamentos, talvez? ... O que será? Certamente não é funk ostentação.
Menos problemático esteticamente, mas ainda outro passo discutível dessa aproximação do Emicida com o futebol, foi a participação do artista no sorteio da Copa.
O texto do Emicida - principalmente da primeira parte - é completamente dissonante com toda a estrutura do evento. É risivel (de nervoso) a apatia da platéia ao final da performance, que acaba esfuziante e é recebida com parcas palmas.
Nesse diálogo todo, rap, funk e futebol, as mensagens foram dadas. Agora, como será que a população (principalmente jovens, nossos alunos da Educação Básica) estão decodificando estas mensagens?
Um bom ano
para todos e, finalmente, a primeira postagem de 2014!
Vamos
direto ao argumento central, que o ano já tá a milhão:
Rashid sai
em turne de sua última mixtape.
Mixtape
esta que foi batizada com o nome do rap que fez em parceria com
Emicida.
No post passado [Nocivo Shomon: na polifonia da revolução] eu
apresentei a ideia, que desenvolverei com mais profundidade na minha
pesquisa de mestrado, da polifonia no hip-hop. Apontei, naquele texto, como o contracanto realizado pelo Nocivo Shomon é importante
para a boa saúde do movimento, que tem na linha de frente de uma
nova geração de MC's a figura de Emicida. Este conflito – que,
como apontei, chega até a lembrar a famosa “Polêmica” de Wilson
Batista e Noel Rosa – pode ser representado nas ideologias que
separam os que acreditam que “A rua é nóiz” e aqueles que
questionam “A rua é quem?”.
Que tal aproveitarmos essa desculpa do show do Rashid no SESC
Belenzinho – a ideia original era fazer este texto como
apresentação do referido show, mas não deu tempo :( – para
escutar um som com atenção?
“Confundindo
Sábios – Rashid, Coyote, DJ Mrs Brown e Emicida
(aê, pra
quem desacreditou, tamo de volta
- hahahahahahaha
– a rua é nóis Zona
Norte, Jardim Fontalis, Lauzane, Cachoeira, Vila Zilda...)
Então
segura que é Rap nacional! Sai da frente que isso é Rap
nacional!
Pele preta, tarja preta, na sarjeta da
história Beretas a mão, sem brasão, sem memória Sem milhão,
só porão, só grilhão, óh escória Favelas, hard core, nas
telas, Val Marchiori
Olhe,
esse jornais, a 2 mil anos atrás Gritaram: solta
Barrabás Tornaram crime, nosso Deus, nosso Jazz De notas
livres, cê sabe o que isso faz
Foi
repressão sobre repressão, sobra a depressão Sobe a inflação,
cabe ao são, inflamar a nação Informar a ação que monetiza a
fé Porongos foi Canudos, foi Carandiru, foi Racionais na Sé
Sou
Clementina, Skelé, Palestina, axé Na esquina um Zé e... Pantera
Negra Tupi Não pra TV (não), pro CV (jão), mil grau Tipo
Lampião (então) banditismo social
Isso
é um campo minado, morô? Tem que ser loko pra seguir de pé Se
quiser arriscar, demorô ta no seu nome ladrão, vai na fé O
barato ta doido e tem mais Ninguém confia em ninguém Querem
tornar sua mente alcatraz Ou febem (descreditar … ã, ã!
...)
Relaxa,
o discurso acha, rumo nas caixa É Gaza a faixa, onde balas não
são de borracha Vidas em baixa, avenidas em marcha, é Tua
causa encaixa, mas não vê mortos da maré
Tem
cor de graxa o desprezo por quem vive à Mercê das praxe a la
presos na Bolívia Refém das taxa, vacina é tua, livre-a 'Té
crença racha, se fecha junto a Bíblia
(AH!)
Dor do canto embala, banto, senzala Sem pala, tanto que fala, pra
ala O cântico estrala, a luta de João Cândido exala Liberdade,
ao contrário no que o povo inala
(AH!)
Nota agora, sequela, não gela O nó na goela, revela Tua rota
mata, a nossa salva, sem cela De um mundo que semeia Beira-mar pra
colher Dráuzio Varela
Isso é
um campo minado, morô Tem que ser loko pra seguir de pé Se
quiser arriscar demorô ta no seu nome ladrão, vai na fé O
barato ta doido e tem mais Ninguém confia em ninguém Querem
tornar sua mente alcatraz Ou febem (descreditar … ã, ã! …)
Então
segura que é Rap nacional Sai da frente que isso é Rap
nacional!”
E não é por acaso que o sample que
o DJ Mr Brown utiliza para fazer seus scrats é um fragmento com a
voz de Mano Brown, extraído de Vida Loka I, a mesma canção que
parece conter o estopim que dinamitou a rigidez da quadratura do rap
Rashid, tal como Emicida, teve seu nome projetado dentro da cena do
hip-hop por seu bom desempenho nas batalhas de MC's. É um dos poucos
que possui o Galo de Ouro (título dado somente aos MC's que várias
batalhas seguidas na Rinha dos MC's – coordenada pelo DJ Dandan e
Criolo). Em 2010 o jovem MC lançou o EP “Hora de Acordar”, que
abriu o caminho para as mixtapes “Dádiva e Dívida”, “Que
Assim Seja” e “Confundindo Sábios”, respectivamente em 2011,
2012 e 2013. De sua última mixtape é que extraímos o exemplo que
escutamos alí em cima, e que dá nome à nova tur que estreiou no
SESC Belenzinho nesta quinta.
O nome do disco, e a inspiração para o rap homônimo, vem de uma
passagem que Rashid se lembra de ter ouvido quando criança durante
uma missa. Sobre a parceria, Rashid fala à Revista Fórum: “Fizemos essa música realmente juntos, cada rima, e
entramos no estúdio com o objetivo de confundir quem estiver
ouvindo, já que não existe uma parte de cada um na música, rimamos
juntos o que acreditamos e o que observamos com a força que o rap
nos dá”.
A letra, como eu a articulei em estrofes alí em cima, tem a mesma
estrutura de vários rap's que se fazem hoje. O “Duas de Cinco”
do Criolo, que eu já comentei por aqui, é um bom por exemplo.
Percebam que as 3 primeiras estrofes destes dois raps repetem o beat
na tonalidade da música, e a 4ª estrofe aparece como a
modulação que cadencia o final da primeira parte do rap. Isso se dá
da mesma maneira nas duas seções. Cada estrofe é formada por dois
dísticos, ou seja, é uma quadra, o que coincide com a quadratura
(ciclo de 4 compassos) musical. Dentro desta quadra a rima pode
continuar a mesma (a, a, a, a) ou variar em (a, a, b, b). Existem
raps que são mais “quadrados” e a rima acontece basicamente só
no final destes dísticos, mas uma das vertentes que mais tem ganhado
destaque é a que explora de maneira estratégica as rimas internas
(mesmo os que exploram um flow mais pesado – quadrado – costumam
se utilizar também da flexibilidade ritmica que as rimas internas
proporcionam, porém de maneira mais moderada).
“ Pele
preta, tarja preta,
na sarjeta da história Beretas
a mão, sem brasão,
sem memória Sem
milhão, só pórão,
só grilhão, óh
escória Favelas,
hard core, nas
telas, Val Marchiori...”
Se imaginarmos a letra inteira colorida, podemos ter uma dimensão
dos complexos jogos de rima que aparecem nesta obra (o que não é
exclusividade só dete som!). O estilo do Emicida e do Rashid
desenvolvem muitas das inovações de flow que tornou o Mano Brown
uma referência tão importante. E não é por acaso que o sample que
o DJ Mr Brown utiliza para fazer seus scrats é um fragmento com a
voz de Mano Brown, extraído de Vida Loka I, a mesma canção que
parece conter o estopim que dinamitou a rigidez da quadratura do rap
por aqui: “tocou a campainha, plim, pra tramá meu
fim, dois maluco armado sim, um isqueiro
e um estopim”.
A
musicalidade destes novos MC's é, provavelmente, o conteúdo mais
contundente de suas obras.
Bem, como se não bastasse essa complexidade de sonoridade, o canto é
dividido de modo a confundir a escuta e não conseguirmos
identificar exatamente quem canta o quê. Isso é um aspécto ainda
pouco explorado no universo do rap, onde as parcerias entre os MC's
costumam ser divididas de maneira mais clara, onde fica inclusive
marcado as diferentes perspectivas de cada um sobre um mesmo tema.
Aqui não ocorre isso. As vozes se misturam como se fossem um único
MC.
_Tá,
você falou do flow, mas e o conteúdo, Jão!?
_Calma,
já chego lá.
Não considero forma e conteúdo duas instâncias separadas. A
musicalidade destes novos MC's é, provavelmente, o conteúdo mais
contundente de suas obras. É chover no molhado – principalmente
depois do texto do Walter Garcia “Ouvindo Racionais” – dizer que a
força que o discurso do Mano Brown possui se dá justamente por um
equilíbrio fabuloso entre “o que está sendo dito” e o “como
está sendo dito”. Então, só para clarear mais um detalhe sobre a
musicalidade que envolve o trabalho do MC (por que, é claro, tudo
também depende do DJ e do Beatmaker – que podem ser a mesma pessoa
ou não), é importante perceber o tamanho dos versos. A
irregularidade das métricas é outro fator de diversidade musical.
Se temos um verso curto, por exemplo, é muito possível que tenhamos um
tempo forte vazio, e se temos um verso longo, é bem possível que o
caráter mais passional (emotivo) seja evocado por conta da
respiração que exige um fôlego maior e tende também a agrupar o verso
seguinte. Resumindo, a flexibilidade rítmica é um dos fatores que
compõe isto que se chama de flow.
Certo, isso tudo não é invenção de uma só pessoa, e por mais que
o trabalho dos Racionais seja um monumento sobre o qual devemos nos
debruçar para entender esta arte que toma conta das ruas, e
compreender as próprias ruas, estas técnicas e dicções são muito
difíceis de se rastrear a origem. O fato é que para a geração do
Rashid e do Emicida (que é um pouco mais velho) o trabalho dos
Racionais é quase uma cartilha que os MC's tem que cumprir e
respeitar. E nessa cartilha existem lições sobre música e sobre
sociedade. E é daí que a perspectiva do tema de “Confundindo
Sábios” tira seu substrato mais básico.
Então, qual o conteúdo extra-musical, ou melhor, qual o conteúdo
social que “Confundindo os Sábios” traz? Bem, o hip hop como um todo baseia-se na proposta de dar voz à
realidade da periferia. Ou, em outras palavras, o hip-hop se propõe
elaborar um discurso que retrate a situação do excluído, daquele
que não tem lugar ao sol no projeto urbano das grandes cidades. Do
negro, essa cor tão mutável na sociedade brasileira. Nesse sentido,
versar sobre a exclusão racial e social que divide o país é o
assunto central de 90% dos raps que se engajam no hip-hop. Com nosso
exemplo – à despeito da crítica rasa que ataca este novos MC's
como “rap modinha” – acontece o mesmo.
A perspectiva do “banditismo social” que a letra se refere é um
mote recorrente dentro dessa conjuntura que apontamos. Desde, pelo
menos, Dimas – figura evocada por Mano Brown como o primeiro Vida
Loka da história – aquele crucificado ao lado de Jesus, que se
tornou santo católico depois de sua redenção. Ficar esmiuçando
todas as referências históricas que a letra faz menção não é
tão frutífero neste momento. Mas é importante lembrar que ao
pronunciar nomes como JoãoCândido ou Barrabás, por exemplo, os
autores instigam seu público – em sua maioria jovens – a buscar
informações sobre estes personagens históricos, o que funciona
como uma importante estratégia de educação social – tanto para a
periferia quanto para a classe média que se orienta à esquerda.
Neste ponto o rap nacional é completamente explícito em sua
proposta: ao jovem da periferia resta a guerrilha, que pode ser no
crime ou no hip-hop. “O nó na goela, revela/ tua rota mata, a
nossa salva, sem cela”. Assim,
não há exagero algum ao dizer que o rap salva vidas, tanto em sua
atuação mais de base (com figuras como o Nocivo Shomom, por
exemplo) quanto na atuação com um público mais amplo (como é o
caso do Rashid e do Emicida).
Não é pouca coisa o fato do Mano
Brown participar do DVD Criolo e EmicidaAo Vivo (que teve a
direção da Paula Lavigne, só pra frisar). Neste encontro de
gerações e perspectivas do hip-hop o Brown aparece com um boné
que, ano passado passou pela cabeça de Spike Lee, por exemplo,
escrito “A rua é Nóiz”.
O ruído pode ser pensado como aquele evento que acontece fora de um
círculo de convenções tidas como corretas. Italianos, por exemplo,
tendem a falar mais alto que japoneses, mas são brancos. Sabem que
em um templo de compras não devem entrar em bando cantando suas
canções de festa. Afinal, um templo não é lugar de dança que
mexa com o hemisfério sul do corpo. Quando alguns negros entram em
bando nesse templo cantando essas músicas dadas às partes de baixo,
provocam um ruído. Ruído se diz “noise” em inglês. E por ter
uma natureza de encruzilhada, de campo de batalha, de espaço compartilhado, é que a rua é noise.
No sábado do dia 7 de dezembro, será realizado o 3º Londrina RAPFest.
Este evento vem quase como um contrapeso do que foi o show do Criolo
em Londrina. Apesar de inesquecível – o show do Criolo é
realmente de tirar o fôlego – este evento amargou uma certa
“incoerência” ao cobrar 50 reais (com área vip por 80!!!) em um
show de rap.
Neste
show, DJ Dandan levou um papo com a plateia (heterogênea!)
lembrando que já estivera em Londrina há 15 anos atrás,
ministrando uma oficina de hip-hop. Ainda agradeceu a plateia,
divulgou a banquinha de produtos do grupo (um dado importante deste
novo panorama de produção cultural), e concluiu dizendo que era a
comunidade quem era responsável pelo rap local. Frisando, enfim, a necessidade do apoio à cena do hip-hop da cidade.
O
argumento central deste texto é enfatizar, a todos aqueles que foram
no show do Criolo, a importância de se ir ao evento que irá ocorrer
neste sábado.
Fato é
que o povo da “A Firma Ativa” - que tem o Thales UZI, um dos
articuladores mais importantes da cena do rap londrinense - está
realizando um evento com até mais atrações (e com mais de artistas
locais!) só por 15 reais. O evento promete ser uma celebração
“mais de raiz”. Em outras palavras, muito mais hip-hop, menos
classe média. É o que promete, tendo em vista que a principal
atração deste 3º FestRap é justamente a polêmica figura de
Nocivo Shomon.
O
argumento central deste texto é enfatizar, a todos aqueles que foram
no show do Criolo, a importância de se ir ao evento que irá ocorrer
neste sábado. Para isso, penso que seria legal começar sondando o
conceito de polifonia de Bakhtin, e como este princípio está
presente na cultura hip-hop. E, sem desejar fomentar as desavenças
do movimento, quero me valer do exemplo do conflito entre os rap's
“Ooorra” e “A Rua é Quem?”, respectivamente do Emicida e do
Nocivo Shomon, para evidenciar a complexidade deste ice-berg com o
qual o Titanic da classe média colidiu.
Polifonia
– (se estiver sem tempo, pula essa parte, outra hora vc volta e lê)
Ao se debruçar sobre a obra de Dostoiévski, Mikhail Bakhtin acaba elaborando o conceito de polifonia aplicada ao gênero de romance criado por seu conterrâneo. Bakhtin percebe que nos romances de Dostoiévski os personagens possuem vozes discordantes e contraditórias. No romance polifônico existem no mínimo dois heróis (PIRES, 2010. pg.70), que lutam por pontos de vista e juízos de valor distintos.
O gênero polifônico se contrapõe ao monofônico (onde uma voz domina as outras vozes) e retrata os conflitos dos embates sociais, sempre de maneira dialógica. Segundo Schnaideman (2005, p. 15), no pensamento de Bakhtin, a importância da multiplicidade de vozes é uma afirmação democrática e antiautoritária. A polifonia, e toda a noção de dialogismo, funciona no rap de maneira
profundamente ligada à sua perspectiva política. Assumir as
contradições, as múltiplas vozes e múltiplos pontos de vista, é uma
postura de grande coerência ideológica e estética dos artistas do
movimento hip-hop.
Muitas das ideias de Bakthin já foram utilizadas para explicar e analisar a cultura hip hop. Dialogismo, intertextualidade, interdiscurssividade e polifonia são conceitos corriqueiros na literatura que busca dar luz a esta linguagem de resistência cultural das ruas. Nas palavras de Rociclei Silva (2011, p. 52), “O hip hop se caracteriza por sua diversidade de vozes e linguagens que se chocam constituindo uma verdadeira arena de conflitos, mas que nenhuma se sobrepõe à outra.”.
O grafite, o break e o rap são as principais frentes de combate artísticas do movimento. Mas não podemos esquecer que o movimento também abrange a moda, as gírias, o gestual corporal e, mais recentemente, a criação de uma literatura (escrita) local, a militância e organização em espaços virtuais (através de blog's, sites, e canais de distribuição de música), a criação de experiências em vídeo (não só através da ocupação de “espaços públicos” de informação, com programas em grandes emissoras como a TV Cultura e a MTV, mas também através da produção independente de video-clipes e “vídeos documentários” sobre a movimentação da cena) e a organização dos sempre tradicionais bailes de rap, onde os agentes produtores dessa cultura são ao mesmo tempo público e artistas.
Só o rap já possui em si duas frentes interdependentes de atuação que, como o próprio nome já faz referência, se relacionam aos aspectos rítmicos e poéticos do discurso dessa linguagem cancional. Em outras palavras, temos nas funções de DJ (o tocador de discos) e MC (o mestre de cerimônias) um constante diálogo em que os atores desenvolvem não uma única ideia, mas suas várias ideias, associações e pontos de vista sobre determinado tema.
É muito comum existirem coletivos de rap, grupos compostos por dois ou mais MC's, que dividem a batida para exporem seus relatos. Os Racionais MC's, por exemplo, que constituem o grupo de maior e mais duradoura visibilidade do cenário do rap nacional, é composto por Mano Brown, Ice Blue e Edy Rock nos vocais e KL Jay responsável pelos toca discos. Isso, associado à uma postura frente às mídias, à imprensa e ao público, dilui a ideia de super star ou de ícone pop, ao contrário, torna horizontal a relação de poder e valor de cada um dos membros.
A polifonia, e toda a noção de dialogismo, funciona no rap de maneira profundamente ligada à sua perspectiva política. Assumir as contradições, as múltiplas vozes e múltiplos pontos de vista, é uma postura de grande coerência ideológica e estética dos artistas do movimento hip-hop.
As
Vozes
Como eu
disse antes, minha mais sincera intenção não é aumentar o clima
de “treta” dentro do hip-hop, mas, partir de uma reflexão atenta
sobre um dos conflitos de maior evidência dentro do movimento.
Resumidamente, pra quem está chegando agora neste debate, existe uma
forte resistência à “popularização” (talvez devêssemos
chamar de “classemediatização”) do rap atual. Esta resistência
vem principalmente dos produtores (MC's e DJ) do rap undergroaund,
mas não só, é comum também vermos esta mesma postura em
acadêmicos estudiosos – ou simplesmente apreciadores – do rap.
Para quem já estava envolvido com o hip-hop desde antes destes 5 ou
6 últimos anos, esta nova onda do rap parece só mais um modismo,
que desvirtua a natureza combativa e de contracultura proposta pelo
movimento. Existe até um apelido pejorativo dado a esta “nova
cara” do movimento: “rap modinha”.
Talvez o
exemplo mais bem acabado que este conflito gerou esteja na “treta”
entre o Emicida e o Nocivo Shomon. Não cabe aqui empreender uma
busca para averiguar quem começou desrespeitando quem – até mesmo
porque os insultos são básicos dentro dos conflitos de freestyle,
do qual ambos participaram diversas vezes. Esta querela lembra em
muito a que aconteceu entre Wilson Batista e Noel Rosa, onde Wilson
era o “ideal de malandro” e Noel era um branquinho estudante de
medicina. Até mesmo a fase de afirmação nacional que o samba vivia
durante aquele período é comparável à atual fase do rap, que vem
– definitivamente – se consolidando dentro da tradição da
canção brasileira. Assim como o sambista, na época de Noel, sabia
que estava lidando com um monumento cultural de extremo valor, e que,
não sendo invenção sua, ele deveria ter responsabilidade por esta
cultura que floresceu à margem da sociedade, o rapper de hoje sabe o
legado que as primeiras gerações do hip-hop nacional lutaram para
construir, e pesa sob seus passos a tensão de qual caminho seguir.
Mas qual
seria exatamente esta crítica feita ao “rap modinha”?
É
importante que pensemos as canções escolhidas para esta breve
análise, como prismas pelo qual vislumbraremos a polifonia do
hip-hop. Um raio-X – localizado – do movimento. E, em virtude
deste objetivo, é fundamental comentarmos também sobre outras
obras e outros artistas.
Bem, o
Emicida lançou em 2009 sua primeira mixtape intitulada “Pra quem
já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe...”. A
última faixa deste trabalho é a canção – já disse em post
anterior que pra mim rap é canção - “Ooorra...”, em que o MC
se defende de ataques que sofria. Este rap não é uma “diss”,
como é chamada uma obra de discórdia e afronta endereçada à um
artista ou grupo de pessoas em específico. Ou seja, por mais que
tenhamos a tentação de escutar este rap como sendo endereçado ao
Nocivo Shomon, que explicitamente a rebateu com “A rua é quem?”,
devemos ter em mente que se trata de uma obra de afirmação do
artista frente à um padrão de críticas que ele vinha – e vem –
sofrendo.
Mas qual
seria exatamente esta crítica feita ao “rap modinha”? Tudo
começa com a afirmação que a turma do Emicida (com o Projota,
Kamau, Rashid e outros) tomaram para si como slogan: “a rua é
nóis”. Existem muitas culturas dentro do hip-hop. Só para citar
um exemplo significativo desta “divisão”, existe o grafite –
que já vem sendo legitimado, dentre o restante da sociedade, como
uma importante manifestação artística – mas existe também a pichação – que ainda é vista como puro vandalismo. É a polifonia
do movimento. É isso que faz com que ele não se cristalize. Bem,
voltando às críticas ao “rap modinha”, existem ataques de ordem
pessoal que pretendem deslegitimar os artistas mencionados como
justos representantes da voz da periferia.
É neste
sentido que o texto do Emicida será desenvolvido, buscando legitimar
sua integração dentro da realidade da periferia, demonstrar quais
os motivos que unem seu grupo (sua panela, segundo os que criticam),
e ainda – principalmente – argumentar contra a clássica afronta
do “se vendeu”. O primeiro fato que Emicida se reporta para
legitimar sua voz como representante de um contexto socialmente
carente é sua história familiar, em que seu pai morreu quando ele
ainda era criança, em decorrência do alcoolismo. Esse fato aparece
também em outras canções, como por exemplo em “Crisântemo”,
uma verdadeira obra prima que merece um post só para analisá-la. A
primeira estrofe é dedicada somente a este fato, e Emicida o utiliza
como um aceno para chamar a atenção dos “muleques” que não
respeitam os pais:
“Vendo
os muleques ai, com pai mãe do lado e nem respeita
Deviam ser por
um dia o que eu sou a vinte anos
Pra ve se
'cêis ia' tá na de trocar os coroa pelos manos”
Somente
ao final da obra é que surgem os versos que parecem endereçados ao
Nocivo Shomon:
“E o
justo, então antes de criticar quem 'cê' vê trampar
Cala boca e
pensa, quantas história 'cê' tem pra contar
Falar que ao dizer
''a rua é nóiz'' pago de dono da rua
Desculpa, eu vivo isso e a
incerteza é sua
Se você não se sente dono dela, xiu não
fode!
E antes de escrever um rap, me liga e pergunta se pode.”
Utilizando um pensamento do José Miguel Wisnik, eu diria que o
Nocivo é mais cívico, enquanto o Emicida é mais malandro.
Vamos
deixar um pouco o exemplo do Emicida e escutar “A Rua é Quem”,
do Nocivo, que está presente em seu primeiro disco intitulado “Assim
que eu sigo”, lançada também em 2009. Diferente da “estratégia”
do Emicida, de contar sua história para legitimar sua atuação
dentro do rap, Shomon parte para a ofensiva. Com uma rápida passagem
pela sua vida privada, citando suas filhas, Nocivo se apoia muito
mais em criticar a postura do outro rapper do que de construir uma
“defesa” sua.
São
muitas frases de efeito. Muito do clima de disputa de MC's, o lance
de ridicularizar o adversário com tiradas e ofensas, está
presente em A Rua é Quem. A crítica mais constante, que aparece sob
várias formas durante a letra, é a de que Emicida mente sobre sua
vida, e que as histórias são falsas para agradar e vender. Chega a
ser engraçado para quem é de fora do rap ver uma questão dessa
sendo tratada com tanta paixão, isso porque a poesia é livre para
forjar a realidade que quiser. Pessoa já dizia que o poeta é um fingidor, e o Leminsk dizia que o primeiro personagem que um escritor
cria é ele mesmo. Mas, dentro do hip-hop, esta coerência entre o
dizer e o fazer é algo importante sim, e não devemos de forma
alguma menosprezar este fato.
Acontece
que muito mais revelador do que as letras, pra mim, é o próprio
som. Enquanto a base do Emicida tem um balanço mais leve, ocasionado
pelo ataque do grave (da bateria eletrônica) no contra do segundo
tempo, a base do Nocivo é mais reta, mais pesada, pois cai sempre
nos tempos fortes. Isso é um dado que parece muito sutil mas que na
verdade determina muito do caráter geral que estas duas canções
assumem. A poética do Nocivo é sempre mais direta, mais agressiva,
mais máscula, enquanto a do Emicida é mais sutil, mais feminina.
Utilizando um pensamento do José Miguel Wisnik, eu diria que o
Nocivo é mais cívico, enquanto o Emicida é mais malandro.
Nocivo está cada
vez mais engajado dentro do espaço que ele reivindicou – fora da
grande mídia – e Emicida está com um poder de abrir fronteiras
cada vez mais sólido.
Isso está
presente também no “flow” de cada um. Os versos do Emicida são
bem mais assimétricos, o que lhe garante uma maior variedade de
fraseado e uma proximidade maior com a fala, enquanto o Nocivo
constrói uma estrutura poética feita basicamente de dísticos
razoávelmente simétricos. Em termos da Semiótica da Canção,
poderíamos dizer que o Emicida preza pela figurativização enquanto
o Nocivo pela tematização, ou seja, o Emicida parece realmente
estar falando de si e o Shomon enumerando os problemas do
adverssário.
Por um
lado o “beat” do Emicida tem mais variação de textura – no
refrão entra uma guitarra, que muda consideravelmente a atmosfera –
garantindo-lhe uma maior variedade sonora, por outro, o som do Shomom
é muito mais monótono – até o groove que ele recortou para fazer
de base só tem um acorde, de Mi menor, que não se altera até o
final do refrão. Acontece que dentro dessa monotonia que o Shomon
cria, o final se torna surpreendente. O fragmento que se repete como
base é libertado de seu ciclo maquínico no final da música – nos
5:05 – e coincide com o final da frase “ser fudido não é
orgulho pra ninguém não, mano, orgulho é nóis sair da lama, vamo
evoluir, vamo pensar grande, porque enquanto nóis pensar pequeno
nóis não vai conquistar nada de grandioso...”.
Vale
desvendar um pouco ainda o flow do Nocivo. Reparem que durante a
primeira estrofe sempre rolam rimas nos finais de duas em duas
frases. Mas acontece uma rima de aproveitamento antes de se passar
para o próximo dístico. Acontece um esquema mais ou menos assim:
----------a
----------a
----a-----b
-----------b
----b-----c
----------c
----c-----d
----------d
(e assim
por diante)
Vejam:
“A
verdade tá de volta e idiota não vai conter
Bico
que se abala é uma bala pra quem se cala bater
Não
vim aqui dizer o que a massa deseja ouvir
Vim
pra fazer império de pela saco cair
E ver os rato
fugir e abandonar o navio
Cansei de festa lotada
pra ouvir rap vazio
Meu desafio não é competição de MC
É
lutar a cada dia pra ver minhas filha sorrir
Na sede de demolir
canta rima repetida
Tu conta muita história pra quem tem tão
pouca vida
Sempre a mesma que ideia que só você sofreu
Eu
lutei muito pelo rap pra tu dizer que ele é teu
Aí fudeu, os
clone no microfone é foda
No palco manda mentira os puto grita e
vira moda
Uns cantam por amor outros só pra fazer nome
Treta
é botar muleque pra fazer papel de homem
Inevitável travar
guerra nessa terra de ateus
Pra calar falso profeta que pensa que
virou Deus
Mando o barulho do bagulho eu também sei
Menino
tu não é do morro e nunca vai virar rei
Cuidado com o que
escreve, deve ter mais cautela
Grita que é da rua, nunca será a
favela
Nocivo atropela martela os pela que amarela na cena
Teu
cache é pesado mas teu rap é peso pena.”
Bem, as
duas canções são bem interessantes. A do Emicida tem a vantagem de
conseguir viver sem a do Nocivo, mas nem por isso a deste é
inferior. Devemos lembrar, ainda, que estas obras foram compostas em
2009, e muita água rolou de lá pra cá, inclusive outros sons e
clipes de troca de críticas. A postura de ambos artistas se tornou
mais madura, e a crítica mutua fez o nível de auto exigência (já
que um está pouco se fudendo pro outro) se elevar. Nocivo está cada
vez mais engajado dentro do espaço que ele reivindicou – fora da
grande mídia – e Emicida está com um poder de abrir fronteiras
cada vez mais sólido.
O papel
da geração mais velha foi – e está sendo – fundamental para
clarear as relações ambíguas do movimento. A participação do
Mano Brow no show do Criolo e do Emicida ao vivo e a participação
do Edy Rock no Caldeirão do Huck não são pouca coisa, e fizeram
muitos repensarem seus preconceitos e perceberem o momento
estratégico que o hip-hop vive. O diálogo com os meios de produção
mais comerciais elevaram muito a qualidade da produção dos novos
trabalhos, e isso é um dos maiores trunfos desta caminhada. A
ampliação de público não deve ser entendida somente como “estamos
juntando um din”, mas como estamos levando a consciência que
desenvolvemos nas quebradas para o centro da cidade! Para mim parece
muito sintomático que as passeatas que ocorreram este ano – onde a
maior parte eram estudantes da classe média – tenha tido se
utilizado de palavras de ideias que estavam presentes no discurso do
Criolo na praça Rosveld. Sobre isso eu já escrevi aqui.
A
acusação de que o trabalho dos novos MC's está ficando sem
conteúdo não procede. Existem muitos conteúdos. E o trabalho de
MC's como Kamau e Emicida possui uma enorme importância pois aponta
novos rumos para o movimento. Agora, novos rumos é uma expressão
complicada, pois não quer dizer de forma alguma que todos devam
seguir este caminho, ou que este é o melhor caminho. Quero dizer,
com esta expressão, que são caminhos que ainda não foram
devidamente trilhados, enquanto o trabalho de base, mais próximo das
indignações da periferia, este já tem sido feito desde muito
tempo.
Pra mim –
e de novo quero frisar que é uma opinião de alguém que chegou não
faz muito tempo dentro deste repertório – o grande lance do
hip-hop é essa possibilidade de coexistência destas perspectivas.
Qualquer uma das duas levadas ao extremo, apagando a voz da outra, é
problemática. A perspectiva do Shomon é problemática pois não
estabelece um diálogo com o que está além dos muros do
preconceito, tornando o gueto cada vez mais gueto, onde o ideal –
aqui creio que todos concordariam – seria que não houvesse mais
essa divisão (pra não falar guerra) de classes. (“Desigualdade
traz tristeza”, Criolo). Já a perspectiva do Emicida é
problemática pois facilmente se cai em um mar de ilusões de egos
inflados (“Prest'enção que o sucesso em excesso é cão”, Mano
Brow), e em uma perigosa confiança na “fé de vencer”.
Por sorte
essa rixa que aconteceu parece ter vacinado tanto o Emicida quanto o
Shomon. No último trabalho do Emicida ele problematiza esta questão
da falsidade que é a vida de shows (em Hoje Cedo), enquanto lemos no
facebook (29/11/2013) o Nocivo Shomon dizer:
“e
outra fita;por eu criticar as ideias do emicida num som não tira o
que ele tambem fez e faz de bom pela cultura em geral,depois dele que
uma pa de muleque aprendeu como ser sua própria produtora,a criar
suas capinhas de cd a mão e acreditar na música,muito mano conheceu
primeiro os free dele pra depois conhecer o rap em geral,e eu
criticar as ideias de alguem é diferente de dizer que esse alguém
não tem sua importancia,e queira ou não o maluco é bom nos free e
tem talento e vontade e ta correndo coisa que muitos ae nunca fizeram
que é trampar,eu não gostar da música dele ou das ideias é outra
fita,então não tire suas conclusões sem ouvir da minha boca,sou
maduro e sei a importancia do papel de cada um!!!!!!critiquei e
critico pra ver melhoras na nossa cultura,não critiquei por criticar
ou por ódio!!!!!!!!”
Bem,
agora falta essa consciência chegar ao público, que, de um modo
geral, ainda está alimentando essa rivalidade pelo que ela tem de
ruim para o movimento. Mas espero que seja uma questão de tempo,
pois seria uma injustiça muito grande para com o talento do Nocivo
sempre colocá-lo como o rival do Emicida, além de representar um
enfraquecimento do sentimento de coletividade tão caro à revolução
que o hip-hop almeja.
No dia 26 de outubro tive a oportunidade de fazer uma pequena entrevista com o Siba, em sua passagem por Londrina. Foi a primeira vez que me atrevi a "entrevistar" alguém, então não esperem um desempenho lá grandes coisas. Assistindo ao vídeo que fizemos, percebi que minha ansiedade em comunicar um monte de ideias, somado ao fato do natural constrangimento frente à câmera (e ao Siba), e o angustiante grave que vinha da passagem de som, me deixaram cômico. Mas blz. Eu supero.
Devo agradecer à Patrícia Zanin (da rádio UEL FM) por ter agendado nosso papo. No dia do show, mais precisamente durante a passagem de som no teatro, Siba concedeu uma série de entrevistas. Foram 3 antes de nos atender, e em cada uma ele foi deixando a marca de seu raciocínio claro e profundo. Nestes papos que precederam nosso papo, Siba esclareceu sua relação com a cultura popular, dizendo-se ((com as minhas palavras)) muito mais um agraciado do que um agraciador. Ainda deu uma aula sobre suas referências de guitarra, de Hendrix a Franco (guitarrista congolês), e esclareceu o que é turnê e o que são shows estratégicos de ampliação de público, passando na prova dos nove da humildade.
"... a não ser nessa vidinha, classe média, confortável, que a gente leva achando que tá livre de tudo, quando na verdade, ela tá aí, ó, a morte tá sempre presente mesmo sem a gente ver, acho essa consciência muito importante..."
E para quem está chegando por agora no repertório desse pernambucano (seja bem vind@! ), eu recomendo assistir ao teaser do documentário Nos Balés da Tormenta. Tem também o Fuloresta do Samba, que é de lei. Seria legal também ler o texto que o próprio Siba redigiu apresentando o novo trabalho. Vale a pena fazer isso, mas dá pra continuar lendo... ;)
Enfim, chegou a hora do nosso papo. Eu tentei fazer algumas perguntas, todas meio confusas, talvez você tenha que assistir mais de uma vez pra entender o que eu estava pensando, e não é culpa sua... mas, é o que tem pra hj. O Siba foi super compreensivo e deu umas respostas massas pra caramba! Por isso vale assistir ao vídeo, pois entramos em alguns assuntos que normalmente não podemos desenvolver em conversas rápidas. Neste vídeo-documento você pode conferir Siba tecendo algumas reflexões sobre a vida e a morte, sobre o sagrado, sobre o artesanato cancional, sobre muita coisa...
E ao fim do vídeo vocês podem conferir meu momento fã. Tomei coragem e toquei a versão que fiz de Qasida. Uma singela homenagem que tem muito a ver com o rumo que as perguntas tomaram. De fato, muito da interpretação que tenho sobre a obra do Siba está relacionada com um projeção que faço, amplamente apoiada no repertório que montei para dar aula de História da Canção (que ministrei este ano no Festival de Música de Londrina).
Clicaqui, e assista agora o vídeo que o Mioto fez especialmente para nosso blog! Valeu mesmo, meu mano! E valeu também ao Alexandre Ficagna e ao Fagner Bruno, respectivamente pelo som e câmera... todo mundo com a mais pura camaradagem! Massa mesmo, gente!
A verdade é que fiquei com vontade de proseá muito mais... Faltou refinar mais sobre como Siba fez a aproximação com a música congolesa e afegã, por exemplo. Algumas das coisas que percebo como paralelo com a música árabe - de um modo bem geral - é a utilização de longas seções instrumentais, as mudanças de andamento e o uso de compassos com métrica alternada. E, como paralelo com a música do congo, eu poderia lembrar da utilização da marimba (ele mesmo disse em algum lugar, a marimba entraria na banda para remeter ao som da Kalimba) - Mulatu Atatke toca marimba - e do uso constante da dobra de sexta nos solos de guitarra (no começo eu achava que isto se remetia mais à uma inversão das terças caipiras das violas) e do suingue sincopado dos acordes nas cordas mais agudas. Gostaria de perguntar também, sobre como foi o processo de busca pela sonoridade do disco, a utilização de tuba e marimba em meio às guitarras dele e de Catatau. Mas, tudo isso fica pra próxima... ou eu organizo melhor e faço por e-mail... mas tá, isso é outro papo.
Espero que tenham gostado.
Até!
ps.: tem um vídeo que eu recomendo...
Este vídeo é muito legal, e apresenta cenas do ensaio da banda que veio à Londrina. Serve como amostra do show que vem sofrendo mutações desde seu nascimento. Lembro que eu me toquei do tamanho da delicadeza de Bravura e Brilho durante o show... percebam - aos 5'24" do vídeo acima - que contraponto mais inusitado que o teclado e o assovio fazem com a melodia da voz (isso junto com toda a textura que muda e fica mais em staccatto)... este timbre de assovio, a sonoridade desta seção, tem uma espessura robusta, grávida de significados! Com todo respeito, precisa de muita cera nos ouvidos para não escutar uma referência ao universo infantil nesta passagem.
Criolo foi um dos estopins desta nova "boa onda" - visibilidade - do rap nacional. O seu segundo disco, o Nó na Orelha, produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, levou a poética do Kleber Cavalcante, filho da Dona Vilani, para além da cena do hip hop nacional. Vocês já devem conhecer um tanto desta história...
O primeiro disco do Criolo, quando ainda assinava Criolo Doido, chama-se Ainda há Tempo e pode ser conferido aqui.
É importante escutar o "Ainda há Tempo" para se ter uma ideia mais clara do que foi o "Nó na Orelha". Podemos dizer que muitas das coisas que caracterizam a poética do Criolo em seu segundo disco já estão presentes neste primeiro trabalho. Mas o que seriam estas "coisas que caracterizam a poética"? Aí não é tão fácil de dizer assim rápido... mas penso que o primeiro ponto que grita nisso que chamei de poética do Criolo é este apelo ao amor, como fica claro tanto em Ainda há Tempo - a canção - quanto em Não Existe Amor em SP.
Poderíamos pensar que o manejo das palavras vai ficando, do primeiro álbum para o segundo, mais abstrato. É evidente que o uso de metáforas e de um discurso mais subjetivo é uma das marcas mais fortes do Nó na Orelha. Mas é preciso lembrar que este segundo álbum é um registro de canções (pra mim rap é canção, mas é importante frisar que o próprio Criolo faz esta distinção de termos) antigas, que eram conhecidas somente pelos amigos próximos que ficavam com as "orelhas cheias de nós" depois de escutar o Klébinho cantar. Vejam que os títulos dos álbuns refletem com precisão esta diferença de propósito, enquanto um se engaja com mais afinco com os problemas emergenciais da comunidade o outro se destina (entre outras coisas) à um aprimoramento da consciência e do exercício lógico/poético. Estas diferenças são tendencias gerais, e não distritos isolados um do outro.
Nos shows que Criolo registrou ao vivo - no Circo Voador e com o Emicida - rolou um resgate natural de algumas canções do primeiro disco. Ainda que a figura pública - repercutida pela imprensa - do Criolo tenha se mostrado mais pelo seu lado "mais amor", o MC inconformado sempre esteve presente.
Mas a fase Nó na Orelha acabou. Agora Criolo vem apresentar um novo show, mais próximo da estética de base do hip hop. DJ Dandan, por exemplo, assume o toca discos. A banda está mais compacta, e sem os metais coordenados pelo Thiago França, a guitarra de Guilherme Held ganha outro peso. Até mesmo a postura (e vestimentas) do Criolo parecem frisar a natureza deste novo momento, onde conquistado um novo público, é preciso reforçar a natureza combativa de sua arte. Me lembro de uma das inúmeras entrevistas que eu vi do Criolo, em que ele dizia que um MC não faz rap por falta de escolha, e sim pq é preciso fazer!
Vale a pena conferir estes dois vídeos que se seguem. O primeiro é uma chamada para o show de estreia do novo trabalho, o Duas de Cinco, e o segundo é a canção ao vivo (não consegui colocar pra assistir aqui... ???).
Bem, como este é um blog de caráter educacional, vou comentar um pouco sobre algumas características desta nova canção, a Duas de Cinco, pois trabalhei ela com alguns alunos de instrumento - não do curso "A Canção e Seus Sentidos".
Antes de mais nada é preciso escutar com calma a canção original de Rodrigo Campos, a Califórnia Azul.
Rodrigo Campos consegue criar um texto cheio de sugestões, mas com buracos imensos, onde nos convoca à uma escuta ativa. Em nenhum momento aparece uma cena clara. Mas são imagens onde podemos localizar uma intriga entre dois jovens - o crime foi consumado? (é só uma potência para o mal, uma energia deslocada... pode haver salvação... "vamos resgatar", Criolo clama em Ainda há Tempo...) - tráfico, poder, autoestima...
"Não tava lá fazendo cêra
ele não tá de brincadeira
garoto se jogou no asfalto
carregado na canseira...
Deixou a mina na calçada
como é bonita e safada
fica me olhando desse jeito
e eu não posso fazer nada...
Já dei plantão na rua dela
namorado na favela
garoto que já tem cartaz
e a mina dando trela...
Compro uma pistola do vapor
visto um jaco Califórnia azul
faço uma mandinga pro terror
e vou...
Se eu fosse um cara diferente
chegava junto de repente
beijava a boca e tudo mais
pelo tesão que a gente sente...
Compro uma pistola do vapor
visto um jaco Califórnia azul
faço uma mandinga pro terror
e vou..."
Perdão colocar a letra inteira aqui pra vocês, mas senti que era importante percebermos esta escrita do Rodrigo Campos, bem ele, que tal como Criolo, também cresceu na periferia de São Paulo. Esta canção é uma crônica que registra o drama de um jovem sujeito ao crime, motivado por aflições humanas básicas... um desnudamento ao ponto de revelar a fragilidade do ser, o que transcende o limite da luta de classes... um discurso imagético, com referências locais e de época (jaco califórnia azul é uma jaqueta azul, que era o sonho de consumo dos jovens da década de 1980; vapor é apelido - antigo - para os jovens e crianças trabalhadores do tráfico de droga)...
A parte musical também é muito condizente com toda esta proposta narrativa. O violão de Campos é muito simples (atenção professores de violão, esta canção é uma ótima pedida para se trabalhar com os alunos!), mas de forma alguma é simplório. Temos uma harmonia modal em Em, composta por um movimento dissonante nos baixos... este violão acaba sugerindo uma atmosfera de suspense, sensação reforçada pela construção da letra... tudo é muito simples, mas muito contundente.
A forma da canção também traz informação, pois articula o texto de maneira assimétrica, destacando o sentido da última estrofe. Esta configuração formal, este recorte do tempo, sublinha a dimensão do tesão (força tipicamente jovem) e da insegurança frente à um grupo (conflito tipicamente jovem). Os momentos instrumentais da canção valorizam as conexões subjetivas desencadeadas pelo texto. O trabalho de textura e sonoridade desta canção é fantástico - tb, é o Kiko Dinucci aí!
Criolo disse que quando acabou de escrever a primeira parte de Duas de Cinco, ele já sabia que gostaria de ter como refrão a canção de Rodrigo Campos. De fato, muitas das características estilísticas que apontei no Rodrigo são aproveitadas por Criolo. Vejamos:
(sample de Califórnia Azul)
É o cão, é o cânhamo, é o desamor/ é o canhão na boca de quem tanto se humilhou/ Inveja é um desgraça, alastra ódio e rancor/ E cocaína é uma igreja Gringa de le chereau// Pra cada rap escrito uma alma que se salva/ O rosto do carvoeiro é o Brasil que mostra a cara/ Muito blá se fala, a língua é uma piranha/ Aqui é só trabalho, sorte é pras crianças// Que vê o professor em desespero na miséria/ Que no meio do caminho da educação havia uma pedra/ e havia uma pedra no meio do caminho/ ele não é preto velho mas no bolso leva um cachimbo /// É o sleazestack dos zóio branco, repara o brilho/ Chewbacca na penha, maizena com pó de vidro/ Comerciais de TV, glamour pra alcoolismo/ É o Kinect do XBox por duas buchas de cinco.
HA-HA-HA-HA-HA-HA HA-HA-HA-HA-HA-HA Chega a rir de nervoso Comédia vai chorar
(sample de Califórnia Azul) E eu fico aqui pregando a paz e a cada maço de cigarro fumado a morte faz um jaz entre nós, cá pra nós, e se um de nós morrer, pra vocês é uma beleza.// Desigualdade faz tristeza./ Na montanha dos sete abutres alguém enfeita sua mesa./ Um governo que quer acabar com o crack, mas não tem moral para vetar comercial de cerveja. // Alô, Foucault, cê quer saber o que é loucura?/É ver Hobsbawm na mão dos boy, Maquiavel nessa leitura. /Falar pra um favelado que a vida não é dura, e achar que teu doze de condomínio não carrega a mesma culpa. // / É salto alto, MD, Absolut, suco de fruta, mas nem todo mundo é feliz nessa fé absoluta/ Calma, filha, que esse doce não é sal de fruta, / Azedar é a meta, tá bom ou quer mais açúcar?"
Temos a questão do tráfico de drogas como cenário da canção. Imagens da cultura de massa de outras épocas aparecem na letra (sleazestack, e Chewbacca). Vários extratos sociais estão presentes neste texto. É uma verdadeira polifonia de referências, uma fala de alguém que trafega entre mundos com vocabulários diferentes. Alguns ouvintes sabem o que é "duas bucha de cinco", outros sabem quem foi "Hobsbawm". Isso em princípio, pois quem foi que criou este muro invisível? Este muro é real?
Dizer mais sobre esta letra, que é uma pedrada, é estragar sua fruição. Apenas recomendo, busque as referencias que lhe faltam e tente criar as imagens e reconstruir os "argumentos" deste texto, vale a pena. Aqui tem um link que dá umas primeiras dicas, mas vá mais fundo.
Eu apresentei o texto já articulando as frases com os compassos e a cadência harmônica da canção - desculpem, pra mim ainda é canção. O sample do Rodrigo Campos cantando é manipulado em estúdio e acelerado. O andamento (velocidade) da canção fica um pouco mais rápido enquanto o tom da música vai do Em para o Fm (sobe meio tom). Bem, o trecho do sample possui o mesmo acompanhamento do Rodrigo, só meio tom acima - isso simplificando, pq tem um monte de sons adicionais que orquestram esta nova obra. Este acompanhamento é constituído de um movimento de baixos descendente (láb, sol, fá, mib, ré), desemboca em um zigue-zague cromático (dó#, ré, mib, ré), e por fim chega ao tom (fá). Mas quando a canção inicia a parte rap, entramos em uma estrutura monótona harmonicamente. Um único Fm durante 12 compassos. Nos momentos em que eu separei com /// - " sleazestack"... e "É salto alto..." - acontece uma mudança no acompanhamento. O baixo entra em uma linha próxima da composição de Rodrigo Campos, onde as duas frases do início são aproveitadas (fá#, mi, sol; fá#, mi, fá#), e as duas últimas substituídas por uma repetição da primeira (onde na canção original de Rodrigo faz sol, la, ré) e um encaminhamento para para o fim (originalmente havia "dó#, si, mi", mas agora aparece um frase longa de "sol, fá#, sol, la, ré, dó# si" - meio tom acima).
Isso tudo parece uma confusão, mas se você arriscar tocar, estas coisas que eu escrevi vão clarear a ideia do todo... caso você não toque, perceba somente que o lance da intertextualidade proposta por Criolo é plenamente orquestrada pelo Daniel Ganjaman e pelo Marcelo Cabral.
É, foi meio até aqui que fui com meus alunos de violão e guitarra.
Certo, sábado agora tem show do Criolo (e mais Maneva, Haikaiss e Mama Quila) e estamos todos convidados a presenciar este que é hoje um dos artistas mais sabidos da canção brasileira.