sábado, 7 de maio de 2016

Ainda Há Tempo, 10 anos depois

João de Carvalho

Em 2006 Criolo lançou seu primeiro disco, o Ainda Há Tempo. Um clássico, cheio de pérolas que já integraram o repertório de vários shows. Mesmo assim, o disco de 2006 é um disco de rap underground, e longo pros ouvidos atuais (que contam com uma saturação de informação). É um disco anterior à fiel parceria entre Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral. Nesta época seu principal parceiro apoiador era o DJ Dandan. União responsável pela criação da Rinha dos MC's, festa de hip-hop que formou e revelou vários dos principais talentos da nova geração de rappers de São Paulo. Ainda Há Tempo é um disco de um dos manos mais loucos do movimento hip-hop, o Criolo Doido. Dá uma olhada num show dele, na época: Criolo Doido, Live in SP.

Ontem, dia 06/05/2016, Criolo lançou seu terceiro álbum com produção do Ganjaman. Se trata de uma reedição do disco de 2006. Esse lance de regravar o mesmo disco, anos depois, com algumas adaptações, não é algo novo. Caymmi, por exemplo, regravou praticamente seu mesmo disco, voz e violão, em 1954 e 1959 (Canções Praieiras, e Caymmi e Seu Violão). Outro exemplo mais recente, Chico César regravou seu clássico Aos Vivos 16 anos depois. Ainda Há Tempo, 2016, se insere nessa tradição de álbuns revisitados pelos próprios autores. 


O disco abre com É o Teste, canção que traz os versos:

"E a minha mãe que cuida de mim independente da
minha idade,
E quem não tem mamãe, valoriza e tem saudade.
Eu respeito, há como eu respeito,
Amor de mãe não se escreve, aí não tem defeito.
Seria tão bom se a mãe da gente não sofresse,
Não ficasse doente e também não envelhecesse.
É coisa ruim, hoy, a gente até esquece,
As mães que não compreendem os manos que cantam rap."

(Oportuno para a data de lançamento, próximo ao dia das mães.) 

Com a já prevista altíssima qualidade de produção musical, o disco traz oito textos preciosíssimos para os dias atuais. Uma ótima oportunidade pra quem não conhece as canções mais antigas do Criolo se aproximar mais do movimento hip-hop, e pra quem já as conhece, percebê-las de outra forma. E que não passe desapercebido que a atualidade dos textos revela que os problemas que nos afligem são crônicos, e que enquanto não encararmos o rompimento com os ciclos viciados que estruturam nossa sociedade não estaremos minimamente preparados para o vertiginoso desmoronamento de um sistema em colapso, como o que vivenciamos. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mãe, segundo Dona Jacira

João de Carvalho

O Nego Dito Itamar Assumpção já se reportava à uma tradição ancestral de respeito à força das mulheres. Sua canção Mulher Segundo Meu Pai faz parte de um gesto maior (envolvendo outras canções e a valorização de elementos musicais pouco comuns) que busca o desenvolvimento estético de uma nova sensibilidade, menos machista. Na polêmica canção InSOMnia, de 2014, Emicida entoa "quem não liga Itamar Assumpção que ver os milagres do Emicida como?". Começo meu texto traçando esse paralelo para apresentar o novo clipe do rapper paulista: Mãe.


Dentro do hip-hop a figura da mãe é tida como sagrada. Bem como na moral dos campinhos, onde só não pode colocar a mãe no meio, as batalhas de rimas e demais locais onde se manifesta a cultura hip-hop sempre trazem narrativas que valorizam o papel das mães. De fato, o apoio incondicional (que inclusive muitas vezes gera "machos mimados") das mães - quando estas existem - é um dos poucos portos seguros com que a alma de alguém que mora na periferia pode contar.

Dona Jacira, mãe do Emicida e do Fioti, já foi homenageada diversas vezes pelos filhos e também já participou como parceira de outros trabalhos (Jacira e Crisântemo). Neste novo clipe (quarto vídeo do novo disco) ela volta a aparecer, tanto como homenageada como performer de sua própria poesia. Lembremo-nos que ela já havia marcado forte presença no clipe de Boa Esperança, onde vive uma empregada doméstica insurgente. Em Mãe, um quase espelho de Crisântemo (que é uma canção em memória do já falecido pai dos irmãos Leandro e Evandro), Dona Jacira aparece mais uma vez como uma figura forte, capaz de inspirar e servir de exemplo para outras mães.


 O filme de Levi Riera possui uma trama que se sobrepõe à canção, de forma indireta, mas se articula conforme suas partes. O que vemos é um sonho do rapper, que ao final desperta escutando sua própria canção. A "sala principal" desse sonho é uma paisagem bucólica, uma floresta (plantação) de eucalipto, onde o MC vaga, encontrando um piano de brinquedo que dispara a canção. Depois desse encontro com a música, Emicida volta a perambular, até encontrar algumas portas, que acessam lembranças. A canção se divide em duas estrofes que desembocam no refrão (da Anna Tréa, cantora/violonista da banda) antes de concluir com a seção declamada (Spoken Word) da Jacira. Cada estrofe corresponde à uma sequência do filme. A primeira é uma história de opressão dentro de um colégio católico, onde as freiras brigam com uma menina negra por algo que ela estava escrevendo, e como punição colocam a menina para limpar o chão. Emicida está sonhando com uma história de sua mãe.



A segunda porta, que se articula com a segunda estrofe, leva o rapper para seus tempos de garoto. Esta sequencia é bem interessante do ponto de vista formal, pois possui dois espaços opostos: a reunião familiar, em casa, e a balada. O jovem - que é o Emicida moleque - meio que desperta de um encanto (festas vazias de significados) com a voz da mãe, que o chama pra casa.



Na última seção temos a porta que leva Emicida ao encontro de sua mãe, que interpreta seu próprio texto contando sobre o nascimento do rapper. A imagem da mãe funde-se (pela montagem dos planos) à do pianinho de brinquedo. Talvez seja importante lembrar que a palavra música provém de musas. Neste caso, a mãe/musa é mãe/música. E é ainda de se notar como aquela mulher, que vimos como uma criança oprimida e depois como uma dona de casa, também oprimida, surge vertida numa matriarca poderosa no meio da mata.


Depois disso temos Emicida acordando em um quarto espaçoso e com mobília visivelmente mais cara (e uma gracinha meio Harry Potter pra ficar de fundo enquanto passam os créditos). O vídeo saiu estrategicamente para dialogar com a data do dia das mães (este lance de lançar música pra "datas especiais" tá ficando cada vez melhor!). Mas muuuuiiiito além de ser uma homenagem à mãe, este clipe toca em discussões muito profundas e urgentes para o Brasil. Nessa semana em que as escolas preparam e realizam homenagens para as mães, na maioria das vezes partindo de uma construção de maternidade idealizada dentro de modelos judaico-cristãos, temos um momento oportuno para pensarmos questões relacionadas à família. Questões estas que devem ser cada vez mais debatidas e conscientizadas, sendo talvez a única forma de barrar a onda reacionária que cresce em nosso solo e ganha força com o golpe que está em andamento. Retomando a referência que eu havia feito no início ao Itamar, o que Emicida propõe com este novo clipe é uma evidente valorização de sua ancestralidade africana, que assim como no caso do Nego Dito, lança outras luzes e possibilidades para compreendermos a família.

Emicida/ Dona Jacir/ Anna Tréa

Um sorriso no rosto, um aperto no peito
Imposto, imperfeito, tipo encosto, estreito
Banzo, vi tanto por aí
Pranto de canto chorando, fazendo os outro rir
Não esqueci da senhora limpando o chão desses boy cuzão
Tanta humilhação não é vingança, hoje é redenção
Uma vida de mal me quer, não vi fé
Profundo ver o peso do mundo nas costa de uma mulher
Alexandre no presídio, eu pensando no suicídio aos oito anos, moça
De onde cê tirava força?
Orgulhosão de andar com os ladrão, trouxa!
Recitando Malcolm X sem coragem de lavar uma louça
Papo de quadrada, 12, madrugada e pose
As ligação que não fiz tão chamando até hoje
Dos rec no Djose ao hemisfério norte
O sonho é um tempo onde as mina não tenha que ser tão forte

Nossas mãos ainda encaixam certo
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóiz
A sós nesse mundo incerto
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóiz

Outra festa, meu bem, tipo Orkut
Mais de mil amigo e não lembro de ninguém
Grunge, Alice in Chains
Onde você vive Lady Gaga ou morre Pepê e Neném
Luta diária, fio da navalha. Marcas? Várias
Senzala, cesárias, cicatrizes
Estrias, varizes, crises
Tipo Lulu, nem sempre é so easy
Pra nós punk é quem amamenta, enquanto enfrenta as guerra, os tanque
As roupas suja, vida sem amaciante
Bomba a todo estante num quadro ao léu
Que é só enquadro e banco dos réu, sem flagrante
Até meu jeito é o dela
Amor cego escutando com o coração a luz do peito dela
Descreve o efeito dela, breve, intenso, imenso
Ao ponto de agradecer até os defeito dela
Esses dias achei na minha caligrafia
A tua letra e as lágrima molha a caneta
Desafia, vai dar mó treta
Quando disser que vi Deus
Ele era uma mulher preta

Nossas mãos ainda encaixam certo
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóiz
A sós nesse mundo incerto
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóiz

(Onde for, tudo
Tudo eu ouvia nóiz
Onde for)

O terceiro filho nasceu, é homem
Não, ainda é menino
Miguel bebeu por três dias de alegria!
Eu disse que ele viria, nasceu
E eu nem sabia como seria
Alguém prevenia, filho é pro mundo
Não, o meu é meu
Sentia a necessidade de ter algo na vida
Buscava o amor nas coisas desejadas
Então pensei que amaria muito mais
Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada
Me sentia como a terra, sagrada
E que barulho, que lambança
Saltou do meu ventre e contente parecia dizer
"É sábado gente! "
A freira que o amparou tentava reter
Seus dois pezinhos sem conseguir
E ela dizia: "Mais que menino danado!
Como vai chamar ele mãe? "
Leandro


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Racionais e a crise: Um Preto Zica e Conquista

João de Carvalho



Os Racionais MC's lançaram (dia 26/04/2016)  o primeiro clipe de seu último álbum. Um Preto Zica é a sexta "cena" do disco Cores e Valores, de 2014. O álbum, que é composto por quinze faixas, em geral bem curtas, possui um caráter cinematográfico, cheio de cortes, ângulos e ações. As primeiras sete faixas compõe uma espécie de variações sobre o mesmo tema: Cores e Valores. 

O compositor Arnaldo Antunes tem uma canção onde, resumidamente, celebra nossa fusão de culturas e etnias. Nesta canção ele diz "somos o que somos, somos o que somos, inclassificáveis". Em contrapartida o disco do Racionais MC's reconstrói essa narrativa pautada no mito da democracia racial e expõe um argumento que evidencia o conflito: "somos o que somos, somos o que somos, cores e valores".

O clipe de Um Preto Zica é uma parceria com KondZilla, uma importante produtora áudio/visual do funk ostentação paulista. Como informa matéria no G1, "Kondzilla tem mais de 1 bilhão de cliques somados em seu canal no YouTube. Nas primeiras quatro horas no ar, o novo clipe teve mais de 100 mil acessos."

A letra, com um refrão de Mano Brown que Caetano Veloso teria gosto de assinar, tem o desenvolvimento do argumento feito por Edi Rock. Como o disco e a estética dos Racionais MC's já previam, se trata de um clipe pesado. Violento. E possui como público alvo justamente a juventude que se identifica com a estética da ostentação. Uma pequena crônica de uma treta envolvendo personagens comuns e estereotipados: um delegado, um detetive, um X9, um ganso, a polícia e o preto zica.

"Preto zica, truta meu, disse assim
"Ih truta, mó fita! "
O truta meu disse assim (vai vendo)
Preto zica, truta meu, disse assim
"Mó fita, mó treta! " o truta meu disse assim (que fita)
Preto zica, truta meu, disse assim
"Ih truta, mó fita! " o truta meu disse assim (vai vendo)
Preto zica, truta meu, disse assim
"Mó fita, mó treta! " o truta meu disse assim (que fita)

Veja quanta ideia, bonitão
Os truta aqui tão, no mó conchavo
Torcendo por você e calculando seu cada centavo
Ficaram cego e a meta é tomar seu lugar
Intravenosa, venenosa, via jugular
Eu não quero tá na pele dos que leva e traz
Nem imaginar ou sumariar esse rapaz
Salve, mas um truta meu assim me disse
"Negar dinheiro é o carai, não fala tolices"
Que nem boliche, vixe, apavorou

Mas o resultado é consequência que o mestre falou
É tudo um teste, how! É como peste
Alastra e arrasta até que nada do nada me reste
Um truta meu me disse que o chicote estala
O inimigo da risada da sua vala no sofá da sala
Como se fala: "uma bala, escolha a sua! "
Encomenda o fracasso do palhaço em plena luz da lua
Quem de alma nua atua na sua mente
Faz você achar que o azar é só mero presente

Que aquela treta do passado se torne recente
Remanescente, dificilmente sai da guerra cientes
É deprimente, inocente, não olha pra frente
Em cada mente um pensamento desse inconsequente
Ou indecente, tente, ou iminente, é quente
É simplesmente: São vários e vários doentes"
 
Edi Rock interpreta o Preto Zica, e ostenta violência e força, valores que - infelizmente - são insígnias de respeito nas ruas. Nunca interessou ao RAP, em específico aos Racionais, sustentar algum discurso de conformidade com a ordem social vigente, uma vez que tal ordem escraviza, massacra e extermina a juventude que vive nas margens das grandes cidades. O público com o qual os Racionais dialoga, e tenta voltar a dialogar, é formado por seres humanos que convivem com a morte, injusta, cruel e sofrida, de seus amigos e familiares. Um público composto de gente pobre, que sonha com os paraísos de prazeres que a ideologia da ostentação promete. 

Assim como este clipe articula as faixas 6 e 4 (na última parte do clipe, quando entra a voz dizendo "cores e valores, cores e valores", estamos na faixa Trilha), podemos esperar qualquer continuidade para esta narrativa que foi aberta. Não sabemos ao certo como tudo isso vai se desenvolver, mas apesar de estarmos escutando a nova estética dos Racionais, ainda temos o princípio que liga a ideologia de Brown (e dos demais Racionais) com a do RAP dos anos 1990. As ideias de Eduardo, ex Facção Central, fornecem um exemplo perfeito de contraponto harmonioso com Brown, mas que no fundo aponta para a mesma coisa: existe um extermínio e uma guerra velada.

É interessante notar ainda que este clipe, que apresenta uma face não amigável de Edi Rock, foi lançado um dia depois do clipe do rapper em parceria com a Caixa Econômica Federal, em apoio às Olimpíadas que serão realizadas daqui menos de cem dias, no Rio de Janeiro. Em Conquista Edi Rock compõe rimas que buscam aproximar o esporte com o RAP. Neste clipe ele aparece soltando golpes de Boxe (um esporte importante dentro do imaginário do RAP, reverenciado em Quanto Vale o Show) e pregando uma certa união em torno das cores da bandeira (e isso não é nada relacionado à um movimento apoio à direita, que tomou para si as cores da bandeira em oposição ao vermelho, e sim à reapropriação de uma representatividade de nação). 
 
 

Tanto um como outro trabalho sofrem implicações de leitura por conta do momento político que estamos vivendo no Brasil, hoje. Semana passada Mano Brown deu um depoimento em que dizia que a periferia havia abandonado o governo, e que para ele se encerrava um ciclo. Enquanto isso as olimpíadas avançam com brutalidade sobre a favela.




domingo, 17 de abril de 2016

Levamos um golpe, mas berimbau não se cala...

João de Carvalho

Como já estava previsto em nossos sonhos terríveis, chutaram a democracia. Num golpe sujo, passaram o pé. Caímos todos junto com a Dilma. Quem se alegra com isso possui hipocrisia plantada na alma, pois aciona um super filtro da realidade, mantendo-se em uma cegueira abSurda, capaz de ignorar o que significa Cunha conduzindo esse processo e Temer na presidência da república. E o golpe foi sujo, sim, pois como sempre esses senhores de engenho nos cercaram com um poderio bélico arrasador (todo o arsenal midiático da TV e revistas, em especial os das organizações Globo, fiel parceira de golpes, é páreo duro para a desconstrução diária), e caímos com a Dilma. Acabaram com a roda que insuflávamos de axé, chamada democracia. Avacalharam com o jogo. Mas abra a janela, escute, as panelas estão quietas, porém berimbau ainda soa... baixinho agora, na sabedoria do recolhimento das matas... e lá dentro, na capoeira do mato, berimbau se lembra, inclusive, dos mortos de Eldorado dos Carajás.

Estava na correria tentando preparar um post sobre a canção pela democracia, mas o tempo passou e só consigo parar para escrever agora. Era pra ser um post de resistência, em especial, aos temores que se consolidaram no dia de ontem. Mas o dia de ontem foi o dia de ontem, e logo mais o sol vai raiar, independente de nós. E nisso tudo, a consciência que essa canção traz é ainda mais importante no dia de hoje, essa segunda feira esquisita, de recomeço de trabalhos.

    
Chico César, que está cada vez mais participativo no que se refere à canção utilizada como forma de esclarecimento político, aglutina um coletivo de mais 19 cancionistas (Ava Rocha, Edgar Scandurra, Jovem Cerebral, Alice Caymmi, Rico Dalasam, Drik Barbosa, ( + MC Sofia no vídeo), Evandro Fioti, Liga do Funk, Cacá Machado, Taciana Barros, Max BO, João Donato, Pequeno Cidadão, Coruja BCI, Guisado, Luís Felipe Gama, Ana Tréa, Lucas Santtana, Arrigo Barnabé). Cancionista entendido aqui como todos que integram o ciclo de significado da canção, em suas múltiplas formas - do rap ao funk. Assim compreendo como cancionista figuras e funções tão díspares quanto à de João Donato, que é pianista/compositor, quanto um dançarino da Liga do Funk. Como disse Rodolfo Caesar (grande compositor de música "eletroacústica"), quando vemos o nível estético dos que querem o fim do PT temos o argumento mais contundente de que lado ficar; com certeza do outro lado. Já os indivíduos que compõe este vídeo/canção são figuras que possuem esse "crédito estético", ao lado deles ficamos de boas com o "diga-me com quem andas que te direi quem és" - mesmo pq o Brasil que o Sérgio Reis diz conhecer é só o das grandes fazendas e dos hotéis luxuosos; favela, duvido! 




O Chico César já havia marcado presença com sua brilhante participação na Câmara do Deputados, dando de dedo com o texto gigante do Carlos Rennó nos Reis do Agronegócio. Nessa nova canção, Chico utiliza como base o ritmo do funk. Nesse dado temos algo muito maior do que uma apropriação com princípios de "realismo socialista", onda existe uma simplificação para comunicação com as massas. O ritmo do funk aparece pois evoca uma energia física necessária para este momento, de arrocho e luta. Além de ser um ritmo marginalizado, discriminado mesmo, acusado de pouco musical. Pior que o rap. Só que não, é no funk que encontramos a maior potência de resistência.

Eu já havia alertado em um post do ano passado, por conta do massacre contra os professores do Paraná, que enquanto as pessoas continuassem cantando Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, com andamentos ainda mais lentos e arrastados que as gravações do Vandré, elas iriam continuar levando porrada e bomba sem saber pra onde correr. É uma questão de estado corporal que a música te coloca. E o funk tem uma configuração rítmica que mexe de maneira muito forte com o corpo das pessoas. É uma força de batuque negro, não uma valsa em tom menor. E como articulação entre festa e resistência - novamente, tecnologia negra - o funk marcou presença no dia de ontem. O Furacão 2000 fez os morros cariocas descerem pra praia e dançarem pela democracia. 


Mas ainda assim tiraram a Dilma, e agora cabe compreendermos que a luta não acabou. É deprimente pensar que figuras como Jair Bolsonaro, capaz de dedicar seu voto ao torturador da Dilma, estarão cada dia mais fortes dentro do país. Regressos estão chegando à galope, precisamos nos conscientizar que a luta de classes existe (sempre existiu) e que agora ela está cada vez mais intrincada, uma vez que o sistema capitalista como um todo, em escala global, está ruindo vertiginosamente. 

Golpe Não
(Chico César/ Coruja BC1 /Luis Felipe Gama/ Rico Dalasam /Vanessa/ Drik Barbosa /Luis Gabriel)

O sistema é bruto, o processo é lento
nosso sentimento, não vai recuar
amor, liberdade, verdade, alimento
não tinha e agora querem golpear

as velhas raposas querem o galinheiro
roubaram dinheiro mas fingem que não
querem que o petróleo seja do estrangeiro
pra esconder ligeiro sua corrupção

refrão:
não não golpe não
quem não teve voto tem de respeitar
não não golpe não
nossa voz na rua vem para lutar

tentam nos cegar nas telas e nas bancas
com papo de patrão não vi a gente lá
meu povo precisa ter a voz ativa
golpe é fogo na favela
não vou apoiar

mulher no front aqui tem voz de monte
e menos que isso não vou acatar
avisa o gueto avisa o gueto
desperta que é golpe
ninguém vai impedir o meu jeito de amar

(refrão)

eu não abro mão do que sonhamos juntos
de todas as cores que eu quero usar
de todas as formas de ganhar amores
de todos amores que eu quero dar

se eu uso vermelho ou vou de amarelo
não tô num duelo, quero conversar
mano, mina, mona todo mundo é belo
nesse arco-íris todos têm lugar

(refrão)

golpe é ditadura, digo nunca mais
a vontade das urnas prevalecerá
pois quem distorce os fatos em telejornais
quer inflamar o ódio pro gueto sangrar

o machismo mata, a imprensa mente
mas a internet é nosso canal
somos a guerrilha na nova trincheira
a nação guerreira do bem contra o mal

(refrão)

a democracia é nossa bandeira
golpe é uma história que já sei de cor
todos nós queremos um país mais justo
todos nós queremos um país melhor

não queremos menos do que já tivemos
nós queremos muito, muito, muito mais
toda liberdade, amor, paz, respeito
e ninguém por isso vai andar pra trás

(refrão duas vezes)



terça-feira, 1 de março de 2016

A Canção e Seus Sentidos no Vista Bela



Ano passado tive a oportunidade de desenvolver o curso - que é o pai deste blog - no conjunto Vista Bela, aqui em Londrina. Isso ocorreu graças ao projeto MH2, do MC Leandro Palmerah, que recebeu apoio do PROMIC. Tivemos a alegria de ter mais uma vez o projeto aprovado, e agora contaremos com a parceria da Beatriz Skitnevsky (apoiando nos cartazes) e do Carão, que irá conduzir uma intervenção de grafite no dia do primeiro Sarau do projeto (os trampos que aparecem neste poste foram fruto de um dia que o Carão somou com sua arte na "block party" organizada pelo Palmerah). Recomeçaremos sábado agora, dia 05/03/2016!



Estão tod@s convid@s!



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Hahaha! Saiu o segundo clipe do novo disco do Ogi

João de Carvalho

Isto funciona em toda parte, às vezes sem parar, às vezes descontínuo. Isto respira, isto esquenta, isto come. Isto caga, isto fode. ... É por isso que somos todos bricoleurs; cada um suas pequenas máquinas. (Deleuze e Guattari)


Rá!, o novo álbum do rapper paulistano Rodrigo Ogi, é com certeza um dos melhores lançamentos deste ano. O disco tem uma sonoridade riquíssima e a caneta de Ogi está mais ágil do que nunca. Suas crônicas são construções cinematográficas, que envolvem sempre muitos personagens em ações de muitos movimentos. Obra esquizofrênica - de muitas vozes na cabeça -, como já é natural na estética de intertextualidades do hip-hop, mas bem mais densa do que o comum. Reflexo de um narrador que luta para "acordar os órgãos de seu corpo", contrariando o simples uso do corpo que o capitalismo nos impõe (Deleuze e Guattari, em "O Anti-édipo - Capitalismo e Esquizofrenia"), um "corpo/máquina sem órgãos", com a função desejo atrofiada... A primeira faixa é uma "rádio/narrativa" em que o rapper chega ao consultório para uma seção de terapia.  

Na faixa seguinte, o primeiro rap do álbum, Ogi apresenta seu narrador - que se mistura, mas também se dissolve, na figura do próprio rapper - como um "Aventureiro", em versos como "pois eu sou louco e ligeiro, louco e ligeiro, aventureiro/ e assim a selva cinza eu vou conquistar". Na faixa seguinte o narrador começa a relatar o que vê em seu caminho de desbravador das dores da cidade, em "Estação da Luz". Essa faixa relato de caminhante lembra-me muito duas canções, o "Brejo da Cruz", do Chico Buarque, e "Metrô linha 743", de Raul Seixas. As proximidades do plano formal se dão no trabalho da rima em em "uz" - em relação à obra do Chico - e de uma estrofe que se finda com a localização título - em relação à obra do Raul. Mas existem proximidades de conteúdo, e nesse sentido, de  "vozes da rua" que são registradas nas 3 canções.

Eu já havia, no post passado, chamado a atenção para o clipe de "Trindade, parte 2", um ótimo clipe que se utiliza da técnica de animação, ainda pouco explorada dentro do universo do hip-hop. Pois bem, a chamada de atenção vem novamente para este álbum agora por conta de outro clipe surpreendente. Me refiro ao lançamento de "Hahaha", clipe da canção correspondente à quarta faixa do disco Rá!.




O clipe é simples e ao mesmo tempo criativo. Simula um relato recheado de "aventuras amorosas", contadas para outros homens (Mc's de grande relevo dentro do hip-hop nacional). Ou seja, o rapper se aventurou em um território minado, dificílimo de se equilibrar sem cair em machismos. E, diferente do público de rap de antigamente, a sonoridade e as parcerias que compõe o álbum e aparecem no clipe (Criolo, Emicida, Black Alien...) formam um produto que aponta para um público composto em muito por mulheres, cada vez mais emancipadas e vigilantes. Não é à toa que na sequência filmada com o Emicida ambos aparecem caracterizados como sambistas dentro de um jardim - "Trepadeira", a canção que colocou o Emicida numa baita saia justa, se estrutura somente com nomes de plantas.


Mas o desfecho da história, o cuidado em "se garantir" no lado literário de seu texto, as imagens de contraponto das mulheres rindo da cara do convencimento do narrador, e o sonho, redimem Ogi. Até a performance do Criolo parece meio sem graça, cheia de um constrangimento de quem escuta e percebe o devaneio e o enrosco que o narrador vai se envolvendo. Na realidade todos os participantes do clipe escutam o relato já cheios dessa espécie de constrangimento.

Logo nas primeiras escutas desse som me veio uma outra canção à mente. Mais uma vez me parece curioso uma escuta em paralelo, agora com a canção da freira Jeanine Deckers. O paralelo inusitado é por conta da canção mais famosa da freira cantora, Dominique. Porém a canção de teor religioso, que brinca de maneira "primaveril" com o a sonoridade "nique nique" - primeiro mote sonoro do texto de Ogi - foi convertida de maneira "profana" para o português.  A gravação da freira desbancou até mesmo os The Beatles em 1963, e no ano seguinte foi lançada em português na voz de Giane.


Na versão em português, apesar da ingenuidade do sonho da personagem, que projeta um enredo romântico para seu amor - me chama a atenção a livre apropriação da obra, que se torna ousada ao pensarmos no contexto da original religiosa. O fato é que esse é só o estopim do compositor paulista, que vai dichavando rimas em "ique" na primeira sequência de versos. Depois ainda aparece uma citação ao Simonal - "mamãe passou açúcar em mim" - que mantém o tom de bom humor da narrativa.

Bem, apesar desse respiro pelo lado de Eros, nesse Amor/Humor engraçadíssimo, o disco não se distancia da violência e dos discursos "politizados" do hip-hop, que se embebem de Tanatos. Percebo, para finalizar a reflexão, como alguns instintos de "Amor e Morte" andam se equilibrando em mais de um grande lançamento deste ano. O disco do Chico César - que saiu pela LabFantasma - é outro que me chama a atenção nesse sentido.





domingo, 8 de novembro de 2015

O caso do cronista pixador Ogi

João de Carvalho

O presente texto é um pequeno "mapa", parte de uma cartografia maior, cujo foco é perceber a articulação audiovisual dentro do hip-hop paulistano. Isso bem em linhas gerais. Interessa saber que posto aqui mais até para chamar a atenção para o lindo disco do Ogi, RÁ!.




O desenvolvimento do texto, porém, foca mais em uma única canção - a que tem videoclipe. Isso pq este texto tb está em movimento e construção, e começou a ser gestado de um ponto específico, à saber, dentro da disciplina de Humor Gráfico e Processos Sociais. Ainda pretendo expandir estas reflexões para outras obras do disco, e outros clipes do próprio Ogi. Mas isso não é uma promessa. Por enquanto, segue a reflexão sobre "Trindade pate 2".


Dentre as muitas formas que o “audiovisual como expansão da canção” pode assumir, está o vídeo/clipe de animação. Esta forma é caracterizada por elaborar uma narrativa, normalmente nos modelos já estabelecidos do vídeo/clipe comercial, em que se alternam a imagem do artista e um enredo dramático paralelo. Dentro de quase todos os estilos musicais existem casos de vídeo/clipes que se utilizam da animação, misturando-a com imagens fílmicas dos artistas – como no caso de Jack Johnson, em Upside Down – ou transformando os músicos em personagens de animações – como no caso radical dos Gorilaz, uma banda que só existe na forma de animação.

O rap paulistano, hora ou outra, também se vale desta forma de comunicação áudio/visual para divulgar suas canções. O exemplo mais recente, e talvez, até agora, mais bem sucedido, é o caso de “Trindade, parte 2” do rapper Ogi. O vídeo foi lançado no youtube no dia 02/12/2014, e foi a primeira faixa divulgada do disco lançado semana passada (Rá!), dia 02/10/2015.

Rodrigo Ogi é um rapper paulistano que rima desde 1994. Seu primeiro disco solo é o excelente “Crônicas da Cidade Cinza”, de 2011. Ogi, além de rimador é produtor de batidas, grafiteiro e pixador. A relação que ele tem com as imagens reverbera de maneira muito interessante em seus textos, que são identificados por muitos como verdadeiras “crônicas”. No disco que o Criolo lançou ano passado tem um verso em que ele diz “um cronista? Ogi!”, como uma homenagem ao estilo do rapper. Inclusive essa proximidade com o pessoal que toca com o Criolo pode ser sentida em praticamente o disco todo, e de maneira mais explícita nas faixas onde o grupo MetáMetá1 se manifesta. O produtor Daniel Ganjaman, braço direito do Criolo, soltou em sua página do facebook, no dia do lançamento de Rá!, que este era o disco que ele estava mais escutando já fazia semanas. Fato é que qualquer mapeamento do áudio/visual do hip-hop paulistano, feito de maneira séria, não pode passar batido pela figura contundente de Rodrigo Ogi, e o vídeo de “Trindade, parte 2” é uma ótima oportunidade para pixar o “Rá!”, do Ogi, neste livro de mapas.

Já na segunda cena de Trindade, vemos o letreiro/pixação da cena inicial de dissolver em uma nuvem de fumaça, enquanto passa um trem de metrô todo “grafixado”2, paisagem urbana típica, com a visível presença do gueto na vida pulsante das metrópoles. O personagem principal da primeira sequência, o cronista, vem em cima do trem, salta o viaduto e chega ao baile. A associação do personagem da animação com o rapper Ogi é direta, a começar por traços de semelhança, mas principalmente pela cena, já logo no final da primeira sequência, em que o personagem principal da animação aparece cantando o texto, como se fosse o próprio MC.

Após chegar ao bar - ao baile - o cronista também se dissolve, em meio à vozes confusas, entramos no território da alucinação, no domínio da percepção alterada pelas drogas. Uma parte do curto, mas denso, clipe se passa no rolé da loira psicodélica na bicicleta.

Esta personagem lisérgica vai se transformando até que vemos o enredo do filme, e da narrativa da canção, passar para o ângulo do fornecedor da “brisa”. A caracterização deste personagem, fornecedor de drogas na noite, é a de um sujeito negro, que bebe enquanto dirige infringindo várias normas de trânsito. Este, logo chama a atenção da polícia e inicia-se uma perseguição.

O final da trama é arrepiante, reforçado principalmente por conta da velocidade dos eventos que se sucedem em menos de 2 minutos, e vemos o traficante se executado pela polícia, e no lugar do traficante vemos o rapper do início. A mensagem não é clara e moralista como em uma narrativa de campanha anti-drogas, mas a ligação entre o consumo, o tráfico e a tragédia é feita de forma arrebatadora.

No programa Estamos Vivos3, apresentado pelo DJ KL Jay, integrante do Racionais MC's, podemos acompanhar uma entrevista interessantíssima com Rodrigo Ogi. Nela, acompanhamos os dois em um passeio na região da casa do MC, onde vemos rastros nos muros, de ocupações noturnas de grupos de grafiteiros. KL Jay leva Ogi à um Sebo, onde presenciamos um bate papo que comprova a relação entre Ogi e as artes visuais, principalmente às narrativas visuais. Seus rap's são crônicas, é certo, mas são crônicas de um ávido leitor de quadrinhos e pixador inveterado, que escreve como que desenha uma história.



O clipe de “Trindade, Parte 2”, por dialogar intimamente com a poética do hip-hop e em específico com a estética do MC, é uma boa forma de adentrar o universo textual, poético e imagético de Rodrigo Ogi, e foi um bom aperitivo para o disco “Rá!”, em que o cronista pixador aprofunda seu radicalismo textual, polifônico e labiríntico. A escuta do álbum sugere, como muitos discos de rap, uma narrativa fílmica.

1Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França.
2Neologismo – gíria – que traduz a forma de expressão híbrida, entre o grafite e a pixação.
3Programa número 3, disponível no youtube, no canal Noisey. A websérie apresentada por KL Jay é mais um belo exemplo de como o hip-hop se articula com programas independentes feitos diretamente para o youtube.